Como parar Vasyl Lomachenko?

Depois de transformar um dos maiores sistemas defensivos da história do boxe em nada, Vasyl Lomachenko terá cada vez mais dificuldade de encontrar adversários de elite dispostos a enfrentá-los. Neste artigo, dissecamos as possibilidades de alguém parar o genial ucraniano.

Quando João Gabriel Gelli me fez o desafio de escrever sobre “como parar Vasyl Lomachenko?”, respondi com algumas opções: metralhadora, taco de beisebol nas pernas, Anthony Joshua ou Kyle Snyder. É verdade que eu estava sonado – a mensagem do cidadão chegou pouco mais de três horas depois de eu ter ido dormir após cobrir LomaRigo e o UFC Fight Night 123 –, mas a resposta à vera, sem sono, não mudaria tanto.

Desde que Lomachenko anunciou a transição para o boxe profissional, todas as suas lutas foram cercadas de elevadas expectativas. Não era para menos, já que falamos do melhor retrospecto da história do boxe amador e um bicampeonato olímpico. A construção de Lomachenko foi planejada visando um alvo nada modesto: não só se tornar o melhor boxeador do mundo peso por peso, mas se colocar na disputa entre as maiores lendas da história sesquicentenária da nobre arte.

Até o momento, o planejamento segue a pleno. A soma do talento natural com a construção técnica, que passou até por aulas de dança para moldar uma movimentação difícil de deter, transformou Lomachenko no mais talentoso lutador que eu vi nos cerca de 30 anos que tenho como fã e analista do esporte. Esta lista inclui gente como Floyd Mayweather, Roy Jones Jr., Oscar de la Hoya, Manny Pacquiao e Julio César Chávez, dentre outros monstros.

Luta após luta, uma pergunta ganha cada vez mais força: como parar Vasyl Lomachenko? Os mais sabichões olharão para o cartel do ucraniano (10-1, 8 KO) e dirão que ele já perdeu. É verdade. Em sua segunda luta profissional, Lomachenko foi derrotado pelo mexicano Orlando Salido, em combate que valia o cinturão dos penas pela WBO (Organização Mundial de Boxe). Na ocasião, Salido ostentava retrospecto profissional de 41-12-2 e três cinturões mundiais em duas categorias de peso.

A derrota de Lomachenko foi cercada de controvérsia. O mexicano era o campeão na época do combate, mas perdeu o título na pesagem depois de aparecer com um quilo acima do limite de 57 do peso pena. Na hora do combate, “Siri” tinha cinco quilos a mais que o “Hi-Tech”. Além disso, Salido abusou do jogo sujo, disparando inúmeros golpes ilegais perante a passividade do árbitro Laurence Cole, que se limitou a apenas uma advertência verbal e foi execrado pela imprensa especializada. No fim do combate, Salido venceu por decisão dividida – praticamente todos os veículos apontaram empate ou vitória de Lomachenko.

Então o caminho para vencer Loma é o jogo sujo, certo? No más. Na época do duelo com Salido, Lomachenko ainda era inexperiente e a luta foi uma espécie de batismo de fogo no boxe profissional. Desde então, o ucraniano aprendeu com os erros e ganhou experiência. No último sábado, Guillermo Rigondeaux, um lutador bastante mais talentoso que Salido, também fez uso de artifícios ilegais. Adiantou nada. “El Chacal” levou um passeio de Lomachenko ao desafiar o cinturão dos superpenas do ucraniano.

É verdade que Rigondeaux é oito anos mais velho que Lomachenko e vinha de duas categorias abaixo. É também verdade que a lesão na mão alegada pelo cubano atrapalha (nem vamos entrar no mérito se foi verdade ou uma desculpa para desistir). Mas, poxa, era o melhor sistema defensivo do boxe mundial na atualidade, um dos melhores de todos os tempos, diante do ucraniano. E Lomachenko fez Rigondeaux parecer um lutador ordinário. Nem mesmo a maior fortaleza defensiva do mundo foi capaz de deter a força da natureza oriunda da pequena Bilhorod-Dnistrovskyi, na região ucraniana de Odessa.

Com as aposentadorias de Floyd Mayweather e Andre Ward, podemos neste momento bater o martelo: Vasyl Lomachenko é o melhor lutador do planeta em qualquer categoria de peso. E vou além: em qualquer esporte de combate.

