Cine Luta indica: “Warrior”, o melhor filme de MMA já feito

Cine Luta indica: “Warrior”, o melhor filme de MMA já feito
MMA

O Cine Luta analisa "Warrior", estrelado por Tom Hardy, Nick Nolte e Joel Edgerton, que certamente é o melhor filme de MMA já feito. Todavia, o filme não é sobre luta, mas sobre o perdão nas relações familiares.

Crítica com SPOILERS

Caim e Abel, Rômulo e Remo, Isaque e Ismael, Esaú e Jacó, Adolf Dassler e Rudolph Dassler, Fernando Collor e Pedro Collor, Rute e Raquel, Mufasa e Scar, Tommy Conlon e Brendan Conlon. As histórias de conflitos entre irmãos são inúmeras, sejam elas na realidade ou na ficção, e permeiam o imaginário da humanidade – quem nunca sonhou em ver Wladimir Klitschko contra seu irmão Vitali Klitschko? Em “Warrior”, somos levados a mais um desses embates, o confronto entre Brendan e Tommy Conlon em uma luta de MMA.

O filme, que apesar de ter tido o seu título traduzido no Brasil, ficou conhecido aqui pelo nome original, conta a história dos conflitos familiares envolvendo Paddy Conlon (Nick Nolte), um alcoólatra que busca a recuperação apoiado na fé, e seus filhos, Brendan (Joel Edgerton) e Tommy (Tom Hardy). Os filhos receberam o gosto pelas lutas através do pai, porém a doença de Paddy provoca o divórcio e a separação da família. Tommy segue a mãe e Brendan, motivado pelo desejo de permanecer próximo à namorada, fica com o pai. Os anos passam, a mãe de Tommy e Brendan morre, o primeiro se torna um fuzileiro naval e o segundo, um professor de física. Nesse interim, Paddy tenta se reabilitar do alcoolismo e se torna um religioso fervoroso.

A história dos três personagens volta a se entrelaçar quando Tommy decide voltar para a casa do pai. Percebemos ali a amargura que há em relação ao pai e o desejo de Paddy de reaver a afeição dos filhos. Tommy vai a uma academia de MMA e lá nocauteia Pete “Mad Dog” Grimes, durante uma sessão de sparring. O que o fuzileiro não sabia é que nocauteara um dos lutadores mais famosos do mundo e que o vídeo da luta viralizou no YouTube. Enquanto isso, Brendan passa por dificuldades financeiras, em virtude da hipoteca da casa e dos problemas de saúde de sua filha, e faz lutas amadoras para complementar a renda.

Pouco tempo depois, um torneio de MMA chamado Sparta promove um GP na cidade e os dois irmãos decidem participar do evento, sem que um soubesse da inscrição do outro. Tommy volta a ser treinado pelo pai, enquanto Brendan, motivado pelas dificuldades financeiras e mesmo contrariando a esposa, vai ser treinado por seu amigo Frank Campana.

É durante esse torneio que os conflitos familiares se acentuam. Brendan não permite que o pai tenha contato com as netas e Tommy, mesmo sendo treinado por Paddy, faz questão de quase a todo momento deixar clara a sua mágoa com o pai. O torneio se inicia e Tommy se destaca pelos seus nocautes rápidos e brutais. Já Brendan, por ser o maior azarão e por seu jiu-jítsu afiado e pegador.

Tommy usa o sobrenome da mãe, Riordan, mas a exposição no torneio leva-o a ser reconhecido pelos ex-companheiros militares, que revelam que Tommy Conlon é um herói de guerra, o que só aumenta a sua popularidade. Em um período entre as lutas do torneio, Brendan encontra o irmão e ali se revelam raízes de amargura mais profundas e o descontentamento de Tommy por Brendan tê-lo abandonado e não ter participado dos últimos momentos da mãe. Já Brendan se queixa da ausência de Tommy durante todos os anos após o falecimento da mãe. Há falta de perdão de Tommy com Brendan, de Brendan com Tommy e de todos com Paddy, que anseia por uma reconciliação com os filhos.

Quando chega a hora das semifinais do torneio, Tommy nocauteia novamente Mad Dog Grimes, enquanto Brendan enfrenta o maior nome que um lutador poderia ter na carreira, Koba, um russo que está invicto durante toda a carreira e é uma clara referência a Fedor Emelianenko. Apesar da força, da superioridade e do favoritismo de Koba, Brendan se supera e usa o jiu-jítsu para vencer o russo, fazendo com que a final tome proporções épicas confrontando dois irmãos.

