Ciência da Luta: Os riscos e efeitos dos estrangulamentos no MMA

Apagar num mata-leão ou guilhotina é de boa ou perigoso? Para dirimir uma das dúvidas mais comuns dos fãs de MMA, a coluna Ciência da Luta volta com casos reais e a opinião de um especialista.

A coluna Ciência da Luta não tem uma periodicidade definida. Porém, às vezes alguns fatos atuais puxam ganchos para resgatarmos um dos textos. Muita gente viu (e se chocou) um vídeo no Facebook mostrando uma guilhtoina que passou do ponto. Alguns disseram que não dá nada, outros falaram que o lutador poderia ter sofrido algum problema mais grave. Com este gancho, resgatamos o artigo sobre os estrangulamentos no MMA, abrindo espaço para uma posterior discussão do que houve no caso citado.

Dentre os vários modos de vencer uma luta no MMA, a finalização (ou submissão) é o preferido de boa parte dos lutadores brasileiros, por causa da origem no jiu-jítsu. Vencer por finalização significa forçar o oponente a desistir do combate por meio de torções ou hiperextensões de articulações, ou através de estrangulamentos.

Submissões fizeram a fama de Royce Gracie, que usou estes recursos para vencer três dos primeiros quatro torneios da história do UFC. Mesmo lutando contra oponentes em media 20 quilos mais pesados, Gracie mostrou que a técnica supera a força quando bem executada. Royce detém até hoje o recorde de vitórias por finalização no UFC (10), seguido de perto por Demian Maia, Nate Diaz e Charles do Bronx (9).

Nota: oficialmente Royce tem 11 vitórias por submissão no UFC. Porém, uma delas, contra Patrick Smith, foi obtida via socos.

À vista de uma pessoa pouco acostumada com o jiu-jítsu ou com o MMA, uma finalização pode assustar, principalmente os estrangulamentos. Não é raro um lutador “apagar” (sofrer um episódio de rápido desfalecimento) depois de ser estrangulado por um adversário em um combate.

Em dezembro de 2011, Lyoto Machida foi vítima de um golpe assim. Disputando o cinturão dos meios-pesados no UFC 140, o baiano radicado no Pará desabou, completamente apagado, após ser estrangulado por uma guilhotina em pé aplicada pelo então campeão Jon Jones. A imagem de Machida caindo com o rosto no chão, os olhos virados, parecendo um saco de batatas sendo largado, assustou até quem já acompanhava o MMA há mais tempo. Confira a finalização no vídeo abaixo:

Na verdade, apesar da cena forte, não há motivo para preocupação. Em alguns segundos, o lutador volta à consciência – e o melhor, por um mecanismo de defesa do organismo, sem lembrar o que aconteceu.

O MMA Brasil conversou com o faixa-preta terceiro dan de jiu-jítsu e lutador profissional de MMA Marcos Escobar. O carioca, que também é formado em Educação Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, explicou como funciona o mecanismo do desmaio nos estrangulamentos.

Marcos Escobar:

“O mata-leão e a guilhotina são técnicas de constrição, que podem funcionar de duas maneiras. Na primeira, a pressão exercida pelo braço ao redor do pescoço bloqueia a passagem de ar aos pulmões (devido à compressão da traqueia) ou a passagem de sangue/oxigenação ao cérebro (devido à constrição da artéria carótida).

O segundo caso é onde encontramos normalmente a ocorrência do atleta que sofre o ‘apagão’ (desmaio). Isso se deve justamente pela insuficiência do fluxo sanguíneo e, consequentemente, de oxigênio ao cérebro, fazendo com que o mesmo “desligue” todas as funções do organismo”.

Por este motivo, quando uma pessoa sofre um desmaio, ela cai e fica em posição horizontal, com cabeça e pés no mesmo nível, fazendo com que o fluxo sanguíneo ao cérebro fique mais fácil por causa da minimização de atuação da força da gravidade. “Assim, pode-se dizer também que o fenômeno do ‘apagão’ é uma forma de defesa do organismo para reestabelecer o fluxo de oxigênio ao cérebro”, completou Escobar.

