Por Pedro Carneiro | 04/02/2019 22:35

Depois de um hiato, a coluna de cinema do MMA Brasil está de volta. E não poderia existir um momento melhor para o retorno da coluna Cine Luta que fosse para resenhar sobre a volta da franquia Creed na telona. A continuação vem 3 anos após o sucesso do primeiro, e já é o oitavo filme da trajetória do interminável Sylvester Stallone interpretando Rocky Balboa.

O filme protagonizado por Adonis Creed (Michael B. Jordan) mantém praticamente todo o elenco, acrescentando no segundo filme a presença de Viktor Drago (Florian Munteanu), além do resgate de personagens da franquia Rocky como Ivan Drago (Dolph Lundgren) e Ludmilla V. Drago (Brigitte Nielsen). A direção saiu das mãos de Ryan Coogler, envolvido com projetos na Marvel, para as de Steven Caple Jr.

Rocky Balboa (Silvester Stallone) tirando o roupão de Adonis Creed (Michael B. Jordan) no córner (Foto: Barry Wetcher / Metro Goldwyn Mayer Pictures / Warner Bros. Pictures © 2018 Metro-Goldwyn-Mayer Pictures Inc. and Warner Bros. Entertainment Inc.)

Rocky Balboa (Sylvester Stallone) tirando o roupão de Adonis Creed (Michael B. Jordan) no córner (Foto: Barry Wetcher / Metro Goldwyn Mayer Pictures / Warner Bros. Pictures © 2018 Metro-Goldwyn-Mayer Pictures Inc. and Warner Bros. Entertainment Inc.)

É incrível a capacidade da franquia Rocky usar a luta como pano de fundo e catalizador emocional dos dramas cotidianos, e a franquia Creed prova que é competente para seguir no mesmo rumo. Dessa vez, temos um filme sobre propósito de vida e paternidade, dentre outros temas tratados marginalmente. A pergunta “por que você está fazendo isso?” é um guia para entendermos as motivações de Adonis Creed, Viktor Drago, Ivan Drago e até mesmo do autor do questionamento Rocky Balboa, que se sente extremamente incomodado com a ausência de um propósito de vida. Até mesmo quando se depara com uma lâmpada queimada, afinal, se a função de uma lâmpada é iluminar mas ela está queimada, qual seria a sua verdadeira função na vida?

Creed possui um conflito profundo, no que se refere ao propósito de vida que vinha sendo abordado desde o primeiro filme, e na continuação é explorado como um dos temas principais. O assunto é exposto de forma nítida para o público quando vemos Adonis vivendo a vida que sempre quis como um boxeador famoso e mesmo assim se sentindo incompleto. O conflito é explorado como rima narrativa através das histórias de Bianca (Tessa Thompson), que sonha em ter uma carreira de sucesso na música mas esbarra em um problema de audição grave, e Ivan Drago, que quer o filho recupere o prestigio que o pai perdeu, enquanto Viktor não sabe claramente se é isso que ele quer para sua vida.

Rocky Balboa (Silvester Stallone), Adonis Creed (Michael B. Jordan) e Bianca (Tessa Thompson) (Foto: Barry Wetcher / Metro Goldwyn Mayer Pictures / Warner Bros. Pictures © 2018 Metro-Goldwyn-Mayer Pictures Inc. and Warner Bros. Entertainment Inc.)

Rocky Balboa (Sylvester Stallone), Adonis Creed (Michael B. Jordan) e Bianca (Tessa Thompson) (Foto: Creed/Divulgação)

A paternidade é a outra temática do filme e é tratada em diversos ângulos, abordando a relação entre Rocky e Adonis, Adonis e sua pequena filha, Drago e Viktor, Viktor e Ludmilla, Adonis e Apollo e Rocky e Robert. O último deles é bastante interessante, já que Balboa já havia solucionado todos os seus conflitos nos últimos filmes, restando agora o seu relacionamento com o filho, que se arrasta desde Rocky V e, aparentemente, é o maior desafio dentro todos que o “Garanhão Italiano” já enfrentou. Outro ponto forte é a relação de paternidade entre Ivan e Viktor, abordando temas complexos como aceitação paterna, expectativas e frustrações, além da influência que Apollo (Carl Weathers), que mesmo morto, possui sobre Adonis, que manifesta diversas semelhanças com o pai que vão desde os trejeitos até as entradas grandiosas nos ringues. Por fim, a relação de paternidade entre Rocky e Creed que aproxima pessoas, ao mesmo tempo tão diferentes e tão parecidas de forma tocante.

Tecnicamente, o filme é muito bom, com uma direção que, ao mesmo tempo seguindo o padrão anterior, também coloca as características do novo diretor, com câmeras mais abertas, fotografia mais clara e uma montagem diferente no terceiro ato. As atuações são um ponto forte, com Stallone emprestando mais uma vez seu corpo para que Rocky o assuma, Tessa Thompson à vontade no papel e Jordan que consegue ir aos extremos, seja atuando ou por seu ótimo preparo físico. O roteiro é bem escrito e o desenvolvimento dos personagens é interessante, se destacando a trajetória de Viktor Drago que após ter seu drama exposto, afasta o estereótipo de vilão tão usado por Ivan em Rocky IV e se torna um personagem carismático. Há inclusive abertura dramática para se aprofundar mais no personagem, se for do interesse da franquia. A trilha sonora é um show à parte, misturando as músicas das franquias e escolhendo bem os momentos de catarse. Além disso, a mixagem e edição de som foram um trabalho muito bem feito, captando e destacando os sons dos treinamentos, lutas e trilha no momento certo.

Para não falar que só falei das flores, o filme não alcançou o nível do primeiro. Após 7 filmes e com uma história que está no imaginário dos fãs a mais de 40 anos, era de se esperar que o filme fosse previsível e apostasse nos elementos que já deram certo e trazem a nostalgia do público. Contudo, o filme, ainda assim, é excelente e segue em alto nível.

Ivan Drago (Dolph Ludgren) e Viktor Drago (Florian Munteanu) (Foto: Barry Wetcher / Metro Goldwyn Mayer Pictures / Warner Bros. Pictures © 2018 Metro-Goldwyn-Mayer Pictures Inc. and Warner Bros. Entertainment Inc.)

Ivan Drago (Dolph Ludgren) e Viktor Drago (Florian Munteanu) (Foto: Barry Wetcher / Metro Goldwyn Mayer Pictures / Warner Bros. Pictures © 2018 Metro-Goldwyn-Mayer Pictures Inc. and Warner Bros. Entertainment Inc.)

Conclusão e Nota

Creed, como franquia, assim com Adonis, mistura bem o seu estilo com o de Rocky, e o segundo filme estabelece a independência de ambos embora não tenha nenhuma vergonha de mostrar e até louvar as suas raízes. Adonis aprende o estilo de Balboa e em qual situação deve usar o seu estilo ou o de seu mestre. Da mesma forma, a franquia traçou um caminho que se vinculava a franquia Rocky, mas que agora quer seguir a sua própria jornada. A pergunta tão repetida no filme “por que nós lutamos?” é respondida tanto pelos personagens quanto pela franquia, e o fruto dessa simbiose merece e muito o seu ingresso.

Nota do filme: Faixa Preta. Embora seja recém graduado, demostra potencial para ser memorável.