Rigo era tido como um candidato a dar problemas para Loma e acabou virando um dos “joões” de Mané Garrincha. Se um gênio como Rigondeaux arrumou nada, como parar Lomachenko? É preciso olhar para cima na escada das categorias de peso. Há talento nas fileiras dos superpenas – Alberto Machado, Miguel Berchelt, Kenichi Ogawa, Jezreel Corrales e até Yuriorkis Gamboa (caso ressuscite um dia) –, mas, convenhamos, ninguém capaz de vencer Lomachenko.

Aos 29 anos, depois de passar muito tempo no boxe amador, Lomachenko não quer ficar estacionado. Ele tentou vingar a derrota para Salido, mas o mexicano espertamente anunciou sua aposentadoria no mesmo dia de LomaRigo. Melhor decisão, porque ele seria feito de trouxa numa revanche com o ucraniano. O mais provável é que Salido levaria um vareio antológico. Tem sido bastante difícil encontrar um adversário considerado de elite disposto a colocar sua reputação em jogo contra Lomachenko.

O ucraniano e sua equipe já miram o peso leve. O alvo preferido é o americano Mikey Garcia, melhor lutador da categoria na atualidade, campeão do WBC (Conselho Mundial de Boxe) e ocupante da sétima posição do Top 10 peso por peso da prestigiosa Ring Magazine. Os boxeadores já expressaram interesse no confronto e inclusive começaram uma pequena guerra de palavras. Lomachenko disse que não se impressionou com a vitória de Garcia sobre Adrien Broner, em agosto, e que não achava o americano um “lutador classe A”. Do outro lado, Robert Garcia, técnico e irmão de Mikey, disse que Lomachenko deveria se envergonhar de enfrentar alguém do nível de Miguel Marriaga, que vinha de derrota antes de pegar o ucraniano.

Lomachenko e Garcia se encontraram pela primeira vez em agosto, quando Mikey venceu Adrien Broner

Lomachenko e Garcia se encontraram pela primeira vez em agosto, quando Mikey venceu Adrien Broner

Infelizmente nem vou me empolgar para essa luta. O relacionamento de Garcia com a Top Rank Boxing, promotora de Lomachenko, é péssimo desde a saída do americano após dois anos de briga judicial. Situação parecida tem o venezuelano Jorge Linares, campeão da WBA (Associação Mundial de Boxe) e número dois geral do peso leve. Linares é agenciado pela Golden Boy Promotions, principal rival da Top Rank na odiosa política que tanto atrasa a vida do boxe impedindo que muitas super lutas aconteçam.

O número três do peso leve seria uma opção. Campeão pela mesma WBO em que Lomachenko reina na categoria de baixo, o britânico “Turbo” Terry Flanagan não é atrelado a nenhuma empresa causadora de problemas e duvido muito que seus empresários na Frank Warren Promotions se posicionariam contra um possível confronto com Lomachenko. O problema é que, apesar de ser um excelente lutador, dificilmente Flanagan traria algum tipo de problema para o gênio ucraniano, em que pese o fato de ser dez centímetros mais alto que Lomachenko.

Na impossibilidade de casar Lomachenko com Garcia e com Linares, Bob Arum e Frank Warren podem promover uma defesa de Flanagan contra Loma. De posse de um cinturão na terceira categoria diferente (o que também seria um recorde com o menor número de lutas realizadas até alcançar o feito), abriria-se uma possibilidade de ouro, com contornos épicos: um duelo entre Lomacheko e Terence Crawford, número dois peso por peso pela Ring Magazine e que há quatro meses entrou para a história ao unificar os cinturões da WBA, WBC, WBO e IBF (Federação Internacional de Boxe) no peso superleve. Crawford foi apenas o quarto na história a conseguir tal feito, após Bernard Hopkins, Jermain Taylor e Cecilia Brækhus.

Bob Arum, dono da Top Rank Boxing:

“Ele (Lomachenko) vai pegar qualquer um. Ele vai subir para o peso leve e fará Linares de piada. Ele fará Garcia de piada. Eles são realmente bons lutadores, mas este cara é super especial. Você nunca viu algo como isso. Talvez ele suba para o peso superleve, não sei. Ele fará isso contra qualquer um.”

Se Lomachenko é o mais talentoso boxeador da face da Terra, Crawford certamente é o segundo. O americano é daqueles lutadores raros que não se sabe se é destro ou canhoto, tamanha a facilidade que ele tem de mudar de base. Crawford ataca com combinações versáteis, bate forte, tem muita inteligência tática e consciência de ringue, além de um sólido sistema defensivo.

