Colby Covington e a Licen$a (sic) Poética do Ódio

Por Gustavo Lima | 31/10/2017 14:30

Na noite de sábado, 28 de outubro, acontecia no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo o UFC Fight Night 119. No duelo coprincipal, o ascendente Colby Covington teria a sua chance de mostrar ao veterano Demian Maia o que vinha proferindo aos quatro cantos do mundo – e do Brasil.

Covington tinha como alvo primário finalizar o “infinalizável” Demian. Sob a premissa de ser um oponente chato e perigoso para Maia por conta de seu wrestling afiado – duas vezes All-American – ser suficiente para barrar o unidimensional jogo de single legs do paulistano, o “Caos” resolveu transcender suas probabilidades dentro do octógono e adotou um novo alvo visando atrair os holofotes para si.

Colby Covington, no media day:

“Cara, eu tô odiando esse lugar. Mal posso esperar para voltar aos Estados Unidos. É difícil de se conseguir uma refeição decente aqui. Desligaram o ar condicionado no primeiro dia e, na última vez que lutei no Brasil, desligaram o ar condicionado na arena. O lado bom é que treino para coisas desse tipo e para não cansar. Então, foda-se o Brasil. Espero que seja como sempre foi, todo mundo vai gritar “uh, vai morrer”, mas eles vão descobrir que eles vão morrer no sábado.”

Colby não é o primeiro nem será o último. Todavia, até esse ponto, não havia problemas maiores. Matt Brown fez a mesma coisa quando esteve por aqui, no UFC 198, para enfrentar o mesmo Demian Maia, e teve um final de semana de cão por conta de atitudes controversas tomadas durante a pesagem.

O trash talking é uma ferramenta cada vez mais comum e mobilizadora no aspecto promocional do MMA, gostemos ou não. Não só no nosso jovem esporte, vez que desde os tempos áureos da transformação do boxe em esporte popular e rentável, este método tem sido empregado para atrair atenção do público à competição em si.

Ora, se estamos numa modalidade que conta com sujeito A contra sujeito B competindo em conjunto de regras que simula um conflito físico de maior abrangência possível de técnicas desarmadas, é perfeitamente compreensível que emulemos um ambiente que a nossa lei definiria como “vias de fato”. Existem controvérsias e divergências de opinião, mas há um viés lógico por trás desta linha de raciocínio.

Gostaria de, neste momento, voltar um pouquinho para quando o UFC, em sua fase “moderna”, aportava no muito interessante mercado brasileiro. O “vilão” Chael Sonnen marcou época destilando preconceito contra o Brasil em sua rivalidade contra Anderson Silva. Posteriormente, Lyoto Machida, Wanderlei Silva, os irmãos Nogueira e toda a nação foram vítimas de comentários xenofóbicos do Gângster de West Linn.

Chael Sonnen:

“Machida não é um cara ruim, ele só é uma vítima do sistema brasileiro de educação. Existem maneiras melhores de fazer reposição eletrolítica do que bebendo urina.”

“Saudações de São Paulo! Estou aprendendo a língua daqui: breakdancing nas Paralimpíadas é chamado de capoeira e cocaína é chamada de lanche.”

“Minha impressão até aqui (sobre o Brasil)? Parece bastante a América. Sabe, quando eu era moleque, lembro de sair e sentar com meus amigos. Nós falávamos sobre a última tecnologia, medicina, videogames e a ingenuidade americana. Aí eu olhava para fora e via o Anderson e as crianças brasileiras brincando na lama.”

Toda forma estúpida de preconceito serve a algo ou a alguém, seja essa serventia responsável por trazer recompensas objetivas/materiais ou não. Sonnen ajudou o Brasil a abraçar o MMA incitando uma rivalidade, colocando uma nação atrás de todos os lutadores que o desafiaram. Funcionou? Sim. Continua sendo preconceito. Continua sendo a perpetuação de estereótipos degradantes que servem a alguém. O estereótipo do inimigo comum subdesenvolvido e invasor da Terra da Liberdade ainda existe – não só existe como continua servindo como motivação política nos Estados Unidos. Quem é do meio viu e vê comentários exaltando atitudes como as de Chael, seja não-ironicamente ou sem a bengala de ser “só uma personagem”.

Pouco mais de sete anos após o último boom do esporte no Brasil e da ascensão da controversa figura de Sonnen, presenciamos o nascimento de novos vilões. Após o estarrecedor fenômeno Conor McGregor, todos querem arriscar um pedacinho de sucesso utilizando meios extra-octógono para abocanhar bolsas antes inimagináveis. Colby Covington, ainda no media day, disse que “gosta de ser o vilão e gosta de calar as pessoas”.

