Davi x Golias: A vitória mais dramática de Joe Louis completa 75 anos nesta semana

Joe Louis, o maior peso pesado de todos os tempos, viveu verdadeiro terror contra um oponente bem mais leve do que várias lendas que ele havia nocauteado com muito mais facilidade.

Ainda sob a emoção da perda do maior ícone da história dos esportes de combate, o lendário Muhammad Ali, que faleceu no último dia 3, muitos prestaram homenagens a ele como o maior pugilista de todos os tempos. Não há dúvida que Ali foi a figura mais importante da história da nobre arte e uma das mais relevantes personalidades do século XX. Porém, em sua colocação como número um peso por peso da secular história do boxe cabe contrapontos. Não só no peso por peso, mas na própria categoria dos pesados.

Muita gente boa considera Joe Louis o maior peso pesado de todos os tempos. Não é para menos; afinal, estamos tratando do dono do maior reinado da história da nobre arte, o homem que defendeu sua coroa por 25 lutas consecutivas, durante 11 anos e 10 meses (de 1937 até 1948, recorde registrado no Guiness Book), que venceu 27 combates válidos por cinturão mundial (triunfando por nocaute em 23 deles), que foi apontado o lutador do ano em quatro oportunidades (1936, 1938, 1939 e 1941), que fez a luta do ano cinco vezes, que é considerado o peso pesado número um da história pela International Boxing Research Organization e é também líder da lista dos 100 maiores pegadores de todos os tempos criada pela The Ring Magazine.

O “Brown Bomber” foi um ícone em seu tempo, responsável por recuperar a moral do boxe, que havia despencado desde a aposentadoria de Jack Dempsey e pelos casos de manipulação de resultados por causa de apostadores. Como já dissemos anteriormente, Louis foi o primeiro herói negro americano e ídolo do próprio Ali, juntamente com Sugar Ray Robinson (Ali, Louis e Robinson fazem parte do top 5 peso por peso de praticamente todos os analistas de boxe).

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Em sua lendária carreira, Louis bateu gigantes do naipe de Jersey Joe Walcott, Max Schmeling, Max Baer, James Braddock, Primo Carnera, dentre outros. Porém, a vitória mais dramática que Joe conquistou num ringue aconteceu contra um sujeito muito menor. No próximo dia 18 de junho, a vitória de Louis sobre Billy Conn completará 75 anos.

Quando “Gentleman” Jim Corbett tomou o título mundial dos pesados de John L. Sullivan, em 1892, os historiadores definiram o duelo como o primeiro Davi x Golias do boxe, em referência à diferença de peso entre os 96 quilos de Sullivan e os 85 de Corbett. Pouco menos de 30 anos depois, Jack Dempsey também bateu 85 quilos na vitória sobre Jess Willard, que tinha 26 quilos a mais. Recentemente, David Haye alcançou seu máximo de 99 quilos para desafiar o cinturão do gigantesco Nikolai Valuev, que pesou bizarros 143 quilos na luta de 2009.

Oficialmente, Conn foi anunciado com 79 quilos, enquanto Louis tinha 90,5. No entanto, o historiador Bert Sugar relata que Conn pesou 76,5 e Louis cravou 92,5. De acordo com as palavras de Sugar, “era um duelo entre uma metralhadora e um canhão”.

Ex-campeão meio-pesado, Conn abriu mão de seu título para tentar a coroa de Louis, que já havia enfileirado 17 desafiantes, inclusive tendo nocauteado Baer, Braddock, Carnera e vingado de forma avassaladora a única derrota até então, contra Schmeling. Billy era azarão na ordem de apenas 18 para 5 – na época, muitos achavam que Louis já não era o matador de outrora e estava mais suscetível a lesões, o que poderia ser perigoso contra alguém técnico e muito rápido como Conn, que só sofrera knockdown duas vezes na carreira e ainda venceu as duas lutas.

Um dos precursores do shoulder roll que fez a fama de Floyd Mayweather, Conn tinha que conter sua sanha de transformar as lutas em pancadaria. Se ele fizesse isso diante do maior pegador de todos os tempos, o fim seria trágico. Para piorar, os quatro campeões do meio-pesado que tentaram capturar a coroa da categoria de cima (na época ainda não existia o peso cruzador) haviam falhado miseravelmente.

Quase 55 mil pessoas compareceram ao Polo Grounds, estádio conhecido como “A Banheira de Nova York” (por causa do formato), numa quarta-feira à noite, para testemunhar a missão de Conn. Nos dois primeiros assaltos, no entanto, a impressão era que o desafiante teria vida curta. Louis partiu para o ataque e mandou couro para cima de Conn, que retrucou com poucos golpes de baixa contundência. A diferença de potência favorável a Louis era nítida. A de velocidade em favor de Conn também era, mas parecia que não surtiria maiores efeitos.

Billy começou a encontrar o caminho no terceiro round, quando um gancho de esquerda, seguido por um combo esquerda-direita, pegou Louis em cheio. Essas combinações rápidas de esquerda e direita renderam bons momentos para Conn também no quarto assalto. O problema é que ele se empolgou e ficou no raio de ação de Louis. Como castigo, levou uma canhota na linha de cintura (golpe que desempenharia papel fundamental no desenrolar do combate) e uma direita no queixo. O campeão sentiu a oportunidade e abriu fogo, mas o adversário se safou sabe-se lá como – ainda que tenha perdido o rumo do córner no intervalo.

Vendo que não poderia ficar no raio de ação de Louis, Conn passou a se movimentar com constância, conectando uma boa quantidade de jab-direto – o desafiante chegou a encurralar o campeão nas cordas. A luta parecia estar nas mãos de Conn, sua velocidade estava frustrando Louis.