A vitória de Terence Crawford sobre Julius Indongo foi assustadora (Foto: Mikey Williams)

A vitória de Terence Crawford sobre Julius Indongo foi assustadora (Foto: Mikey Williams)

Crawford tem ferramentas para lidar com o jogo de pernas sobrenatural de Lomachenko. Com sua consciência do espaço físico, a fluidez ao mudar de base e a capacidade de empacotar potência nos dois punhos, o americano pode encontrar a linha de cintura do ucraniano no ponto futuro, minando a resistência e quebrando a movimentação de Vasyl.

Lomachenko-Crawford é um combate com alta possibilidade de acerto, pois o americano também é cliente da Top Rank. Terence abdicou de sua mala de cinturões para subir ao peso meio-médio, mas duvido que não voltaria ao superleve para um cheque polpudo e a mais considerável chance de vencer Lomachenko.

Fazer um prognóstico deste combate é uma tarefa difícil. Assim, de cara, não faço a menor ideia em quem apostaria, ainda mais sem ver Lomachenko no peso leve. No entanto, em caso de vitória de “Hi-Tech”, sua moral subiria à estratosfera, a um ponto de desafiar os campeões Errol Spence Jr. (IBF e #9 do Top 10 peso por peso da Ring) e Keith Thurman (WBA e WBC) no peso meio-médio.

A desvantagem física de Lomachenko perante Garcia, Crawford, Spence e Thurman seria considerável. No entanto, talento não falta ao fenômeno europeu.

  • Gutierres Nascimento

    Quando li o titulo da matéria o primeiro nome que me veio em mente foi Terence Crawford. Não por entender grande coisa de boxe, mas por ser o boxeador que mais gosto de ver lutar hoje em dia. Espero que esse evento aconteça em poucos anos.

    • Terence Crawford é um homão da porra também. E eu acho que, além do tamanho e força, ele tem jogo pra ganhar do Lomachenko.

  • James sousa

    Das opções para próximo desafio do Lomachenko o Terrence Crawford e o que mais me anima

    • São os dois melhores peso por peso, não tem como não se animar.

  • Isabella Kida

    Confesso que o site cada vez mais me desperta a vontade de acompanhar o boxe de perto. Continuem sempre com textos assim :)

  • Jonas Greco

    Acho que Lomachenko x Crawford é a luta que me deixaria mais empolgado na atualidade. O ucraniano tem um ar de Aleksandr Karelin (não estou comparando os feitos dos dois, só o ar de que nada pode pará-lo), mas acho que o Crawford vai acabar mesmo é subindo pro meio-médio. Até chegar nele, tem muita coisa pro Lomachenko fazer no peso leve, superleve pra quem sabe chegar ao meio-médio. Confesso que Lomachenko x Liñares, Lomachenko x Mickey Garcia, Lomachenko x Flanagan, Lomachenko x Verdejo já me deixaria alegre demais.

    • Crawford teoricamente já subiu pro meio-médio. Duvido que a próxima luta dele seja de superleve. Mas eu acho que uma possível luta dele com o Lomachenko seria no superleve.

  • Manu

    Eu tenho minhas dúvidas se alguém pode parar esse cara. Porém penso que para vencer ele, é preciso ser muito sangue frio e pegar o tempo certo do contragolpe. Outra coisa, tem que estar muito vacinado para o jogo de pernas dele e também ser um lutador de constante movimentação, o que me faz pensar no fato de que um cara como Mikey Garcia, por mais que tenha a potência para pegá-lo, não tem a velocidade necessária. Imagino que para pegar Vasyl você também precisa estar em constante movimentação, não para superar ele, mas para diminuir os ângulos.

    Linares seria um bom nome, mas não vejo ele capaz de suportar um jogo que consiga diminuir os danos contra High Tech. Alguém me surge na cabeça e que pode, pelo menos por um período de tempo manter a constância de contra-ataque é Javier Fortuna, porém ele é um cara muito suscetível a um contragolpe. Pra quem foi pego por Jason Sosa e Omar Douglas uma vez, com Vasyl ele seria obliterado. Easter é um cara muito técnico, mas seria engolido também apesar do tamanho.

    E Alexandre, levo um pouco de fé no Berchelt, apesar de eu achar que uma luta dele contra Vasyl seria uma reedição da que foi contra Marriaga, porém ele me parece um cara suficientemente capaz de nos primeiros rounds contra-atacar bem. Mas na verdade, vencer ele é uma tarefa ingrata. Somente sendo um pouquinho mais alto e quase tão técnico quanto: Crawford.

    • Tô contigo. Também sou fã do Berchelt, mas acho que não dá pra ele.

  • Márcio Braga

    floyd maywethar o melhor do seeculo 21. invicto, apostaria nele contra o russo sem pestanejar.

