Por Idonaldo Filho | 19/08/2019 22:55

A penúltima semana do Contender Series não é recheada de talentos de bom nível, mas conta com alguns atletas interessantes e que querem se provar após experiências nos cenários regionais. Incluindo o irmão de lutador do UFC, veterano do Bellator, campeão do Ring of Combat e um brasileiro na rasa categoria dos meios-pesados.

PESO MEIO-MÉDIO: PHILIP ROWE (6-2) VS. LEON SHAHBAZYAN (7-1)

Mais um lutador que vem do Island Fights – que não tem boa reputação em revelar talentos – Philip Rowe é um meio-médio de boa estatura (1,90m) e que treina em um bom camp, na Fusion X-Cel com Ronaldo Jacaré, Mike Perry, Alan Nuguette, entre outros. É pouco experiente como se pode ver pelo cartel e só enfrentou oposição de nível vergonhoso durante a carreira, sendo até certo ponto difícil de avaliar a qualidade do lutador pela escassez de material. Suas duas únicas derrotas ocorreram nas duas primeiras lutas como profissional. Como amador, não foi bem, iniciou a carreira em 2012 e chegou a um cartel de 2-3. Philip é especialista no jiu-jítsu, modalidade em que tem graduação na faixa marrom, de suas seis vitórias, encerrou quatro combates por finalização(duas guilhotinas e dois mata-leões). Em pé, mostra uma defesa horrível e a troca de golpes é muito rudimentar. Rowe aposta em overhands esquisitos e por vezes aplica algumas blitzes, mas sem mostrar nenhum traquejo. Assim, não parece um lutador com nível para integrar o plantel do UFC, ainda precisando evoluir muito para alcançar um contrato.

Já era de se esperar que Leon Shahbazyan fosse ter uma chance no Contender Series, agenciado por Ronda Rousey e irmão do prospecto nos médios, Edmen Shahbazyan, treina no Glendale Fight Club com o folclórico Edmond Tarvedyan. Também grande para a divisão (1,93m), Shahbazyan enfrentou o que de pior existe no cenário regional americano e fez carreira de can crusher no Gladiator Challenge, um dos mais criticados eventos dos Estados Unidos justamente por fomentar a prática de alimentar cartel de prospectos. Ao contrário de seu irmão, acredito que Leon não tenha muito talento pro UFC, se limitando a um lutador de eventos menores. Isso porque é defensivamente fraco, tanto defendendo golpes quanto quedas e, mesmo tendo algum poder nos punhos e certa habilidade com chutes altos, não chega a intimidar. Tem preferencia por jogar no chão, tendo vencido seis de suas oito lutas por finalizações. Ainda, quase todas suas lutas foram encerradas ainda no primeiro assalto diminuindo muito a base de análise. Por fim, sua única derrota, ocorreu na luta contra o melhor oponente que teve até hoje na carreira.

Se do ponto de vista técnico pouco se espera da luta e de ambos os atletas, uma vez que ambos tem pouco nível para ingressar no plantel do UFC, ao menos devemos ter uma luta divertida e movimentada.

PESO MEIO-PESADO: MARCOS BRIGAGÃO (11-0) VS. JAMAL POGUES (6-2)

Companheiro de treinos da campeã Jéssica Bate-Estaca na PRVT, Marcos Brigagão a primeira vista pode impressionar pelo cartel invicto em onze lutas, mas após uma melhor análise vemos que não é para tanto. O brasileiro de 23 anos sempre alternou entre meios-pesados e pesados, encarando constantemente lutadores de baixo nível, com uma única boa vitória contra Julio Cezar Santana, que era bem mais experiente na época em que se enfrentaram. Brigagão vem do muay thai, mas, pelo que pode ser visto de suas lutas anteriores, mostra mais um jogo de quedas baseado na força e aptidão para a montada. O ground and pound não é nada impressionante, mas tem alguma noção de finalizações, o que é importante nas categorias mais pesadas. Em pé tem poder nos punhos, mas a trocação é desengonçada e muitas vezes comete o erro de ficar perseguindo o adversário sem mostrar preocupação defensiva. Seus chutes são lentos e, por mais que a aposta seja válida, mesmo para desmascarar um lutador de cartel fabricado, Marcos não tem nível de UFC ainda.

Jamal Pogues também tem 23 anos e também venceu muitos lutadores que nem cartel possuiam (ou seja estavam estreando), porém, diferentemente do brasileiro, Pogues tem experiência contra lutadores mais conhecidos no cenário regional americano e contra esta concorrência, não foi mal. Foi nocauteado pelo bom Taylor Johnson na estreia, mas venceu Kyle Noblitt tranquilamente e vencia o prospecto Jordan Johnson até ser pego em uma finalização de última hora. Me estranha a contratação de Pogues para o Contender Series, pois representa o oposto do lutador que Dana White gosta. Jamal é um grinder muito persistente e duro, sempre busca grudar no adversário e jogar-lo na grade, em um jogo extremamente efetivo de wall and stall. Mostra também um bom wrestling, mas no chão ele se limita a amarrar o combate e fazer a tática de cobertor, no melhor estilo lay and pray. É um bom lutador e tem uma trocação regular, mas é chatíssimo e não tem chance alguma de ganhar um contrato se lutar da mesma forma que fez em seus duelos mais relevantes.

