Por João Gabriel Gelli | 18/01/2019 14:18

O UFC Brooklyn marca o primeiro evento do UFC em 2019 e também será um marco histórico para a organização, uma vez que representa o início do contrato de transmissão com a ESPN. Para liderar tal card, foi escalada uma interessante disputa de cinturão dos pesos moscas entre o campeão Henry Cejudo e o detentor do título da divisão de cima, TJ Dillashaw, que tenta se tornar mais um a reinar em duas categorias simultaneamente. No entanto, não é nenhum desses acontecimentos de alta relevância que queremos destacar aqui. No duelo coprincipal, um nome de grande potencial fará sua estreia no UFC. Este se trata de Greg Hardy.

No entanto, o que ele tem de promessa no cenário combalido dos pesos pesados, também tem de controverso fora do octógono. Ex-defensive end na NFL com passagens pelo Carolina Panthers e Dallas Cowboys que incluíram viagens ao Pro Bowl (partida entre os melhores jogadores da temporada do futebol americano), Hardy era um grande atleta na modalidade e recebeu um bom dinheiro ao longo de seis anos. O problema veio em 2014, quando ele foi preso por agredir e ameaçar sua ex-namorada de morte, o que basicamente levou ao fim de sua carreira na NFL.

Sem ter mais espaço como jogador profissional, Hardy anunciou em 2016 que iria voltar seu foco para o MMA, mesmo sem nenhuma experiência prévia no esporte. Em 2017 realizou sua primeira luta como amador e logo emendou três vitórias em menos de 150 segundos somados. Assim, se iniciou um burburinho em torno de seu nome. Já uma figura conhecida por seu histórico como atleta de alto nível na NFL e toda a repercussão de seu caso de violência doméstica, muito se especulava quando começaria sua carreira de forma profissional no MMA.

Greg Hardy quando ainda atuava pelo Dallas Cowboys, na NFL

Greg Hardy quando ainda atuava pelo Dallas Cowboys, na NFL

Isto aconteceu em 2018, quando foi convocado para participar do primeiro evento da segunda temporada do Dana White’s Tuesday Night Contender Series. Nele, enfrentou o também ex-jogador da NFL Austen Lane. Hardy teve algumas dificuldades para encontrar a melhor distância para aplicar seu boxe e acabou sendo mais acertado do que o desejado, mas depois cresceu no combate e conseguiu o nocaute técnico após conectar um violento gancho de direita que deixou Lane desnorteado, depois completando a fatura. Ao término do evento, Greg assinou um contrato de desenvolvimento com o UFC.

Pouco menos de dois meses depois, Hardy foi convocado para liderar o card final da temporada em duelo contra Tebaris Gordon em agosto. Em atuação explosiva, ele avançou de forma impiedosa para cima do adversário e disparou uma sequência avassaladora de socos, com boa alternância entre rosto e corpo. Dezessete segundos depois, Herb Dean interrompia o combate enquanto Gordon caía de cara no solo. Mesmo assim, o UFC optou por não assinar com ele após a atuação explosiva.

Em seguida, encarou o estreante no MMA Rasheem Jones no evento regional Xtreme Fight Night 352, em setembro. A diferença dessa luta para as outras duas de sua curta carreira profissional foi o fato de que precisou defender tentativas de queda, mas não teve dificuldades para evitar as investidas e nocautear Jones com socos no solo. Ele ainda faria uma quarta aparição em 2018 no Island Fights 51, mas recebeu o chamado do UFC e foi reagendado para enfrentar Allen Crowder em sua primeira luta no octógono.

O confronto não é dos mais difíceis, uma vez que Crowder é um dos piores lutadores no plantel do já fraco peso pesado. Tal casamento provavelmente se deve ao fato de que o UFC vê algum potencial em Hardy e deseja lhe oferecer a oportunidade de ganhar experiência contra concorrência de nível mais baixo e aumentar a especulação em torno de seu nome com uma atuação impressionante.

Conforme foi dito anteriormente, a presença de Hardy no UFC é controversa pela sua natureza problemática fora do campo, inclusive com sua estreia sendo agendada para o mesmo evento em que Rachel Ostovich – que recentemente foi vítima de um caso de violência doméstica – também lutará. Esta personalidade explosiva e a fama angariada ao longo dos anos de NFL podem gerar muita discussão sobre o lutador, por já ser um nome reconhecido e também estimular debates sobre se deveria ser contratado, o que certamente estava na mente da organização quando assinou o vínculo.

Entretanto, quando se observa o produto dentro do octógono e se isola as questões fora dele – o que pode ser difícil, mas é o propósito deste ponto da análise – é possível perceber porque ele é um lutador promissor. Com os anos de treinamento intenso no futebol americano, Hardy adquiriu uma ética de trabalho que levou para os treinos de MMA na American Top Team, onde pode aprender com diversos parceiros de alto nível. Além disso, um dos aspectos mais óbvios ao vê-lo lutar é seu atleticismo, que está, sem dúvidas, entre os maiores da categoria.

Ainda muito cru no MMA, Hardy se baseia nesse atleticismo de elite para dominar a concorrência. Em um curto espaço amostral, demonstrou mãos muito pesadas e um boxe que ainda tem um bom caminho a percorrer em termos de técnica, mas já tem uma variação interessante. Seu wrestling foi pouco testado e deve ser um ponto atacado por adversários, mas dificilmente terá maiores problemas contra oposição de nível mais baixo, já que a diferença de explosão e velocidade deverão ser o suficiente para mitigar qualquer desvantagem neste primeiro momento.

Greg Hardy comemora após nocautear Tebaris Gordon no Contender Series 2018

Greg Hardy comemora após nocautear Tebaris Gordon no Contender Series 2018

Caso seja tratado com calma e tenha sua trajetória de evolução respeitada sem saltos muito bruscos, ele pode adquirir experiência importante ao longo de uns dois anos e ampliar seu currículo de destruição contra as castas mais baixas da divisão. Quando tiver somado tempo o suficiente dentro do octógono e um volume razoável de camps de treinamento para que possa desenvolver seu arsenal técnico, poderá avançar rumo ao topo. Como possui um potencial atlético muito acima do padrão da categoria e já demonstra bons saltos de qualidade, é fácil vislumbrar Hardy como um top 10 dos pesados em pouco tempo. Caso sua curva de melhoria seja ainda mais acentuada, não seria surpreendente se ele terminasse como um membro consolidado da elite ou um potencial desafiante no longo prazo.

Com todo esse histórico destrinchado, é possível compreender os motivos de Hardy ser uma contratação controversa. Também é fácil entender o motivo da movimentação por parte do UFC. Além disso, quando se observa por um viés puramente esportivo, trata-se de uma aquisição muito promissora de um lutador que é capaz de alçar voos elevados em uma das piores categorias do MMA mundial. Dessa forma, olho nessa estreia e nas repercussões fora do octógono.