CJ Hancock, o homem que esteve entre a vida e a morte no LFA

O MMA viveu uma história triste e curiosa nas últimas semanas. O lutador americano CJ Hancock foi nocauteado por Charlie Ontiveros na última edição do LFA. Até aí, tudo certo, mais um lutador acabou perdendo uma luta. O problema foi que CJ não respondia ao chamado dos médicos, que notaram que algo estava errado com ele. Seu coração parou, Hancock foi levado ao hospital e ele foi reanimado pelos médicos. Seu rim tinha parado por conta do corte de peso brutal feito antes da luta.

MMA Brasil teve a oportunidade de conversar com Clovis Hancock. O atleta fez um carreira até grande no MMA amador, onde competiu no peso meio-pesado e no peso médio. No MMA profissional, lutou pelo Bellator como peso médio e decidiu baixar para o peso meio-médio algumas lutas depois. Perguntado sobre, ele comentou sobre a decisão que tomou e que mudou os rumos de sua carreira:

“Porque basicamente, os caras que lutam pelo LFA, perto do UFC, são caras mais talentosos e cortam mais peso. Basicamente, você corta peso ou luta contra um cara 13kg mais pesado que você. Então, eu tentei cortar mais peso desta vez e acabou me atingindo. Eu sinto falta de lutar como meio-pesado, eu nem cortava peso naquelas lutas, só ia pra pesagem comendo e bebendo e meus oponentes cortavam de 108kg, quase morrendo. Era mais legal, porém, novamente, lutando no cage, eram caras 13kg mais pesados que eu, é basicamente o que você tem que fazer”.

Antes da triste luta contra Ontiveros, Hancock lutou contra o cazaque Nikolay Verettnikov no LFA 7, luta que marcou sua estreia no peso meio-médio. Nocauteado no segundo round, CJ contou que aquele corte de peso também acabou sendo ruim, mas não foi tão feio quanto o da pior luta de sua vida:

“Sempre que corto pra 77kg é um corte ruim, mas aquele corte foi melhor, pois fiz uma dieta adequada. Eu só cortei 2kg de água naquela luta, mas quando fui lutar, ele era muito maior que eu, tinha 7kg a mais que eu, por isso pensei que precisava cortar mais água para ficar mais forte, e isso voltou contra mim. Não tinha força, fiquei muito leve, meu corpo já não estava respondendo, então, isso voltou contra mim, e agora, nunca mais poderei lutar novamente”.

Perguntamos para Clovis sobre a possibilidade da contratação de um nutricionista para um corte de peso mais saudável e mais adequado, mas ele citou sobre as dificuldades financeiras que um lutador tem por conta de patrocínios e falta de dinheiro fixo:

“Eu deveria, mas é difícil quando você é um atleta, a não ser que consiga algum patrocínio. Eu não tenho patrocínios e nem consigo pagar um nutricionista. Minha namorada compete e me ajuda na dieta, mas quando chega na parte de cortar peso, ela não sabe muito sobre”.

Já comentando sobre o triste momento, Hancock citou que se lembra perfeitamente de tudo que aconteceu até o momento do nocaute, e que os médicos lhe contaram sobre a quase fatalidade acontecida, e que nunca pensou que algo assim poderia acontecer com ele:

“Eu lembro de tudo até cair, e quando acordei no hospital, estava tudo meio embaçado e até agora tenho efeito dos remédios. Eu lembro de tudo, até a parte em que caí e acordei no hospital. Lá, fizeram massagem cardíaca e aplicaram o desfibrilador, me trazendo de volta. Contaram que meu coração parou por cinco minutos e que estava severamente desidratado. Eles me deram oito bolsas de soro, fiquei com meu rim sem funcionar por cinco ou seis horas. E naquele ponto, comecei a me sentir melhor, meu corpo começou a responder, mas lembro de tudo claramente até cair e acordar”.

