Dan Henderson ou pesos moscas no UFC?

Por Alexandre Matos | 09/08/2011 23:01

O que valeria mais a pena para o UFC: contratar Dan Henderson ou popular uma nova categoria por menos da metade do custo? Calma, antes que alguém venha jogar pedras, não estou propondo uma “escolha” para a Zuffa. A pergunta que inicia o artigo (e também o intitula) é uma referência à comparação salarial entre o campeão meio-pesado do Strikeforce e os principais lutadores da segunda divisão de menor peso do MMA, os moscas (até 57kg/125lbs).

Dan Henderson com o cinturão do Strikeforce

Dan Henderson com o cinturão do Strikeforce

Salários de Hendo e Fedor podem ajudar a explicar a venda do Strikeforce

No ano de 2011, todo mundo foi pego de surpresa com a venda do Strikeforce para a Zuffa. O presidente Scott Coker declarou posteriormente que a Silicon Valley Sports & Entertainment (SVSE), sua parceira financeira no evento, havia avisado queria voltar a investir no hóquei no gelo e que deixaria o MMA. Como Coker não queria sair do ramo, procurou a empresa dona do maior rival para propor a venda. Os irmãos Fertitta, principais donos da Zuffa, aceitaram e o Strikeforce passou a fazer parte do mesmo grupo do UFC.

Pouco além disso foi divulgado até hoje. Mas, se observarmos alguns números, não é difícil imaginar os motivos que levaram a SVSE a pular fora. Apenas em salários oficiais (aqueles divulgados pelas comissões atléticas) da luta principal do último evento, o Strikeforce gastou US$2,3 milhões (800 mil para Hendo e 1,5 milhão para Fedor Emelianenko). O evento teve público de 8.311 pagantes, gerando uma renda de US$638.470, o que dá uma média de menos de US$80 por ingresso vendido (o ingresso mais barato do UFC Rio custou R$275). Cabe lembrar que os eventos do Strikeforce não são exibidos no formato de pay-per-view nos EUA.

Fedor Emelianenko e Dan Henderson se enfrentaram em combate histórico - e caro!

Fedor Emelianenko e Dan Henderson se enfrentaram em combate histórico – e caro!

Para efeito de comparação, vejamos quanto ganham oficialmente algumas das estrelas mais bem pagas do UFC. O UFC 129, card estelar que contou com duas defesas de cinturão e uma luta de ex-campeões, custou pouco menos de US$1 milhão em salários oficiais para Georges St. Pierre (400 mil, incluídos os 200 mil de bonificação por vitória), Jake Shields (70 mil), José Aldo (48 mil), Randy Couture (250 mil) e Lyoto Machida (200 mil). Ou seja, Fedor sozinho embolsou mais grana do que essa tropa de elite somada. Aquela edição canadense levou 55.724 pagantes ao estádio, que produziram mais de 12 milhões de renda (ingresso médio superior a 200 dólares), quase 20 vezes mais do que a renda do referido evento do Strikeforce. O UFC 129 vendeu ainda 800 mil pacotes de pay-per-view.

Outra conta curiosa: no UFC 126, Anderson Silva levou US$200 mil (ele não recebeu pagamento extra pela vitória), enquanto Vitor Belfort e Forrest Griffin embolsaram US$275 mil cada. Seria necessário adicionar os US$140 mil (incluídos os 70 mil de bônus pela vitória) de Jon Jones para atingir apenas a bolsa de Hendo na última luta.

Mesmo se levarmos em consideração que o UFC paga adicionais polpudos por fora para alguns atletas (que, em alguns casos, pode fazer a bolsa mais do que quadruplicar) e bonificações para as melhores lutas, nocautes e submissões em cada evento, não é difícil imaginar que o futuro do Strikeforce seria semelhante ao do EliteXC, evento que lhe forneceu elenco depois da falência.