    • O russo é o Lomachenko? É porque ele é ucraniano.

      Mayweather seria favorito pela experiência, mas o Lomachenko é mais talentoso que ele.

      • marcio

        A pergunta do texto é como parar Lomachenko? Talvez a resposta seja a experiência nível Floyd, que já experimentou de tudo em um ringue, como foi citado um cara parou o Lomachenko se valendo da malandragem e do jogo sujo, pois bem nesse caso mal ou bem a experiênia falou mais alto. Mas atualmente um cara como Floyd, que já viveu de um tudo na noobre arte pode ser a resposta para o texto. Pena que o negro só quer amadores agora.

        • Mayweather está aposentado e não voltaria sob hipótese alguma contra alguém como o Lomachenko, ainda mais depois dos 40 anos. Eu acho que a possibilidade dessa luta acontecer tende a zero, por isso sequer cogitei no texto, por isso que o “atualmente” não cabe neste caso.

  • Patrick Bitencourt

    Vasyl tem uma movimentação muito inteligente mesmo,ele se coloca em ângulos onde o adversário não tem uma clara visão; por exemplo, por trás das luvas quando o adversário está com guarda alta ou então golpeia e movimenta-se lateralmente buscando as costas do adversário que ao girar para encontrá-lo já engole outra sequência. Sempre com muita velocidade é um alvo muito difícil e encontra brechas onde capitalizar em cima dos adversários.
    A propósito outro lutador que se mostrou muito inteligente taticamente na última luta foi o Saunders, que tirou o canadense Lemieux, um conhecido heavy hitter,para nada. David simplesmente não achou o campeão!

  • Danilo

    Não sei se já disse isso alguma vez mas, se não disse, vou dizer… Alexandre, eu poderia ficar um dia inteiro lendo seus textos; independente do tamanho. Além de muita informação relevante é muitíssimo bem escrito e cria a vontade de acompanhar o esporte assunto do texto.
    Muita gente diz que não existe lutador invencível, o que pode ser verdade. Lomachenko é vencível, o difícil é encontrar lutador que reúna todas as características para tal e muito sangue frio pra colocar tudo em prática.
    E como foi muito bem descrito no texto, Crawford reúne as características necessárias, o que faz desde já com que eu esteja animado para um possível confronto entre eles.

    • Minha intenção é exatamente criar vontade de acompanhar os esportes nos leitores. Que bom que o intuito tem sido atingido.

  • Patrick Santos

    Vamos lá: a maior chance de vermos um L no cartel do Lomachenko é vermos ele enfrentando um monstro que está lutando de meio médio, três categorias acima do peso pena, onde o ucraniano tava lutando esses dias. Um monstro que é considerado o segundo melhor da atualidade na lista da Ring e segundo melhor pelo próprio autor dessa matéria (um dos mais gabaritados do mundo, diga-se de passagem). Isso tudo com 11 lutas (!!!) de experiência profissional. O Loma é um exemplo que eu adoraria ver no MMA, um lutador que foi moldado no amador, luta após luta, até chegar no profissional e se tornar o fenômeno que é. Entendo que o lado amador do boxe é imensamente mais profundo que o do MMA, mas exemplos como o caso do Aaron Pico são espetaculares e eu torço para que nesse momento tenha algum moleque em um canto qualquer do mundo treinando e sendo aconselhado por um treinador ou familiar consciente para aguardar o momento certo de ser jogado aos leões.

    • Seu ponto de vista é muito legal, mas o MMA tá a quilômetros de distância do boxe pra fazer com que o amadorismo tenha um efeito tão forte nos lutadores como na nobre arte.

      Dá pra contar nos dedos de uma mão as organizações que tratam o MMA amador com decência. Sequer há concordância sobre as regras, não há uma padronização nacional em lugar algum do mundo, imagine padronização mundial. Sem isso, é impossível que o MMA amador valha de alguma coisa.

      Com esse cenário, as pessoas encaram o MMA amador como perda de tempo. E o pior, acabam se submetendo a iniciar suas carreiras em organizações tão ruins que dão vergonha até no amadorismo.

      Aaron Pico passou uma parte imensa disputando o cenário amador do wrestling, que é milhões de vezes mais organizado que o do MMA. E ele disputou também o cenário internacional, que muitas vezes distribui premiação em dinheiro. Se o Pico tivesse dependido apenas do MMA, ele não teria virado o monstro que virou.

      Nós amamos o MMA, mas pra ser considerado um esporte consolidado, ainda falta muito chão.