Por Bruno Fares | 12/03/2020 17:20

Sexta-feira, 29 de dezembro de 2019. Casos de pneumonia detectados em Wuhan, capital da Província Hubei, na China, foram reportados para a Organização Mundial da Saúde (OMS), sem identificação clara do vírus.

Terça-feira, 7 de janeiro de 2020. Autoridades da China confirmam identificação do vírus como uma nova formação do coronavírus, inicialmente nomeado 2019-nCoV pela OMS. O genoma é divulgado para todo o mundo pelo Centro de Controle e Prevenção de Doença da China. Quatro dias depois, a primeira morte, um homem chinês de 61 anos.

Sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020. Primeira morte na Europa registrada em decorrência do novo coronavírus, na França. Uma semana depois, morre o primeiro contaminado na Itália. Também é registrado primeiro caso em continente africano, no Egito.

Terça-feira, 25 de fevereiro de 2020. Primeiro caso de coronavírus (COVID-19) confirmado no Brasil pelo Ministério da Saúde. Três dias depois, já são quase 200 casos suspeitos em 6 estados.

Segunda-feira, 9 de março de 2020. Registrados casos de coronavírus em 30 dos 50 estados dos Estados Unidos da América. O governo italiano coloca seus 60 milhões de habitantes em quarentena, após quase 400 mortes. No Brasil, o número de suspeitas sobe para 950 afetados, enquanto a Argentina registra seu primeiro óbito pelo COVID-19.

Quarta-feira, 11 de março de 2020. a organização Mundial da Saúde declara pandemia do COVID-19. Grandes ligas de esportes profissionais suspendem suas atividades pelo mundo, incluindo a NBA, NHL, MLS, MLB, assim como os campeonatos de futebol da UEFA, Espanha, Itália, França, Argentina e Paraguai. O governo de São Paulo estima que nos próximos meses serão pelo menos 45 mil casos no entorno da capital paulista.

Quinta-feira, 12 de março de 2020. Em algumas horas, diversos atletas, profissionais do esporte e jornalistas que viajam o mundo inteiro, além de prestadores de serviços dos mais diversos tipos, estarão em contato físico entre si, para a realização da pesagem do UFC Brasília 2020. No dia seguinte, sua realização estará confirmada com doze lutas.

(Foto: Divulgação UFC)

Diante desse cenário, eu o questiono, prezado leitor: A medida de segurança adotada pela organização do evento – cancelar apenas o media day, a pesagem cerimonial e a presença de público no dia das lutas – é o suficiente no atual momento de crise mundial de saúde que vivemos?

Após quase três meses de convívio global com a pandemia do vírus mais contagioso que esse planeta já presenciou desde a gripe espanhola (variante da influenza A H1n1) em 1918, com o mundo inteiro tomando medidas drásticas para contar o contágio viral, já não devíamos ter percebido o tamanho do problema enfrentado?

Sim, o UFC vai impedir o contato de fãs com os envolvidos, diminuindo drasticamente o número de pessoas que passarão pelo evento. Mas aqui já vale a primeira ressalva. Tal medida não deriva de escolha própria de Dana White e seus comandados, mas sim de decreto do Governo do Distrito Federal impedindo a realização de eventos esportivos com público.

Ainda assim,  a realização do card mobilizará centenas de pessoas, colocando em contato próximo profissionais que viajam o globo todo e prestadores de serviços de todo tipo, de médicos a policias, de faxineiros a seguranças, de jornalistas a técnicos. Não é óbvio o risco de contagio aos envolvidos? Por qual motivo o UFC não irá adiar ou cancelar sua realização?

E se nesse instante, o leitor está questionando essa reflexão e pensando na possibilidade de tal atitude ser um demasiado alarmismo diante de uma “gripe um pouco mais forte”, eu o convido para repensar a situação do COVID-19, diante do que sabemos.

1- O vírus é extremamente contagioso, com sua transmissão ocorrendo pelo ar em contato de poucos metros ou por contato com superfícies previamente contaminadas por pessoa com o vírus, por exemplo, um corrimão de uma escada.

2- Sim, as pessoas que mais sofrem com o vírus e compõe a ampla maioria da taxa de falecimento são os idosos, com mais de 70 anos, que dificilmente estarão envolvidos na realização do UFC Brasília.

Gráfico da Organização Mundial da Saúde demonstrando evolução de contaminados pelo COVID-19 no mundo entre janeiro ee março de 2020 (Fonte: Organização Mundial da Saúde)

Diante disso, imagine a seguinte situação. O americano Kevin Lee, que treina na Tristar Gym do Canadá, e seu corpo técnico (talvez alguns amigos), vem ao Brasil para participar da luta principal do evento. Um deles, não necessariamente o lutador, teve contato com um portador do vírus na América do Norte e acabou o contraindo. Parece improvável? Bem, já temos dois jogadores da NBA contaminados e possivelmente o próprio presidente dos Estados Unidos da América (por contato com um brasileiro, diga-se).

Pois bem. Um desses norte-americanos inevitavelmente vai passar por hotel, por restaurante, por refeitório, por vestiários. Deixará um rastro do vírus por tudo que encostar – sim, é esse o nível de contagio – e falará com muitas pessoas em contato de menos de dois metros. Uma dessas pessoas contrairá o vírus, que demora para se manifestar, e retornará para sua casa, tendo contato direto possivelmente com idosos de sua família.

Entendeu o risco? Espero que sim. São 24 lutadores envolvidos no evento, cada um com pelo menos três acompanhantes técnicos. Podia falar dos membros da imprensa credenciados – como esse próprio site -, dos membros do staff do UFC, dos prestadores de serviço de cozinha, limpeza, segurança, entre outros, mas acho que já podemos imaginar.

Ainda acha improvável? O New York Times, dentre outros veículos de mídia internacionais, noticiaram que um dos grandes motivos da alta taxa de contagio e morte de idosos na Itália, foi a transmissão de familiares à idosos, que estão sendo isolados a partir de agora. E esse é o ponto central dessa crise de saúde global.

Coreia do Sul 2020

Fevereiro de 2020. População sendo atendida na Coreia do Sul em razão do COVID-19 (Foto: Washington Post)

Os países ainda em estágios preliminares de contagio, como o Brasil, deviam aprender com as lições de países que já sofreram com o vírus e conseguiram conter sua disseminação, tomando atitudes drásticas de maneira preliminar que ajudem a evitar a propagação da doença e não simplesmente esperar a crise chegar para pensar no que fazer, como é a prática comum pelos lados de cá. Um ótimo espelho para as democracias ocidentais é o modo como a Coreia do Sul combateu com eficácia o vírus.

Só que, infelizmente, nem o UFC, nem os governantes do nosso país – municipais, estaduais e federais – parecem entender a gravidade do problema. Ou pior, simplesmente não se importam. As medidas inócuas tomadas, como cancelar o media day e impedir a presença de público, embora minimizem, não cessam os efeitos desastrosos de propagação viral. A realização do UFC Brasília 2020, ainda que com portões fechados, representa um grande risco de disseminação de um vírus altamente contagioso e uma enorme irresponsabilidade de todos os envolvidos.

Que Deus – ou seja lá qual entidade divina você escolha acreditar – nos ajude, pois quem deveria não está nem aí.

(Foto: Getty Images)

Atualização 13/03/2020 – 09:44h – Países devem acelerar combate ao coronavírus para evitar erros da Itália, diz brasileiro na OMS.