Coluna do Coach: Torneios de lutas numa mesma noite são perigosos?

Coluna do Coach: Torneios de lutas numa mesma noite são perigosos?
MMA

Apesar de banido do UFC e vetado pela maioria das comissões atléticas americanas, os torneios de uma noite seguem acontecendo pelo mundo

Disputar um GP na mesma noite é perigoso? Sim, é. Sou contra o GP disputado em uma mesma noite pois o risco à integridade física do atleta é enorme. Porém, já treinei atletas para a disputa do mesmo, afinal sou preparador físico e, na minha linha de raciocínio, posso orientá-los sobre os riscos. mas não impedi-los ou deixar de treiná-los.

O método que o Bellator adota parece ser o ideal. Os atletas disputam o GP com uma certa distância entre uma luta e outra. O campeão do torneio ganha o direito de disputar o cinturão da categoria. Quando preparo um atleta, percebo que alguns têm condições de disputar de seis a oito rounds de cinco minutos, mas a principal diferença entre os demais torneios de um mesmo dia, como as competições de grappling e judô, são os golpes de impacto.

Citarei dois exemplos. O primeiro, da luta entre Lyoto Machida e Jon Jones, marcada para cinco rounds consecutivos. Muitos acham que não, mas Lyoto, mesmo com sua estratégia de contra-ataque, foi um dos únicos que partiu para dentro do campeão e estava bem no combate. Infelizmente ele sofreu uma cotovelada fortíssima que o prejudicou. Minha questão para vocês, leitores, é a seguinte: imaginem se aquela luta terminasse por pontos, mesmo com apenas dois rounds, e não pela finalização de Jones, e que fizesse parte de um GP. Qual seria a condição física de Lyoto para mais uma luta de dois ou três rounds?

Sheymon Moraes posa com o cinturão do GP conquistado no Bitetti Combat 12

Sheymon Moraes posa com o cinturão do GP conquistado no Bitetti Combat 12

No segundo exemplo, usarei o caso de Sheymon Moraes na conquista do GP do Bitetti Combat, em setembro do ano passado. Ele teve duas lutas duríssimas e, por mérito, venceu o torneio contra o talentoso Pedro Nobre. Na semana seguinte, exatos sete dias após a luta, começamos o camp para um suposta luta em dezembro e para as gravações do TUF Brasil 2, no time de Rodrigo Minotauro. Não me espantei com o acontecido, pois sei das capacidades físicas e técnicas do atleta.

Farei uma nova pergunta: podemos generalizar o segundo exemplo e defender o GP disputado em um dia?

Algumas vezes nem precisamos de um GP para mostrar quanto tempo um atleta que sofre uma lesão grave necessita para se recuperar e ser liberado. Nos Estados Unidos, as próprias comissões atléticas divulgam as listas de suspensões médicas após os eventos. Os atletas devem estar preparados para disputar três ou cinco rounds, caso seja necessário. Se nocautear ou finalizar em segundos será ótimo, mas sabemos que nem todas as lutas terminam por estes caminhos.

Ainda há o questionamento: existe diferença entre fazer uma luta de cinco rounds e fazer uma de dois, sair para o vestiário e voltar para mais uma de três? Sim, existe. O fato de não serem rounds em sequência muda muito. A estratégia pode mudar e, no caso de Lyoto contra Jones, mesmo que o brasileiro não tivesse levado um corte, poderia ter sofrido um golpe de impacto no corpo, o que muitas vezes passa despercebido até pouco tempo após o combate.

Em um GP, mesmo com o aquecimento entre uma luta e outra, a situação é diferente. A adrenalina do lutador cai por não estar em combate. O intervalo de um minuto entre os rounds de uma luta de cinco rounds recupera o atleta parcialmente. Serve para baixar o batimento cardíaco e recuperar a musculatura para mais ações de potência. Porém, como este tempo é curto, o estado de alerta do atleta permanece ativo. Um intervalo maior pode mudar todas as variantes citadas. Uma alteração no estado de alerta do lutador pode deixar seu corpo mais propenso a contusões.

Quando aquecemos um atleta antes da luta, devemos prepará-lo física e psicologicamente para que ele entre focado e com o corpo apto para ações de potência. Um erro comum é forçar o aquecimento simulando um round. Isto mostra que ninguém percebeu que ele já tem o batimento elevado, pois entrará no cage. Já vimos casos de atletas cansados por terem exagerado no aquecimento.

Apos uma luta em um GP, manter a pausa ativa, sem dúvida, é mais seguro e eficiente do que apenas relaxar e aquecer o lutador novamente pouco tempo antes da próxima luta. A pausa ativa não terá alta intensidade, mas sim uma frequência cardíaca que mantenha o corpo aquecido. Isto diminui o risco de lesões.

Em relação aos torneios do Bellator citados anteriormente, há o fato de ter um tempo curto entre uma luta e outra, o que pode atrapalhar na questão do corte de peso. Ainda assim, fazer uma luta de torneio a cada trinta dias é mais seguro do que fazer na mesma noite. Algumas medidas devem ser adotadas, como manter o peso do atleta mais próximo do limite da categoria; trabalhar com uma equipe multidisciplinar, trabalhando a recuperação com um fisioterapeuta; realizar um trabalho físico e técnico de manutenção. Pelo que vemos no MMA, hoje o tempo ideal entre uma luta e outra é de noventa a cem dias, exceto em casos de lesões graves.

  • Felipe Freitas

    Coluna incrível, como sempre! Eu sou muito contra GPs em uma noite. Mas sei que os atletas fazem isso porque precisam de grana.

    • Obrigado pelo reconhecimento Felipe.
      Concordo com você em relação a necessitarem de dinheiro, porém já vi muitos atletas encerrarem a carreira mais cedo por terem sido vítimas do amadorismo de aventureiros.

  • Pedro PM

    Eu não sou contra gps, desde que sejam adaptados às circunstâncias: Ao invés de 3 rounds de 5 minutos, poderia ser 3 rounds de 3 ou até 2 minutos, seriam lutas mais dinâmicas e menos desgastantes.
    Não sei se a comparação é válida, mais o gp peso pesado do Glory, na virada de ano, tinha só 2 rounds.

    • A questão não é ter 3, 4 ou 2 rounds, mas o problema que gera quando o cara sai do cage e tem que voltar depois.

    • Pedro, obrigado por participar!
      A questão é sempre pensar na integridade física. Muitas vezes precisamos de alguns segundos até que ocorra uma grave lesão, por isso esta precaução vem a tona.

      Grande abraço!

  • Victor C

    Excelente artigo, bastante esclarecedor!

    • Obrigado por acompanhar Victor! Grande abraço fera!

  • Bravin

    Fora a questão da integridade física do atleta o público tb acaba prejudicado. Eu assistia bastante os GPs do K1 e por algumas vezes vi lutadores que mereciam estar na final sendo substituidos pq, apesar de terem vencido, estavam lesionados por causa do combate anterior.

    • Perfeitamente. Uma lesão ocorrida numa luta pode até ser suportada até o final dela, por causa da adrenalina e do corpo quente. Mas quando o sujeito sai do cage e a descarga de adrenalina passa, fica difícil se recuperar e voltar.

      • Suruhito

        E foi no exemplo do Bravin que nasceu uma lenda chamada Bombereem…

    • Bravin concordo com você!
      Muitas vezes o melhor fica de fora pois não são máquinas. Já vimos ídolos do MMA e outras modalidades superarem grandes desafios e não conseguiram continuar por uma grave lesão.

      Eu sou a favor da longevidade na carreira do atleta.

      Grande abraço.