PESO GALO: DESMOND TORRES (7-1) VS. STEVE GARCIA JR. (9-3)

O havaiano Desmond Torres atuou durante boa parte de sua carreira no peso mosca, subindo para a categoria dos galos recentemente em suas últimas lutas. O atleta da Team Oyama tem 22 anos e já lutou no LFA, no Bellator e no KOTC. Ele não encarou o melhor nível de oposição, mas em suas últimas lutas foi bem contra adversários de nível similar de experiência. Torres é ágil e possui golpes rápidos, gosta muito de chutes na perna, mas sempre busca encurralar o adversário e levar-lo para a grade para derrubar, já que sua preferencia  é atuar no solo, tendo quatro finalizações na carreira. O katagatame é sua principal arma e foi o estrangulamento que garantiu suas últimas duas vitórias. Desmond entra no Contender Series como substituto de Alberto Montes, que se lesionou.

Pode ser que esse nome seja conhecido por alguns fãs do Bellator: Steve Garcia Jr. fez quase toda a carreira pelo evento de Scott Coker e lá surgiu como prospecto e enfrentou bons lutadores, chegando até a encarar o ex-campeão Joe Warren. O nível de oposição que Garcia enfrentou é muito bom para o padrão dessa temporada no Contender Series já tendo mostradoque é bom lutador em sua passagem no Bellator. Atleta da Jackson-Wink MMA, Steve é explosivo e gosta muito de se movimentar, possui um bom volume de golpes e boa agressividade focando bastante em golpes na cabeça. Inventivo, não se intimida em tentar alguns golpes mais plásticos e adora a luta franca. Não deu muito certo  seu estilo quanto ele enfrentou Joe Warren que o amarrou sem muitos problemas – o que é perfeitamente normal. Steve também mostra brechas suficientes para ser finalizado no chão. A luta deve ser muito animada, isso é certo.

PESO PALHA: MICOL DI SEGNI (7-2) VS. MALLORY MARTIN (4-2)

A italiana Micol Di Segni teve passagens pelo EFC, Cage Warriors e Brave CF mas não venceu muita gente boa. Ela que também é modelo treina na Jackson-Wink MMA, e vem de apenas uma vitória, sendo superada pela brasileira Maria Ribeiro brutalmente menos de um ano atrás. Di Segni é uma lutadora bastante agressiva e que naõ tem nenhuma vontade de defender o rosto aparentemente, gostando de soltar mata-cobras e de avançar com sequências de socos retos mas sem refino técnico algum. Micol também já mostrou que tem habilidade com queda e jiu-jítsu, mas nada surpreendente. Surpreende a contratação por não ser uma lutadora em sequência de vitórias e por ter nível duvidoso.

Mallory Martin começou mal a carreira no MMA com uma vitória e duas derrotas, sendo uma delas contra a prospecto Maycee Barber, mas agora em uma sequência de três vitórias consecutivas conseguiu a chance de entrar no Contender Series. Martin treina na Zingano BJJ e já teve passagens pela Tailândia na Tiger Muay Thai. Em seus combates ela mostra muito coração e resiliência, punhos pesados porém lentos, e vontade de sobra para encarar os desafios. O foco dela é levar a adversária ao solo e lá mostrar seu bom ground and pound. O problema principal é que a defesa é praticamente inexistente e em pé é alvo fácil, tendo também a tendência de aplicar pouco volume e se deixar ser levada para a grade.

PESO GALO: RICKY STEELE (5-0) VS. PHIL CARACAPPA (8-0)

Um dos participantes do TUF 27, que teve como tema lutadores invictos, Ricky Steele não lutou após a frustrada tentativa de entrar no UFC , já que ele teve que sair da casa por problemas relacionados a uma concussão. O carateca não luta oficialmente desde fevereiro de 2016, portanto, está há mais de três anos sem competir. A única vitória no TUF foi contra Suman Mokhtarian, que atualmente está no UFC. Contra Suman ele mostrou um bom repertório e um jogo eficiente, mas não tão empolgante. Típico lutador pontuador, Steele sempre ataca e volta, seja com chutes no corpo ou jabs, todos sem potência mas dotados de certa técnica e vencendo todos seus cinco combates na decisão dos juízes. Outro ponto positivo é que ele é enorme, com 1,80m de altura e 1,88m de envergadura, que beneficiam muito o seu estilo de jogo baseado no controle de distância. É um bom lutador mas que se não mostrar evolução nesse tempo parado dificilmente conseguirá o contrato.

Campeão do ROC na categoria dos galos, Phil Caracappa defendeu o seu cinturão em três oportunidades e provou que merece ser convocado para o Contender Series. O americano está invicto na carreira e tem uma vitória interessante contra o ex-lutador do UFC, Louis Gaudinot. Phil também é um lutador que vai muito para a decisão dos juízes e muito disso é por sua abordagem conservadora no wrestling, mostrando um controle posicional decente mas não oferecendo muito perigo por cima. Em pé ele não mostra muito poder nos punhos, mas quando quer ser agressivo consegue e o isso ajuda para levar o oponente ao clinch e derruba-lo. Ex-campeão evento bacana, ainda acho que ele poderia mostra mais e tenho muitas dúvidas se o seu estilo vai conquistar os dois matchmakers e Dana White.

PALPITE DE CONTRATOS: LEON SHAHBAZYAN e PHIL CARACAPPA

Realmente é muito difícil analisar quem vai ganhar um contrato nessa semana pois são confrontos equilibrados. Outro ponto complicado é que, por mais que alguns lutadores sejam até bons, o estilo é pouco atrativo e não devem produzir lutas animadas, e sabemos muito bem que Dana White dificilmente assina com quem vai para a decisão ou não faz uma luta empolgante. A aposta sobra em Shahbazyan, que é um lutador agressivo e que por mais verde que seja tem potencial para finalizar Howes, e em Caracappa que é eficiente no seu wrestling e se conseguir vencer a diferença de tamanho e impor seu jogo pode impressionar pelo domínio.