Por Alexandre Matos | 23/12/2017 16:00

A República do Daguestão, uma das divisões federais da Rússia, localizada no sudoeste do país de maior extensão territorial do mundo, é um verdadeiro nascedouro de gente bruta. Boa parte da reputação russa de ser o único país que mete medo pela nacionalidade vem daquele pedaço do Cáucaso do Norte, banhado pelo Mar Cáspio. Por isso, o Daguestão merece um artigo que vai iniciar o nosso especial Dossiê Rússia.

Por estar distante de Moscou e por ainda manter uma aura interiorana, apesar dos mais de dois milhões de habitantes, o Daguestão é um lugar peculiar. Uma mistura do DNA russo com a cultura do Oriente Médio e Europa Central, falando cerca de 30 idiomas e dialetos em mais de 40 distritos, a região não oferece muitas atrações, é um local até pouco acostumado com a presença de turistas. Este cenário favorece o foco praticamente exclusivo para o desenvolvimento dos esportes de combate, culturalmente enraizado no Cáucaso do Norte. Como disse meu amigo Lucas Carrano, em visita à capital Makhachkala, o resultado disso é um grupo muito grande de atletas de ponta reunidos numa cidade pequena, treinando duas a três vezes por dia, seis a sete dias por semana, numa intensidade absurda.

O Daguestão é sede do Centro Olímpico Nacional Russo de Wrestling, ou seja, é o centro pulsante do wrestling no país que é a maior potência da história da modalidade. Gente de todos os cantos da Rússia e das federações anexadas vão para o Daguestão treinar. De lá saíram atletas como Buvaisar Saitiev, considerado por muitos o maior wrestler do estilo livre de todos os tempos, e Abdulrashid Sadulaev, o jovem fenômeno candidato a superar Saitiev. Por este motivo, o presente artigo focou no Daguestão, embora muito parecidos sejam a Chechênia, a Ossétia do Norte e a Inguchétia, por exemplo.

Quando a delegação daguestani ameaçou boicotar os Jogos Olímpicos do Rio, a Federação Russa entrou em pânico. Como os lutadores voltaram atrás e vieram ao nosso país competir, a Rússia terminou em primeiro no quadro de medalhas da luta olímpica, com quatro peças de ouro, três de prata e duas de bronze. Foi quando tive o prazer de ver Sadulaev em ação, na conquista de seu primeiro título olímpico.

Há muito mais academias de lutas em Makhachkala do que campos de futebol, quadras de basquete ou rinques de patinação, por exemplo. A Rússia adora futebol, hóquei no gelo, é uma potência esportiva de modo geral, mas nada disso comove o Daguestão. Conforme você anda pelo Brasil, vê peladas de futebol usando chinelos, pedras ou cocos como traves. No Daguestão, é comum encontrar gente trocando esgrima ou fazendo sombra nas calçadas, ladeiras, gramados. E eles levam esta cultura para onde vão, como eu mesmo percebi nas calçadas externas do Riocentro, palco das competições de wrestling nos Jogos Olímpicos de 2016.

Se você é um homem daguestani, é quase uma obrigação praticar algum tipo de luta. Como se fosse um homem nascido no clã Gracie, pode até não virar competidor, mas tem que aprender jiu-jítsu. Num ambiente de comportamento machista, no qual as mulheres, por mais importantes que sejam, ficam mais focadas em tomadas de decisão de bastidores, os homens vivem em ambientes masculinizados, convivem entre eles por até 18 horas por dia, treinam juntos. “Se você vir fotos de casamentos deles, tipo as do Khabib Nurmagomedov, praticamente não se vê as esposas retratadas”, Carrano me disse. “Eles estão o tempo todo falando de luta, passando técnica, perguntando onde você está lutando. Eles soam até infantis de tão bitolados”.

Na capital, mas também quando se vai para as vilas do interior do Daguestão, os homens procuram manter vivas as tradições dos guerreiros caucasianos. O daguestani vê os esportes de combate como um meio de honrar os que lutaram tantas vezes pela independência do país, pela defesa do território. Quando um filho homem nasce no Daguestão, não perguntam se ele vai jogar futebol, basquete, rúgbi. Perguntam qual arte marcial ele vai praticar. O garoto pode até fazer outro(s) esporte(s), mas precisam de algum tipo de graduação no wrestling, no judô, no boxe, no sambô, ou seja lá qual modalidade de luta eles escolham. Não é opcional e a decisão raramente passa dos 8 anos de idade. “Mesmo para ‘pessoas comuns’, tipo um representante comercial ou advogado”, completou Carrano, “todos eles conhecem luta, praticam ou praticaram luta. Chega a ser assustador. É uma relação parecida com a do povo brasileiro com o futebol”.