Nesse momento temos a cena mais forte do filme, onde Tommy briga com o pai e expõe todo o seu ressentimento com Paddy e sua incredulidade em relação à mudança dele. Paddy, imerso em culpa, cai em tentação e volta a se embriagar – aqui, Nick Nolte nos presenteia com uma cena memorável de um papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

O dia seguinte é o da final entre os irmãos, o momento em que laços familiares se chocam em um confronto de mágoas e amarguras. Tommy é o favorito para vencer o combate e o torneio, mas Brendan luta motivado pela necessidade de sustentar a sua família. O fuzileiro começa melhor e só não nocauteia o irmão em virtude do ótimo poder de encaixe de Brendan, até que, em uma grande virada, Brendan encaixa uma finalização justa em Tommy, que se recusa a desistir. A omoplata do professor machuca seriamente o ombro de Tommy, que, apesar dos incessantes pedidos do irmão, se recusa a bater, motivado pela força de vontade e pelo orgulho de não perder para o irmão. A luta prossegue com Tommy machucado, sem ceder aos apelos do irmão para que ele desista. Dada a obstinação do fuzileiro, Brendan não tem outra opção a não ser explorar a brecha na guarda dele, causada pelo ombro machucado, e nocauteá-lo, tonando-se o campeão do evento. No fim do combate, em meio a lágrimas, os irmãos se perdoam e, diferentemente de todos os casos de conflitos entre os irmãos citados no início do texto, o final dessa história é feliz.

Conclusão e nota

Embora seja ambientado em um torneio de MMA, “Warriors” é um filme sobre perdão e sobre as consequências que a falta dele reverbera na alma dos envolvidos com a amargura. É possível acompanhar não somente a carreira esportiva dos irmãos, mas os problemas e traumas que acorrentam suas vidas e os impedem de seguir em frente. As cenas que envolvem as frequentes tentativas de reconciliação de Paddy com os filhos são de doer o estômago dos expectadores e a dureza de coração dos irmãos é capaz de gerar indignação em alguns casos.

Se há uma lição que se pode tirar do filme é que o perdão, além de ser uma decisão, é uma âncora que impede que ambos os lados prossigam com a sua vida, principalmente o que não perdoa. É aquele velho ditado que diz que não perdoar é tomar um copo de veneno e achar que quem irá morrer é o outro.

“Warriors” também se destaca por ser o melhor filme que envolva o MMA e, apesar do orçamento modesto, é o melhor filme pela quase completa inexistência de boas produções que abordem o esporte. É dramático, empolgante, edificante e faz valer as suas duas horas e vinte minutos de duração.

Nota do filme: faixa roxa.

Desafio do Editor

Oito lutadores aparecem no filme “Warrior”. Dois deles fazem os papeis de si e seis estão no torneio com Brendan e Tommy. Tirando os dois óbvios, quem é capaz de listar os outros seis? Não vale consulta! Revejam o filme, adiantem direto para a parte do torneio, mas não vão nos créditos, IMDb ou coisa parecida.

PS: um deles nem o Alexandre Matos sabia quem era.

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  • João Gabriel Gelli

    Ótimo texto, Pedro. Gosto muito desse filme e da atuação do Tom Hardy, que vem se tornando um ótimo nome, além da do Nick Nolte.

    Mantendo o tema MMA, fica a recomendação pela série Kingdom, sobre o dia-a-dia de uma família que tem todos os seus membros envolvidos com o mundo das lutas, com o patriarca sendo ex-lutador e dono de academia e os filhos são lutadores. Inclusive o pai é interpretado pelo mesmo ator que faz o treinador do Brendan no filme.

    • Danilo Oliveira

      Já estou assistindo a série, valeu pela indicação. Quanto ao filme assisti já tem um tempo mais gosto muito dele também, não sabia pra quem torcer devido as motivações de cada um, mas no final fiquei satisfeito com o desfecho. Tom Hardy sempre com ótimas atuações.

      • Acho que esse seu sentimento foi o da maioria.

      • Pedro Carneiro

        Sério? Acho que sou o diferentão então, pois eu torci pelo Brendan o filme todo.

    • Pedro Carneiro

      Assistirei

  • Gefferson Nesta

    Bom filme, gostei muito da trama familiar entre Tom Hardy, Joel Edgerton e Nick Nolt, de roteiro simples, mas bem legal. A historia de Tommy ser um ex-fuzileiro naval e reconhecido por ser um herói e não querer reconhecimento por isso, os dois irmãos lutando por motivos diferentes, a admiração que o irmão tem por Tommy. Acho até que Nick Nolt Indicado ao Oscar pelo papel.

