Por Edição MMA Brasil | 25/03/2020 09:33

Por Idonaldo Filho e João Gabriel Gelli

A coluna De Olho no Futuro retorna com um post único com atletas do peso médio. A categoria, que por muito tempo esteve envelhecida, vem se renovando cada vez mais no UFC, com novo campeão e promessas aparecendo. No cenário regional também surgem novos prospectos, ainda que a renovação esteja acontecendo de forma mais difícil que outras categorias.

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São quatro atletas destacados, todos curiosamente ligados à Europa. Com atletas do Daguestão, Polônia, Hungria e Estados Unidos, confira os destacados pelo MMA Brasil para essa coluna, após análise de mais de 80 atletas da divisão até 84,4kg.

IBRAGIM MAGOMEDOV (5-0) – RÚSSIA – 25 ANOS

Russo do Daguestão, Ibragim Magomedov é mais uma joia da Gorets, uma das principais academias da Rússia. Magomedov é parceiro de treinos de atletas como Rashid Magomedov, Ramazan Emeev, Gadzhimurad Antigulov, Magomed Ankalaev e vários outros grandes atletas com passagem pelo maior nível do MMA mundial. Atualmente no ACA, Ibragim é uma das principais joias da organização e pode muito bem no futuro ameaçar o reinado de Salamu Abdurahmanov.

Com menos de três anos de carreira, Magomedov já mostra um bom potencial, enfrentando somente adversários de cartel positivo e vencendo todos eles. O lutador da Gorets vem de uma grande vitória contra Abdul-Rakhman Dzhanaev – russo que venceu Alex Garcia na sua última aparição. Ele é um lutador de porte dentro dos padrões da divisão e um bom atleta. O condicionamento físico tem se sustentado, mas como atua em ritmo lento, resta a dúvida de como reagiria a um duelo mais acelerado.

Para um lutador com tão pouco tempo de carreira, Magomedov mostra boa consciência tática e evolução técnica. De pé, tem preferência clara por uma postura de contragolpeador. Espera ataques dos oponentes e aproveita brechas para explodir em linha reta com golpes precisos. Dispara chutes ocasionais, normalmente nas pernas. Sabe avançar com combinações e variar as investidas entre cabeça e tronco. No entanto, o volume é muito baixo e não demonstra grande potência, seja para causar dano ou conseguir interrupções.

Ibragim também já mostrou que consegue usar o wrestling. O tempo para entrar nas quedas está em evolução, tem algum potencial ao encadear tentativas e é razoavelmente explosivo. Por cima, controla com um ground and pound protocolar, que apenas serve para manter a luta no solo. Não ameaça com finalizações, nem é um passador dinâmico, mas se defende com eficiência e corre poucos riscos.

No fim das contas, ele está em crescimento e já possui um arsenal forte, o que lhe torna um bom nome para a categoria. Mesmo assim, ainda precisa evoluir ao integrar as diferentes facetas do jogo e desenvolver mecanismos para atuar quando tiver que tomar a iniciativa com mais frequência.

LÁSZLÓ SÉNYEI (9-0) – HUNGRIA – 28 ANOS

A Hungria pode não ser um país tão tradicional no esporte, mas com a ascensão de Adam Borics no Bellator e as visitas constantes que a promoção faz até o país, cada vez mais o nível local se desenvolve. Laszlo Senyei é profissional desde muito jovem, estreando no esporte ainda em 2012 e dominando no FFC, tradicional evento da Croácia, que recentemente se mudou para os Estados Unidos. O húngaro se tornou campeão da organização em 2016, quando fazia carreira nos meios-médios e depois entrou em um hiato de três anos, retornando no fim do ano passado.

Atleta da Budapest Top Team junto de Adam Borics e Norbert Noveny Jr, ambos lutadores do Bellator, Senyei tem bons oponentes em sua lista de vitórias. Nomes como Luka Jelcic, Ivan Gluhak e Roland Cambal são três conhecidos veteranos do MMA europeu. Lutador completo, Senyei já realizou lutas de K1 e tem background no boxe, mas seu cartel é composto por cinco nocautes, três finalizações e uma decisão, mostrando versatilidade. Ademais, Laszlo não mostra comodismo e já buscou treinos em diferentes países, como na Holanda e nos Estados Unidos, onde treinou com Volkan Oezdemir.

O jogo de Senyei é muito baseado no grande volume de golpes em pé. Ele atua sempre com o intuito de pressionar o adversário a todo o instante com jabs certeiros e chutes baixos poderosos, que servem também para medir a distância correta do oponente. A movimentação impressiona e ainda melhorou com a subida para os médios e o consequente aumento de massa. Senyei muda constantemente de base, é eficiente golpeando com as duas mãos, tem muita fluidez na movimentação e utiliza muito bem a esquiva.

Com um wrestling apenas razoável, Senyei mostrou seu bom jiu-jítsu quando esteve por baixo, com uma guarda muito ativa e finalizações por triângulo e chave de braço no circuito regional, mas também pegando as costas na posição de clinch. Outro ponto positivo é o condicionamento, já que não mostrou muita queda de rendimento até hoje nos combates em que fez.

