Por Pedro Carneiro | 18/05/2016 01:53

Crítica com SPOILERS

Caim e Abel, Rômulo e Remo, Isaque e Ismael, Esaú e Jacó, Adolf Dassler e Rudolph Dassler, Fernando Collor e Pedro Collor, Rute e Raquel, Mufasa e Scar, Tommy Conlon e Brendan Conlon. As histórias de conflitos entre irmãos são inúmeras, sejam elas na realidade ou na ficção, e permeiam o imaginário da humanidade – quem nunca sonhou em ver Wladimir Klitschko contra seu irmão Vitali Klitschko? Em “Warrior”, somos levados a mais um desses embates, o confronto entre Brendan e Tommy Conlon em uma luta de MMA.

O filme, que apesar de ter tido o seu título traduzido no Brasil, ficou conhecido aqui pelo nome original, conta a história dos conflitos familiares envolvendo Paddy Conlon (Nick Nolte), um alcoólatra que busca a recuperação apoiado na fé, e seus filhos, Brendan (Joel Edgerton) e Tommy (Tom Hardy). Os filhos receberam o gosto pelas lutas através do pai, porém a doença de Paddy provoca o divórcio e a separação da família. Tommy segue a mãe e Brendan, motivado pelo desejo de permanecer próximo à namorada, fica com o pai. Os anos passam, a mãe de Tommy e Brendan morre, o primeiro se torna um fuzileiro naval e o segundo, um professor de física. Nesse interim, Paddy tenta se reabilitar do alcoolismo e se torna um religioso fervoroso.

A história dos três personagens volta a se entrelaçar quando Tommy decide voltar para a casa do pai. Percebemos ali a amargura que há em relação ao pai e o desejo de Paddy de reaver a afeição dos filhos. Tommy vai a uma academia de MMA e lá nocauteia Pete “Mad Dog” Grimes, durante uma sessão de sparring. O que o fuzileiro não sabia é que nocauteara um dos lutadores mais famosos do mundo e que o vídeo da luta viralizou no YouTube. Enquanto isso, Brendan passa por dificuldades financeiras, em virtude da hipoteca da casa e dos problemas de saúde de sua filha, e faz lutas amadoras para complementar a renda.

Pouco tempo depois, um torneio de MMA chamado Sparta promove um GP na cidade e os dois irmãos decidem participar do evento, sem que um soubesse da inscrição do outro. Tommy volta a ser treinado pelo pai, enquanto Brendan, motivado pelas dificuldades financeiras e mesmo contrariando a esposa, vai ser treinado por seu amigo Frank Campana.

É durante esse torneio que os conflitos familiares se acentuam. Brendan não permite que o pai tenha contato com as netas e Tommy, mesmo sendo treinado por Paddy, faz questão de quase a todo momento deixar clara a sua mágoa com o pai. O torneio se inicia e Tommy se destaca pelos seus nocautes rápidos e brutais. Já Brendan, por ser o maior azarão e por seu jiu-jítsu afiado e pegador.

Tommy usa o sobrenome da mãe, Riordan, mas a exposição no torneio leva-o a ser reconhecido pelos ex-companheiros militares, que revelam que Tommy Conlon é um herói de guerra, o que só aumenta a sua popularidade. Em um período entre as lutas do torneio, Brendan encontra o irmão e ali se revelam raízes de amargura mais profundas e o descontentamento de Tommy por Brendan tê-lo abandonado e não ter participado dos últimos momentos da mãe. Já Brendan se queixa da ausência de Tommy durante todos os anos após o falecimento da mãe. Há falta de perdão de Tommy com Brendan, de Brendan com Tommy e de todos com Paddy, que anseia por uma reconciliação com os filhos.

Quando chega a hora das semifinais do torneio, Tommy nocauteia novamente Mad Dog Grimes, enquanto Brendan enfrenta o maior nome que um lutador poderia ter na carreira, Koba, um russo que está invicto durante toda a carreira e é uma clara referência a Fedor Emelianenko. Apesar da força, da superioridade e do favoritismo de Koba, Brendan se supera e usa o jiu-jítsu para vencer o russo, fazendo com que a final tome proporções épicas confrontando dois irmãos.

Nesse momento temos a cena mais forte do filme, onde Tommy briga com o pai e expõe todo o seu ressentimento com Paddy e sua incredulidade em relação à mudança dele. Paddy, imerso em culpa, cai em tentação e volta a se embriagar – aqui, Nick Nolte nos presenteia com uma cena memorável de um papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

O dia seguinte é o da final entre os irmãos, o momento em que laços familiares se chocam em um confronto de mágoas e amarguras. Tommy é o favorito para vencer o combate e o torneio, mas Brendan luta motivado pela necessidade de sustentar a sua família. O fuzileiro começa melhor e só não nocauteia o irmão em virtude do ótimo poder de encaixe de Brendan, até que, em uma grande virada, Brendan encaixa uma finalização justa em Tommy, que se recusa a desistir. A omoplata do professor machuca seriamente o ombro de Tommy, que, apesar dos incessantes pedidos do irmão, se recusa a bater, motivado pela força de vontade e pelo orgulho de não perder para o irmão. A luta prossegue com Tommy machucado, sem ceder aos apelos do irmão para que ele desista. Dada a obstinação do fuzileiro, Brendan não tem outra opção a não ser explorar a brecha na guarda dele, causada pelo ombro machucado, e nocauteá-lo, tonando-se o campeão do evento. No fim do combate, em meio a lágrimas, os irmãos se perdoam e, diferentemente de todos os casos de conflitos entre os irmãos citados no início do texto, o final dessa história é feliz.

Conclusão e nota

Embora seja ambientado em um torneio de MMA, “Warriors” é um filme sobre perdão e sobre as consequências que a falta dele reverbera na alma dos envolvidos com a amargura. É possível acompanhar não somente a carreira esportiva dos irmãos, mas os problemas e traumas que acorrentam suas vidas e os impedem de seguir em frente. As cenas que envolvem as frequentes tentativas de reconciliação de Paddy com os filhos são de doer o estômago dos expectadores e a dureza de coração dos irmãos é capaz de gerar indignação em alguns casos.

Se há uma lição que se pode tirar do filme é que o perdão, além de ser uma decisão, é uma âncora que impede que ambos os lados prossigam com a sua vida, principalmente o que não perdoa. É aquele velho ditado que diz que não perdoar é tomar um copo de veneno e achar que quem irá morrer é o outro.

“Warriors” também se destaca por ser o melhor filme que envolva o MMA e, apesar do orçamento modesto, é o melhor filme pela quase completa inexistência de boas produções que abordem o esporte. É dramático, empolgante, edificante e faz valer as suas duas horas e vinte minutos de duração.

Nota do filme: faixa roxa.

Desafio do Editor

Oito lutadores aparecem no filme “Warrior”. Dois deles fazem os papeis de si e seis estão no torneio com Brendan e Tommy. Tirando os dois óbvios, quem é capaz de listar os outros seis? Não vale consulta! Revejam o filme, adiantem direto para a parte do torneio, mas não vão nos créditos, IMDb ou coisa parecida.

PS: um deles nem o Alexandre Matos sabia quem era.

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