    • O filme é simples, mas tem uma história que pega no lado emocional e os atores foram muito bem. Só achei meio forçado ter lutador de peso leve até pesado na competição, mas isso certamente passa batido pra 99% do público do filme.

      • Gefferson Nesta

        Passou batido mesmo!

    • Pedro Carneiro

      Nolt concorreu merecidamente ao Oscar naquele ano, mas perdeu pro Christopher Plummer.

  • Anderson Rodrigues

    otima resenha pedro. vou baixar e assistir e tentar adivinhar quem sao os lutadores.
    Tom hardy que ficou bombado pra fazer o vilao do batman o cavaleiro das trevas e fez tbem o ótimo mad max

    • Pode tentar acertar só sete (na verdade, cinco, porque dois fazem papel deles próprios, então nem tem graça). Mas tenta acertar na honestidade, sem consultar, só assistindo. O oitavo você nem precisa se esforçar porque não vai dar hahaha

    • Pedro Carneiro

      Cara, acho que nesse filme o Hardy tava mais forte ainda do que quando fez o Bane. O melhor filme que eu assisti com ele é o “Os Infratores”. Povo se indigna comigo, mas eu acho o Mad Max bom, porém supervalorizado.

      • Hardy tava mais definido em Warrior, mas mais parrudo no Batman.

  • James sousa 8

    Ótima dica Pedro e o filme está no catálogo da netlifix então quem for assinante já pode assistir numa boa

    • Bem lembrado. Eu tinha falado pro Pedro colocar nos textos quando o filme estiver no Netflix ou no Net Now, mas nós dois esquecemos.

    • Pedro Carneiro

      Verdade James, tomara que não tirem do catalogo, o que as vezes acontece…

  • Paulo Melo

    Parabéns pelo texto Pedro !
    Rute e Raquel maior rivalidade da dramaturgia brasileira , nem tem discussão rs
    Eu gostei muito desse filme , e conheci o mesmo sem querer , pois estava assistindo o TUF , ai vi que ele iria passar na sequência e decidi assistir e valeu muito a pena .
    Eu ia consultar pra ver os nomes dos lutadores , mas vou topar o desafio de tentar adivinhar , já que eu lembro apenas de 2 quando vi o filme ( devo ter reconhecido mais , mas esqueci )

    • Pedro Carneiro

      valeu, Paulão!
      Com certeza, maior rivalidade entre irmãos desde Caim e Abel, Rute e Raquel só rivalizariam talvez com os irmãos Dassler.
      Eu também assisti ele por acaso, é é um filme muito massa.
      Isso ai, vamos ver se alguém consegue acertar os 8!

      • A meta é acertar sete, ninguém vai acertar oito, nem a Sra. Marrero.

        • Paulo Melo

          Opa , acho que o oitavo foi pego ai no pulo rs

          • Eu dei o sobrenome de propósito e assim mesmo ninguém vai acertar. Não é o Carmelo Marrero hahaha

  • Guilherme Yamashita Anami

    Legal ter mais uma matéria pro Cine Luta. O filme é muito bom mesmo, lembro de tê-lo visto citado até em algumas listas de melhores do ano na época.

    Não vou tentar adivinhar os oito lutadores pq, se o Alexandre não conseguiu, tá fora de cogitação. Acho legal tentar pescar a inspiração pros dois protagonistas:

    – Pra mim, o Tom Hardy faz uma mistura de Nick Diaz com Mike Tyson e Brian Stann, rs. O cara é um herói de guerra e bad boy (acho que rola até um lance de ele faltar na coletiva de imprensa), além de nocauteador avassalador.
    – O personagem do Edgerton seria uma mistura de Rich Franklin (por ser professor, rs) com Minotauro (as finalizações depois de lever uma surra).

    Talvez o motivo de Warrior ser um bom filme é a qualidade dos envolvidos e o fato de terem tentado contar uma boa história acima de tudo. O MMA é só o pano de fundo.

    • Pedro Carneiro

      Tom Hardy é um Brian Stann versão bad boy mesmo! E é justamente isso, os bons filmes fazem isso, colocam a luta como pano de fundo e como uma metafora da luta que o cara está enfrentado contra as dificuldades da vida

    • Tenta adivinhar os outros sete, são todos de cenário recente do UFC.

    • Boa comparação, aliás.

