Como nossos pais

Por Marcos Luca Valentim | 10/10/2017 00:38

Lá pros idos de 1996, um tal de Mark Schultz – que, à época, era SÓ campeão olímpico de wrestling – foi com um amigo acompanhar os bastidores do UFC 9. O colega era um tal de Pedro Sauer – que, à época, era SÓ faixa-preta de um tal de Rickson Gracie.

Uma das lutas do evento seria entre a fera Gary Goodridge e o compatriota canadense Dave Beneteau, mas, adivinhem? Lutas caem de uma hora pra outra desde que o mundo é mundo. Beneteau não passou no exame médico e foi obrigado a abandonar o card um dia antes do confronto.

Quando ficou sabendo que Mark Schultz era um monstro do wrestling, Art Davie, um dos criadores do Ultimate, pirou. Ofereceu mundos e fundos para que o condecorado wrestler salvasse o evento e aceitasse sair na mão com o gigante kickboxer assim, do nada, em menos de 24 horas para a realização da peleja. Pedro Sauer botou pilha, e Schultz aceitou.

Aceitou e enfiou a porrada, diga-se de passagem, chegando à vitória por nocaute técnico aos 12 minutos de luta.

Ah! A vida de Mark e a do irmão, Dave Schultz, são retratadas no filme Foxcatcher – que é muito bom, por sinal (confira aqui a resenha do filme).

Permitam-me lembrar também que, em 2006, Antônio Braga Neto, então com 19 anos, pisou no Castelo das Pedras, local conhecido por hospedar bailes funk na noite carioca. Mas o jovem não estava ali pra cantar proibidão ou andar de trenzinho com o dedo pro alto. A intenção era assistir à segunda edição do Top Fighter MMA, mas, vejam vocês: lutas caem de uma hora pra outra desde que o mundo é mundo.

Lolito Lolito, cuja procedência, nome e credo são de absoluto desconhecimento – inclusive do Sherdog -, ficou sem adversário em cima da hora, e, tcharam! Braga Neto saiu da arquibancada, calçou as luvas e estreou no MMA com uma chave de braço ainda no primeiro round.

Ainda teve outro causo, envolvendo um vendedor de coco que entrou no ringue para ser campeão de um torneio cujo prêmio era uma moto zero quilômetro. Mas esse é melhor contado no livro “Por Trás do Octógono”, recém-lançado pela testemunha ocular do vale-tudo, Marcelo Alonso.

O que quero dizer é que a história de Luiz Felipe Alvim, por mais épicos e fantásticos que sejam os contornos, não é a primeira. O que assusta é que, em pleno 2017, algo de silhueta tão amadora ainda ocorra no – por vezes, combalido – cenário do MMA nacional.

Vi muita gente aplaudindo o feito do garoto – que, claro, não deve ser diminuído. Estava lá de boa, curtindo o evento, aceitou o amola-beiço no ringue em cima da hora, faturou o cinturão e, de quebra, ainda ficou noivo.

Bicho, a história é excelente! O negócio é que algumas coisas não batem aí, mas, enfim…

Falei com Cristiano Marcello, ex-lutador do UFC, treinador do Luiz e camarada meu, que fez questão de me explicar o ocorrido. Disse que o garoto estava com exames em dia porque iria lutar num evento na semana anterior e, por isso, não teve entraves para entrar no cage e conquistar o título do JF Fight.

Até que me provem o contrário, eu acredito no líder da CM System.

No entanto, depois do tanto que foi feito, do tanto que se batalhou para a profissionalização do MMA, ter de apurar se houve legalidade na realização de uma luta profissional é, no mínimo, alarmante.

Sigamos.

E que não tenhamos as dores de perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.

No caso, o pai.

O Vale-Tudo.

Foto: Leonardo Fabri

Marcos Luca Valentim é editor do SporTV/Combate. Já foi repórter da revista Tatame e assessor de comunicação do UFC. Além disso, é cronista e poeta. E praticante de muay thai. E rubro-negro.