Sem contrato com o Strikeforce, em alta pelo cinturão e pela vitória histórica de duas semanas atrás, Hendo está sendo sondado para voltar ao UFC. Provavelmente terá uma diminuição salarial, mas devemos nos recordar que foram questões financeiras que motivaram o americano a deixar a organização logo após a vitória sobre Michael Bisping, no UFC 100, no meio de 2009.

Principais pesos moscas do mundo (somados) valem quase 10% de Dan Henderson

Depois de absorver as divisões dos penas e galos do WEC, as pessoas passaram a questionar o presidente do UFC Dana White sobre quando os pesos moscas teriam vez na maior organização de MMA do mundo. O dirigente andou dizendo que tem a intenção de adicionar a nova categoria até o começo de 2012. Mas ele já podia ter feito isso.

Jussier "Formiga" da Silva

Poucas organizações com alguma relevância têm a categoria de pesos moscas. Basicamente os melhores podem ser encontrados no Shooto e no Tachi Palace Fights, organização regional americana que produz eventos no Tachi Palace Hotel & Casino, na cidade californiana de Lemoore. Os melhores moscas do mundo na atualidade são Yasuhiro Urushitani (campeão mundial do Shooto), Ian McCall (campeão do TPF), Jussier “Formiga” da Silva (ex-número 1 do mundo, na foto ao lado), Mamoru Yamaguchi e Darrell Montague.

Quatro deles estiveram em ação na última sexta, no TPF 10. McCall tomou o cinturão de Montague, enquanto Formiga passou por Yamaguchi. A folha salarial das nove lutas do TPF 10, que incluíam quatro dos cinco melhores moscas do mundo, foi de US$85,5 mil, ou seja, pouco mais de 10% da bolsa paga a Dan Henderson na última luta. Contando os adicionais por vitória, McCall embolsou 8 mil, Formiga levou 7 mil e Yamaguchi e Montague receberam 4 mil cada um.

Atletas que já estão no UFC poderiam integrar a divisão dos pesos moscas

Além da provável contratação de atletas do Tachi Palace Fights e do Shooto, alguns lutadores que já estão no UFC deverão integrar a nova divisão. Nomes como Demetrious Johnson, Joseph Benavidez, Scott Jorgensen, Chris Cariaso e Norifumi “Kid” Yamamoto poderiam muito bem cortar um pouco de peso e lutar como pesos moscas, visto que o mais alto deles mede 1,62m.

Ainda há a próxima edição do reality show The Ultimate Fighter. O TUF 14 provavelmente será formado por penas e galos, já que o UFC precisa dar maior profundidade às duas divisões. Como as lutas no TUF são realizadas em esquema diferenciado (normalmente os duelos são escalados num dia, os atletas pesam 48 horas depois e lutam no dia seguinte à pesagem), não há tempo para cortes dramáticos de peso. Isso significa que a maioria dos participantes disputa o programa numa categoria acima da de costume. Quer dizer, o TUF 14 vai revelar uma leva de potenciais galos e moscas. Durante este tempo, a divisão dos penas deverá se beneficiar do inchaço na categoria dos leves – que já conta com atletas que vieram do WEC e que pode receber lutadores de uma eventual fusão entre UFC e Strikeforce –, além do próprio TUF 14.

Uns trinta moscas custam um Dan Henderson. Trinta atletas é o tamanho atual da divisão dos galos do UFC. Aumento de plantel representa possibilidade de escalar mais lutas, ou seja, de fazer mais eventos ao redor do planeta. Produzir mais shows significa que a Zuffa vai ganhar mais dinheiro em seu plano de expansão global. Acho que a empresa não precisa escolher – ou pelo menos torço por isso. Há condição financeira de pegar Hendo de volta e criar a divisão dos moscas. Mas, se tivesse que optar entre trazer de volta um atleta de 40 anos, mesmo sendo ele o mito Dan Henderson, e criar uma nova categoria de peso com atletas que ajudarão no processo de expansão da organização, eu ficaria com a segunda opção.