“Eu sou grato por terem me socorrido. Já ouvi disso acontecer, mas nunca pensei que aconteceria comigo, pensei que era invencível e que meu corpo aguentaria tudo, e um dos problemas foi a confiança no meu corpo. Quando estava cortando peso, houveram momentos que pensei que iria desmaiar, mas pensei que meu corpo aguentaria, que eu sou duro, que se minha mente aguentasse, eu estaria tranquilo. Eu me forcei muito no corte de peso e meu corpo simplesmente desistiu. No segundo round, vi que algo estava errado, pensei que era só me esforçar e coloquei minha vida em risco, arrisquei tudo o que amo. Pensei que ia morrer, meu coração parou por cinco minutos, tecnicamente morri, não respirei por cinco minutos. Vi o vídeo dos médicos me socorrendo e é difícil de assistir, até porque minha família estava lá, minha namorada estava lá, eles não puderam subir no cage. É difícil, nunca pensei que aconteceria comigo”.

Agora aposentado por razões óbvias, CJ, que abandona o MMA com um cartel de 2-3, citou que continuará competindo no jiu-jítsu, esporte onde ele não precisa cortar peso para continuar lutando, e também deu recado aos atletas

Eu continuarei dando aulas, mas meu foco agora será em competições de grappling. Jiu-jítsu sempre foi meu grande amor, estive lutando por outros seis anos. Estou invicto em superlutas de submission, quero manter isso, tenho boas parcerias aqui, vou continuar nas superlutas.

“É difícil pra eles, porque ou cortam pra bater o peso, ou lutam contra um cara muito mais pesado. Eu vejo garotos cortando peso no wrestling e isso não é saudável, não faz bem pro seu corpo, pro seu rim. Tem muitas coisas ruins nisso e podem ser permanentes, eu diria pra eles que não vale a pena cortar esse peso, competir desse jeito, arriscar seu corpo, sua mente, ter essa pequena vantagem. Quando você chega em um nível alto, como no LFA ou no UFC, você vai querer ter essa vantagem. Uma coisa que amo no jiu-jítsu é o fato de não importar o peso, já finalizei um cara com 150kg, é algo que amo no competir no jiu-jítsu, nunca precisei fazer isso lá. E principalmente para os caras mais novos, porque quanto o mais novo você é, mais fácil é para cortar, mas não deixa de ser agressivo pra você, pro seu corpo, pro seu rim. Quando você tem dois caras se matando pra cortar o peso, os dois estão fazendo a mesma coisa, vão estar bem mais pesados no cage, por que se importa então? Tem alguns eventos na Califórnia que estão fazendo pesagem no dia da luta. Não tenho certeza se é bom ou não. Existem outras organizações que proibem isso, que eles tem que estar 100% no cage. Será melhor pra todo mundo se acabar o corte, tanto no wrestling, no MMA ou qualquer outro esporte de combate”.

  • Luiz Gustavo

    Rapaz…q milagre aconteceu com esse homem…
    O triste é q essa não será a última vez q isso ocorrerá pelas loucuras realizadas nesse processo d perda d peso.
    No mais,excelente trabalho do site por conseguir tal entrevista

  • Juan

    Notícia importante e poucos sites noticiaram.

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Ainda bem que parou, não acho que compensa ficar maior que o adversário, só que sem gás, energia e resistência, do que menor e cheio de energia, o próprio Kevin Lee sofreu na luta em escala menor que esse cara que nem se compara, final feliz ao menos, parabéns pro site por conseguir falar com ele, é um negócio bem delicado e que tem que ser divulgado para as pessoas terem noção.

  • Hericly Andrade Monteiro

    Acho que ano após ano fica mais flagrante que esse tipo de prática é extremamente pouco saudável. Vejo na adoção de novas categorias de peso, além do acompanhamento feito pela organização do corte de peso dos atletas, medidas importantes a serem tomadas.

  • Lucas Natan

    Pior que só acredito que algo será feito quando esse tipo de coisa acontecer no UFC ou no Belattor.