A luta está no DNA do povo do Cáucaso do Norte, um verdadeiro barril de pólvora, envolvido em batalhas desde os tempos dos czares Ivan, o Terrível e Pedro, o Grande, passando pela separação da Rússia, pela ditadura de Josef Stalin, pela Invasão do Daguestão e pelas guerras da Chechênia. Na Invasão, aliás, os rebeldes chechenos se assustaram com a intensidade da resistência do povo daguestani. Era uma prova do espírito de luta do Daguestão: mesmo antes da chegada das forças armadas russas, eles mostraram que não seriam dominados. Na época, o governo daguestani usou os esportes para acalmar a tensão da população. Wrestling, sambô de combate e judô foram os principais alvos de patrocínios estatais.

Abdulmanap Nurmagomedov, pai e técnico de Khabib:

“Eu acredito que todo homem deve estar preparado para a guerra, mesmo em tempos de paz. Isso é sempre tema para discussão no Cáucaso.”

Quando Carrano foi ao Daguestão, por causa de um lutador local que foi contratado pelo Brave CF, ele percebeu um detalhe que diz muito sobre a cultura local de lutas. Eles se preocupam muito em não passar nenhum tipo de imagem de ostentação e logo pedem para desconsiderar aquilo. Por outro lado, qualquer tipo de demonstração de força, de poder e de dedicação aos treinos são uma espécie de identidade local, é a imagem que eles querem passar ao mundo.

Até mesmo a geografia ajuda na formação dos lutadores daguestanis. O nome do país é a soma de Dağ (montanha, em turco) com -stan, sufixo persa que significa terra, região. Na terra das montanhas, diversos pontos auxiliam no condicionamento físico dos lutadores.

Abdulmanap Nurmagomedov:

“Na minha opinião, treino pesado nas montanhas é uma parte insubstituível da preparação. Você simplesmente não consegue fazer três ou cinco rounds intensos sem treinar na altitude. É melhor montar camps nas montanhas do Daguestão, com altitudes elevadas, florestas de pinheiros, ar fresco e água, o que não se pode encontrar nos Estados Unidos. Porém, em termos de treinamento de força, assim como na parte de nutrição esportiva, é muito melhor na América.”

Abdulmanap Nurmagomedov (Foto: acervo pessoal)

Abdulmanap Nurmagomedov (Foto: acervo pessoal)

Apesar de o wrestling ser o esporte número um no Daguestão, eles produzem campeões em várias modalidades. Gaydarbek Gaydarbekov foi campeão olímpico de boxe, vencendo Gennady Golovkin na final, mas nunca se profissionalizou. Ainda na nobre arte, Sultan Ibragimov foi campeão mundial dos pesados pela WBO. No judô, Tagir Khaybulaev e Mansur Isaev foram campeões olímpicos em 2012. Muslim Salikhov, o “Rei do Kung Fu”, recém-contratado pelo UFC, foi o primeiro não-chinês a vencer o King Of Sanda. Ainda no UFC, temos ranqueados o peso leve Khabib Nurmagomedov e o meio-pesado Gadzhimurad Antigulov. Os leves Rashid Magomedov e Rustam Khabilov estavam ranqueados até há pouco tempo e o pesado Ruslan Magomedov só saiu por suspensão. Nurmagomedov inclusive disputará uma eliminatória no próximo sábado, no UFC 219, contra Edson Barboza, e pode se tornar o primeiro campeão do UFC oriundo da região.

A elevada concentração de lutadores do mais alto nível num lugar pequeno e de poucas distrações aumenta vertiginosamente o nível de competição interna e faz com que quem saia de lá para o cenário internacional já chegue “cascudo” contra os estrangeiros. As competições locais são uma espécie de “eliminatórias do inferno”. Por exemplo, é consenso na comunidade do wrestling que o Campeonato Russo é mais difícil que os Jogos Olímpicos. Imagine o campeonato local do Daguestão.

Makhachkala é uma espécie de Zona Sul do Rio de Janeiro, mas, em vez de topar com atores e atrizes da Globo, você cruza com medalhistas mundiais e olímpicos de luta. No Rio, você ouve os turistas no “olha ali o Bruno Gagliasso” ou “deixa eu ir ali tirar uma foto com a Carolina Dieckmann”. Na capital do Daguestão, uma volta de três quarteirões de carro e você passa pela porta do Nurmagomedov, do Khabilov, do Sadulaev. Num cenário tão repleto de academias, treinadores e lutadores de ponta das mais diversas modalidades, é natural que o MMA seja beneficiado, especialmente pelo maior potencial de ganhos financeiros, pelo menos em relação aos esportes olímpicos.

Houve um momento que uma Armada Russa foi despejada no cenário norte-americano do MMA. Russos, daguestanis, chechenos, ossetianos chegaram metendo o pé na porta, com seus corações enormes, condicionamentos inesgotáveis, potências absurdas e talento. Em seguida, com o crescimento das organizações locais, muitos deles estão voltando para casa para ganhar mais do que no UFC ou Bellator e ficar mais perto dos familiares. Até mesmo lutadores entre os melhores do mundo, como Albert Tumenov e Nikita Krylov, trocaram os rankings e a fama do UFC pela grana russa. Mas isso é assunto para outra matéria do nosso Dossiê Rússia.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.