Com dificuldade de achar a cabeça de Billy, Joe apostou novamente nos golpes na linha de cintura. Ele lançou três na boca do estômago de Conn e emendou com uma canhota na cabeça. O desafiante foi à lona, mas o árbitro Eddie Joseph erradamente considerou como um escorregão (o primeiro da luta, no primeiro assalto, foi correto). De volta ao controle, Conn voltou a carimbar a cabeça de Louis, que pareceu ter ficado encrencado, sem conseguir resposta para o feroz ataque do desafiante. Quando o gongo do 12º assalto soou, o público gritava de pé.

Àquela altura, Conn liderava as papeletas por 7-5 e 7-4, com a terceira marcando um empate em 6-6. Se vencesse mais um round, Billy conseguiria a vitória. Então, o treinador Jack Blackburn deu a ordem a Louis: “Você tem que nocauteá-lo para vencer”. Joe atendeu o comando, mas viu o desafiante fazer o mesmo. Resultado: a chinela cantou alto.

A cada pancada de Louis, Conn devolvia fogo e a pancadaria ficou insana no pocket. No entanto, essa atitude, que faria de Conn um herói, acabou dando cabo dele. Encarar a pancadaria contra um matador, com a luta praticamente ganha, foi um erro crasso. Quando um violento uppercut fez Billy balançar, Joe disparou uma saraivada que teria exterminado um ser humano normal. Não tinha como suportar tamanha pressão. A direita definitiva mandou Conn brutalmente à lona. O árbitro abriu contagem com Conn imóvel no chão. O desafiante tentou se levantar, mas Eddie Joseph cantou o “10” a dois segundos do fim do 13º assalto. O lutador que precisava de apenas um round para se tornar campeão mundial dos pesados estava nocauteado pela primeira vez na carreira.

A Ring Magazine escolheu este combate como a sexta melhor disputa de cinturão da história do boxe (confira aqui a lista completa). Louis e Conn voltaram a se enfrentar em 19 de junho de 1946, diante de 45 mil torcedores no icônico Yankee Stadium. Na ocasião, Louis cunhou uma de suas célebres frases: “He can run, but he can’t hide” (Ele pode correr, mas não vai conseguir se esconder). Conn teve uma atuação bem abaixo da de cinco anos antes e voltou a ser nocauteado, desta vez no oitavo assalto de uma luta que ele faturou apenas um round.

  • Gabriel Fareli

    Bela historia, gostei muito. Pra quem como eu que não conhece a maioria das histórias nem as grandes lutas da história do boxe, é muito divertido ler um texto tão explicativo, com tanta riqueza de detalhes que parece que foi algo que aconteceu ano passado.

    ????????????????????????????????????????

    • Essa é a nossa ideia, meu camarada. Que bom que rendeu o efeito esperado.

      • Paulo Cesar Lima Bueno

        Alexandre, parabéns pelo site.
        Acredito que você é sua equipe ainda não tem ideia da grandeza dos serviços prestados a nós fãs do mundo das lutas.
        Quanto ao boxe especificamente você sabe dizer se existe algum bom livro em português sobre o assunto?
        Abraço forte!

  • Marcos E

    Por causa da matéria procurei no YouTube. Muito bom!!! Que nervoso que dá do Joe Louis. O cara ia se aproximando lentamente a luta inteira, sem nenhuma grande mudança de ritmo. Meio frio. Aguentava porrada tipo um zumbi e continuava para frente em passos lentos. Muito foda. O Conn empolgou porque sentiu o cheiro de sangue no décimo segundo. Mas não conseguiu ser tão contundente depois, tava visivelmente mais cansado que o Louis no final.

  • Caio Andrade

    Excelente matéria, Alexandre!!

    By the way, gostaria de saber a sua opinião: qual dos dois você considera o maior, Ali ou Louis?

    • Acho que o Louis mesmo. Mas no conjunto da obra não tem pra ninguém diante do Ali.

  • Pedro Carneiro

    “Muita gente boa considera Joe Louis o maior peso pesado de todos os tempos.” Não sou parte desse grupo de gente boa, mas também considero o Louis o maior peso pesado da história. Pra mim o top 5 dos maiores de todos os tempos ficaria assim:

    Sugar Ray Robinson
    Joe Louis
    Henry Armstrong
    Muhammad Ali
    Willie Pep

    Tenho um texto pronto sobre os 5 maiores de todos os tempos, no dia que houver uma data oportuna a gente publica.

    • Certeza que você é um dos bons.

    • Patrick Santos

      Conheci o Willie Pep graças ao site. Não ficava encantado com movimentação no boxe desde o Ali, sem dúvida nenhuma o footwork do Pep é obra de arte

  • Anderson Rodrigues

    ótimo texto, como sempre, Alexandre. Não conheço muito de boxe antes do tyson, mas ler esses textos me deixa curioso pra ver essas lutas. Vou ver se consigo baixar em algum lugar pra ver.
    valeu

  • Patrick Santos

    Infelizmente tenho deixado de comentar no site por conta do grupo dos colaboradores e não vi momento melhor para voltar a dar o meu feedback positivo pros teus ótimos textos nessa bela homenagem ao Louis e a essa luta que faz aniversário. Sabia e ainda sei pouco sobre ele como boxeador, apesar de ter acompanhado bastante sobre todo retrospecto da carreira e ser um nome recorrente nas discussões. Vou assistir a luta hoje, o texto me deixou pilhado!! Você é sensacional, Alexandre! Parabéns pelo texto