Existem algumas dúvidas sobre Laszlo Senyei. A primeira e mais importante é se ele pretende focar em sua carreira e ter maior frequência de combates. Outra questão é se pretende continuar na categoria dos médios ou retornar ao peso meio-médio, no qual lutou quando mais jovem e sem a quantidade atual de massa muscular que apresentou em sua última peleja. Caso se mantenha nos médios e seja mais ativo, é questão de tempo para assinar com uma grande promoção, possivelmente sendo o Bellator pela preferência da organização em lutadores da Hungria.

CEZARY KESIK (12-0) – POLÔNIA – 29 ANOS

Invicto em 12 combates na carreira, o polonês Cezary Kesik se destaca entre os vários prospectos do país do leste europeu e fez toda sua carreira por lá, atuando inclusive no maior evento local. Esse destaque fica ainda mais impressionante pelo MMA não ser o foco principal de Kesik. Ele faz parte do exército local e trabalha quase todo o dia lá, além de treinar em uma academia de pequeno porte.

Kesik é um atleta sólido, com um condicionamento adequado, boa força física, apesar de não ter dimensões avantajadas para a categoria. Enfrentou concorrência de nível baixo no geral, mas passou bem por ela. Realizou quatro lutas em 2019, sendo duas delas pelo KSW e é campeão dos médios do Thunderstrike Fight League, já com três defesas. A última delas veio em seu único combate de 2020 até aqui.

Kesik se diferencia por se mostrar um lutador focado em ter uma abordagem completa. Isto é visível a partir da implementação de diferentes estratégias de acordo com o tipo de adversário que enfrenta. De pé, ele solta golpes pesados e gosta dos chutes nas pernas, mas é descuidado defensivamente, além de ter uma técnica ainda em evolução.

O wrestling é baseado mais na insistência, com entradas executadas com explosão apenas média e com distância mal calculada ocasionalmente. Por cima, exerce controle posicional com quadris pesados e boa noção para quando executar transições e golpear com potência razoável. Mostra habilidade para pegar as costas dos oponentes.

Ainda que precise de alguns ajustes técnicos, é um lutador inteligente e que sabe o que busca na luta, mantendo um plano eficiente de início ao fim. Ainda que não possa manter a rotina de treinos constantemente, Kesik tem bom potencial e pode chegar ao UFC como um bom valor e que adicione profundidade a categoria, assim como seus compatriotas Krzysztof Jotko e Oskar Piechota. Vale lembrar que ele vem do mesmo evento que revelou Michal Oleksiejczuk para o UFC.

DUSTIN STOLTZFUS (12-1) – ESTADOS UNIDOS – 28 ANOS

O americano Dustin Stoltzfus é um lutador de carreira curiosa. Nascido na Pensylvannia, Stoltzfus se mudou ainda jovem para a Alemanha; É lá onde vive, treina e fez toda sua carreira como atleta profissional de MMA. Stoltzfus passou pelos maiores eventos do país, que são o GMC e o We Love MMA, no qual foi campeão na categoria dos médios. Invicto há cinco anos, é talvez o atleta com a carreira mais consolidada dessa lista e que certamente deve assinar com um grande evento internacional muito em breve, tendo em vista que esse é o próprio desejo do lutador.

Dustin sempre enfrentou boa oposição para o padrão europeu.  Sua principal vitória veio em um grande nocaute contra Jonas Billstein, que já foi campeão do Cage Warriors e teve passagem pelo Bellator. Ele estava marcado para sua estreia como profissional fora da Alemanha, em que iria enfrentar aqui no Brasil o veterano Tim Ruberg, pelo Brave CF, mas o evento foi cancelado por conta do coronavírus.

Com background em várias artes marciais, Dustin é um lutador completo e já teve experiências na capoeira, tangsudo, kung fu, além dos mais tradicionais boxe, wrestling e jiu-jítsu. Treinando com atletas como Peter Sobotta e Bojan Velickovic, Stoltzfus mostrou muita evolução ao decorrer da carreira, principalmente ofensivamente. Um lutador bastante empolgante, Stoltzfus é pouco ortodoxo e gosta bastante de chutes altos quando está mais distante, porém a preferência é pela troca franca de golpes. Demonstra potência nos socos e um queixo de aço, visível por conta da defesa muito vazada.

Além da variedade impressionante na trocação, Stoltzfus se mostra um grappler de qualidade e muito ardiloso. Ele costuma aplicar quedas de grande amplitude quando está grudado com o adversário na grade, ainda que seja fraco defendendo quedas. O jiu-jítsu é agressivo, de boas transições e busca por submissões diferenciadas. O americano em sua última luta conseguiu um belo twister, mas tem uma chave de joelho e mata-leões no cartel, compondo um jogo de chão completo e que é sua principal arma ofensiva.

Já acho que Dustin Stoltzfus poderia estar no UFC e lá se daria bem, é um lutador que ainda tem alguns buracos claros principalmente na defesa, mas que é muito melhor que vários atletas na cada vez fragilizada categoria dos médios. Ele tem potencial para descer para o meio-médio também, mas já demonstrou que a sua preferência é por não cortar peso. Uma chance no Contender Series não seria nada mal, uma vez que possui um estilo que agradaria o presidente Dana White.