Como nossos pais

Lá pros idos de 1996, um tal de Mark Schultz – que, à época, era SÓ campeão olímpico de wrestling – foi com um amigo acompanhar os bastidores do UFC 9. O colega era um tal de Pedro Sauer – que, à época, era SÓ faixa-preta de um tal de Rickson Gracie.

Uma das lutas do evento seria entre a fera Gary Goodridge e o compatriota canadense Dave Beneteau, mas, adivinhem? Lutas caem de uma hora pra outra desde que o mundo é mundo. Beneteau não passou no exame médico e foi obrigado a abandonar o card um dia antes do confronto.

Quando ficou sabendo que Mark Schultz era um monstro do wrestling, Art Davie, um dos criadores do Ultimate, pirou. Ofereceu mundos e fundos para que o condecorado wrestler salvasse o evento e aceitasse sair na mão com o gigante kickboxer assim, do nada, em menos de 24 horas para a realização da peleja. Pedro Sauer botou pilha, e Schultz aceitou.

Aceitou e enfiou a porrada, diga-se de passagem, chegando à vitória por nocaute técnico aos 12 minutos de luta.

Ah! A vida de Mark e a do irmão, Dave Schultz, são retratadas no filme Foxcatcher – que é muito bom, por sinal (confira aqui a resenha do filme).

Permitam-me lembrar também que, em 2006, Antônio Braga Neto, então com 19 anos, pisou no Castelo das Pedras, local conhecido por hospedar bailes funk na noite carioca. Mas o jovem não estava ali pra cantar proibidão ou andar de trenzinho com o dedo pro alto. A intenção era assistir à segunda edição do Top Fighter MMA, mas, vejam vocês: lutas caem de uma hora pra outra desde que o mundo é mundo.

Lolito Lolito, cuja procedência, nome e credo são de absoluto desconhecimento – inclusive do Sherdog -, ficou sem adversário em cima da hora, e, tcharam! Braga Neto saiu da arquibancada, calçou as luvas e estreou no MMA com uma chave de braço ainda no primeiro round.

Ainda teve outro causo, envolvendo um vendedor de coco que entrou no ringue para ser campeão de um torneio cujo prêmio era uma moto zero quilômetro. Mas esse é melhor contado no livro “Por Trás do Octógono”, recém-lançado pela testemunha ocular do vale-tudo, Marcelo Alonso.

O que quero dizer é que a história de Luiz Felipe Alvim, por mais épicos e fantásticos que sejam os contornos, não é a primeira. O que assusta é que, em pleno 2017, algo de silhueta tão amadora ainda ocorra no – por vezes, combalido – cenário do MMA nacional.

Vi muita gente aplaudindo o feito do garoto – que, claro, não deve ser diminuído. Estava lá de boa, curtindo o evento, aceitou o amola-beiço no ringue em cima da hora, faturou o cinturão e, de quebra, ainda ficou noivo.

Bicho, a história é excelente! O negócio é que algumas coisas não batem aí, mas, enfim…

Falei com Cristiano Marcello, ex-lutador do UFC, treinador do Luiz e camarada meu, que fez questão de me explicar o ocorrido. Disse que o garoto estava com exames em dia porque iria lutar num evento na semana anterior e, por isso, não teve entraves para entrar no cage e conquistar o título do JF Fight.

Até que me provem o contrário, eu acredito no líder da CM System.

No entanto, depois do tanto que foi feito, do tanto que se batalhou para a profissionalização do MMA, ter de apurar se houve legalidade na realização de uma luta profissional é, no mínimo, alarmante.

Sigamos.

E que não tenhamos as dores de perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.

No caso, o pai.

O Vale-Tudo.

Foto: Leonardo Fabri

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    MMA nacional é uma caixinha de surpresas, já fizeram luta de um peso mosca com super pesado, árbitro carniceiro que saiu da platéia, lutador que saiu da platéia, não duvido nada qualquer dia colocar um lutador pra lutar com uma onça no cage.

  • Pedro Carneiro

    Peter Aerts também enfrentou o Ernesto Hoost pelo K-1 em uma luta que havia sido casada entre o Ernesto e o Bob Sapp. O Peter estava ali pra ser comentarista e entrou na luta com um calção do Schilt porque o Sapp fugiu da luta. O Aerts perdeu na decisão, mas fez frente ao Hoost treinado e isso é muita coisa.

  • Lucas Natan

    Rapaz, que texto bom de ler. Parabéns!

    • Marcos Luca Valentim

      Obrigado, camarada. Grande abraço.

    • Marcos Luca Valentim

      Obrigado, camarada. Grande abraço.

  • James sousa

    Bacana a história

  • Isabella Kida

    Marco, muito legal o texto! Realmente, quando li por aí muita gente exaltando só a coragem do moço me preocupei por não pensarem em toda a luta feita por profissionalizar o MMA e o que essa atitude pode retratar.

    Não que seja nada surpreendente, pois quantas vezes em eventos por aí os juízes são escolhidos ao acaso na torcida ou é um amigo do amigo de alguém sem o mínimo de preparo?

    Se o objetivo é evoluir é necessária uma coerência nas ações. :)

    • Marcos Luca Valentim

      Obrigado, Isabella. Coerência, sempre.

      • Isabella Kida

        Corrigindo: Marcos rs

  • Marco antônio

    O que vi de portal grande exaltando essa história do final de semana passado não foi pouco. Tem muita coisa mal contada nisso. Estava com os exames em dia porque iria lutar semana na semana seguinte, até onde sei o lutador em questão é lutador de muay thai, mas e aí, foi assistir um evento com os exames no bolso? Ganhou cinturão de um peso que ele não pesou? Olha, essa história a anos atrás seria bonita, hoje é só mais um sinal de que o má nacional vai de mal a pior, infelizmente. Outro dia pegaram um ÁRBITRO da plateia para cuidar dá vida de duas pessoas dentro de um cage. É óbvio que deu merda e uma pessoa quase saiu de caixão do ginásio.
    Parabéns pela estreia, Marcos.

  • Carlos Felix

    Que bom ver um texto desses, criticando esse absurdo.
    Também fiquei estarrecido com a mídia exaltando essa palhaçada.
    Mesmo que a história do Cristiano Marcello seja verdade, isso não poderia ter acontecido.
    Alguém da CABMMA se manifestou sobre o caso?

    • Marcos Luca Valentim

      Nada da CABMMA até o momento, camarada..

  • Carlos André

    Show. Como o site tem melhorado, melhores textos, como este. Grato. Parabéns a todos.