O cenário hoje é outro. O Brasil se encontra consolidado como um dos principais mercados do UFC no mundo. A renda que o país traz para o UFC é considerável e nosso país ainda é um grande celeiro de atletas de ponta no MMA. Sonnen vendia a luta desde muito antes, atraindo atenção para o evento desde quando o combate sequer estava marcado. Colby Covington? Esse não. De fato, não havia muita gente de fora do nicho que se importasse com essa luta. E se havia (tanto dentro, quanto fora), o motivo principal era pela curiosidade de ver como Demian retornaria ao octógono após sua derrota para o campeão Tyron Woodley.

A quem serve o “vilão” Colby Covington? Primariamente, a si próprio – consequentemente, seu empregador se favorece do aumento de popularidade – conquistando a simpatia de quem compartilha o ódio de seu alter ego vilanesco. Ou seria seu próprio ego? “Brasil, você é um lixo. Vocês, animais imundos, são uma droga” foram as palavras proferidas por Covington ainda dentro do octógono após a vitória magra e nada empolgante contra Maia. Curiosamente, pedindo a Daniel Cormier que não permitisse a tradução instantânea de tamanha merda dita naquele momento.

Preconceito puro e simples. Covington jamais se queimaria dessa forma APÓS UMA LUTA caso não houvesse motivação positiva para a adoção de tal postura. Essa xenofobia deve aumentar a popularidade dele nos Estados Unidos, que ainda é o mercado número um do UFC.

Lembram quando Alex Nicholson, no UFC 202, no córner de Mike Perry, disse que Hyun Gyu Lim sequer podia “abrir a porra dos olhos” antes do combate e sofreu represália formal do UFC? Ora, imaginem só toda a comunidade de asiáticos dos EUA e todo o mercado inexplorado da Ásia tomando a atitude de Nicholson como um padrão para os atletas americanos. Feio, né?

Imaginem agora todo o Brasil vendo o UFC sob essa mesma ótica? Não, isso não vai acontecer. O MMA aqui já está bem sedimentado. A marca UFC continuará vendendo a mesma coisa no Brasil. De quebra, alguns Colby Covingtons continuarão trabalhando sua popularidade lá nos EUA, usando como trampolim o ódio adormecido sobre os “animais nojentos” daqui do terceiro mundo.

O MMA é o único esporte em que consigo pensar em que uma atitude desse tipo é não só aceita, mas defendida pelo gado como algo perfeitamente normal. A figura pública do atleta de MMA é encorajada a agir como um lutador de pro-wrestling quando lhe convém, com a própria comunidade alimentando a mentira de que aquela persona detém zero de influência sobre todo o meio que a cerca e a parcela da sociedade que tem contato com aquilo.

O meio do MMA ainda é retrógrado. A comunidade ainda difunde estereótipos que reforçam dezenas de formas de preconceito existentes que são problemas globais, mas não tão grandes assim para que se encontrem além da janela do aceitável dentro do perfil médio de fã deste esporte.

Tirando os preconceitos contra a cor da pele e o islã – os mais esdruxulamente condenáveis, muito por conta de participação demográfica dentro da comunidade -, praticamente qualquer outra forma de discriminação ainda é aceita no MMA desde que favoreça positivamente o lado do empregador. É por isso que Fabricio Werdum foi punido por chamar Tony Ferguson de “maricón”, mas Joe Rogan foi engraçadinho quando disse que Cris Cyborg tinha pênis, no auge do sucesso de Ronda Rousey e do quanto parecia fazer sentido ao UFC espantar a ideia de um confronto entre as duas.

Nesta balança, vale a pena ao UFC deixar que Covington destile um preconceitozinho leve. Ora, o impacto disso no mercado brasileiro é quase nulo. No mercado americano, temos um possível bad-boy-trash-talker-fan-favorite envolto na star-spangled banner. O que poderia dar errado?

Não cuspirei pra cima, todos nós estamos sujeitos a erros. Covington se beneficiará do que fez e mesmo assim eu prefiro lhe conceder o benefício da dúvida e pensar que não houve consciência plena do impacto que estes atos possuem. Todavia, não é tarde para se admitir que não foi um vilão, mas sim um otário.

Que nós, da imprensa, também nos mobilizemos a respeito desse tipo de coisa na comunidade do nosso esporte. O silêncio tem custado muito, muito caro. Os reflexos são vistos dia após dia nos comentários de toda e qualquer postagem que aborde esse tipo de tema no MMA. Vai ter gente dizendo que é procurar pelo em ovo, vai ter gente dizendo que é papo de “pachequinho”. Faz parte.

Paulista, patologicamente apaixonado por MMA, futebol e música.