  • Guilherme Yamashita Anami

    Pedro, tenho uma sugestão pra matérias futuras: fazer “casting” (imaginar elenco e diretor) para eventuais cinebiografias de personalidades do MMA. Poderiam começar com o Minotauro, ou Dana White, ou algo mais clássico, como a história do UFC 1.

    Talvez esse tipo de matéria não combine muito com a pegada do site, mas fica a sugestão, rs.

    • Pedro Carneiro

      Excelente sugestão. Vou fazer um texto nesse formato!

    • Acho que tem como combinar, sim.

  • Bruno Moraes da Costa

    Valeu a indicação, Pedro! Vou assistir quando tiver tempo. Sei que já foi objeto da coluna o filme Foxcatcher, mas vale muito a pena pra quem quiser ter outro ângulo, mais realista, sobre o que aconteceu, vale muito a pena assistir documentário que está na Netflix. Excelente!

    • Pedro Carneiro

      Com certeza,e complemente e muito o filme. Um ótimo documentário!

    • Vamos falar do documentário num futuro breve também.

  • Laís

    Como já era de se esperar, ótimo texto! Nunca tinha ouvido falar do filme, ou ouvi e não me recordo, mas procurarei assistir! E, ainda por cima, contarei com a presença do ilustre Pedro Lins, também conhecido como meu namorado :D

    • Opinião altamente tendenciosa de uma carneirete.

    • Pedro Carneiro

      Melhor opinião! Só que agora vc vai ver o filme já cheia de spoilers! hahaha

  • Alexandre Guerreiro

    Muito bom o texto, a coluna e as indicações de outras coisas aqui nos comentários. Anotei todos e vou ver, mais porque vc voltou a fazer em texto e não em podcast. Podcast é melhor, hein?

    • Pedro Carneiro

      Valeu, Alexandre, que bom que vc gostou! Assista mesmo pois são ótimas recomendações. Quanto ao podcast em audio, voltamos a fazer em texto porque achamos que 2 podcasts semanais ficariam muita coisa em áudio e o publico não conseguiria ouvir. A audiência cai bastante, pra vc ter uma ideia, no último podcast tivemos 1259 downloads, já no Cine Luta de Creed foram 191. O pessoal não tem preferencia por esse formato, pelo menos eu acho. Já em video, eu acho inviável fazer videos muito longos, eu mesmo nunca assisto, sem contar que perderíamos a galera que ouve no carro, ônibus, academia, etc.

      • Alexandre Guerreiro

        eu entendo essa questão da dificuldade das pessoas ouvirem 2 podcast na mesma semana e da pouca audiência como foi o caso do programa do Creed, mais eu acho que a qualidade em podcast é melhor e vcs tem que ver o que é melhor, se é fazer algo com a melhor qualidade possível ou se quer fazer pra ter alta audiência. Eu prefiro a qualidade, mais isso é com vcs!
        Abraço

  • Gustavo Menor

    Acabei de assistir no Netflix, curti muito! Se procurar por Warrior não acha, só por “Guerreiro”.

    Muito bem produzido e roteirizado. Achei só que faltou um rabicho no final após a última luta do GP, mas mesmo assim curti demais. Sobre os lutadores eu reconheci:

    *SPOILER DETECTED*
    – Roan Jucão que se lesionou pro Brendan entrar no GP
    – Anthony Johnson que perdeu pro Brendan no GP
    – Nate Marquardt idem.
    – Rashad Evans e Stephan Bonnar interpretando a si próprios.
    – Erik Apple interpretando o Reza Madadi kkk “Mad Dog”

    Também aparece o Jon Anik e o Josh Rosenthal.
    O resto eu não reconheci.

    Muito obrigado pela dica!

    Ps: se a USADA testasse o Tom Hardy ele não lutava o GP kkkk

    • Pedro Carneiro

      Esses 8 são realmente um desafio. Tom Hardy tava com um trapézio descendente gigante. hahahaha

  • Digodasilva

    Demorei para ler o texto embora quisesse muito. A correria tá insana. Mas não poderia deixar de elogiar mais uma vez essa coluna que está nota dez! Além da óbvia afinidade com lutas a qual a coluna se propõem, sempre nos traz boas dicas e o melhor de tudo, ótimas lições e conselhos tiradas dos roteiros. Parabéns à galera MMA Brasil e especialmente ao Pedro que nos presenteia com os texto de seção.

    • Pedro Carneiro

      que bom que gostou, fera! A ideia é manter a coluna com certa regularidade. Abração!