Apesar de aterrorizar as pessoas que não praticam ou não acompanham de perto as artes marciais, os estrangulamentos nos esportes de luta não causam maiores prejuízos aos atletas – salvo, claro, nos casos em que há predisposição de problemas respiratórios ou cardíacos.

Marcos Escobar:

“Vale lembrar que um golpe como um estrangulamento só traria danos severos a uma pessoa caso fosse aplicado de forma longa e ininterrupta, o que não acontece nos esportes de combate com regras, como é o caso do MMA, por exemplo. Além disso, atletas são pessoas altamente treinadas e experientes, a ponto de serem capazes de perceber um desmaio iminente e interromper o golpe, mesmo na ausência do sinal de desistência (os famosos “três tapinhas”) do oponente”.

No entanto, a segurança dos atletas em esportes de combate não depende apenas das ações preventivas deles próprios. Em todas as lutas, árbitros centrais capacitados e bem treinados, na maioria dos casos também graduados em lutas, devem ficar atentos a todo e qualquer movimento durante o combate. Caso uma situação de desmaio seja iminente ou acabe ocorrendo, prontamente o árbitro deve interromper a luta para preservar a integridade do atleta que foi vítima do golpe.

Aqui entra uma atualização, que foi o motivo que resultou na recuperação deste artigo, que foi escrito inicialmente no meio de 2012. Árbitros capacitados e bem treinados infelizmente não fazem parte do pacote de vários eventos nos circuitos regionais espalhados pelo mundo. Aqui no Brasil, até mesmo nas maiores organizações há incidência de árbitros cometendo erros grotescos e deixando a saúde dos atletas em risco. Há cerca de um mês e meio eu publiquei uma matéria desancando as atitudes de um árbitro no Aspera FC, que clama pelo posto de maior organização do país. No último fim de semana, viralizou um vídeo em que um lutador parece convulsionar dentro de uma guilhotina. O árbitro central, que parecia ter saído de um churrasco, nada fez para minimizar o sofrimento do atleta. Deixamos então este episódio do Ciência da Luta como ponte para a matéria que publicaremos ainda nesta semana sobre o ocorrido em Capanema, nordeste do Pará.

Por fim, pelos motivos elencados neste artigo, não há porque temer os estrangulamentos no MMA – desde, é claro, que o árbitro em questão tenha o mínimo de preparo. “Podemos dizer que, com a evolução das regras do MMA, o mata-leão e a guilhotina, apesar da grande eficiência na definição de uma luta, são técnicas que não trazem danos severos ao atleta, ainda que este sofra um ‘desmaio’ ao receber o golpe”, finalizou Escobar.

Este artigo foi inicialmente publicado por mim no site Discovery Esportes, um projeto que infelizmente foi encerrado pela Discovery Channel Brasil. Foram publicados mais de 50 textos entre 2012 e 2013 e vários deles serão reproduzidos aqui no MMA Brasil sob a coluna Ciência da Luta.

  • Caio Andrade

    Excelente texto, como sempre, Alexandre!! Muitas pessoas que não têm contato mais próximo com o Jiu-Jitsu constantemente questionam a respeito dos efeitos nocivos do “apagar”.

    • Apagar rapidinho é tranquilão. Quem nunca? Foda é segurar por muito tempo. Aí pode dar merda de proporções irreversíveis.

  • Malk Suruhito

    Excelente matéria (juro que quando li no twitter a chamada, sabia que foi o lance do Aspera que inspirou a matéria)
    Uma duívida que sempre tive e a matéria se faz propícia a perguntar:
    A exemplo da chave de joelho reta (famosa pelo Toquinho) que é proibida em muitas competições de glapping e BJJ, existe algum estrangulamento que é considerado também proibido (por conta do alto risco de lesão ao adversário)?

    • Mas não foi o lance do Aspera, foi o do Pará.

      Sobre sua pergunta, acho que não. Só algumas torções são vetadas. Estrangulamentos eu não lembro de ter visto.

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Muito bacana e esclarecedor o texto, tem essas entrevista do combate que esclarece, o árbitro foi pego na PLATÉIA, isso mesmo PLATÉIA.
    https://sportv.globo.com/site/combate/noticia/lutador-que-foi-salvo-por-invasao-de-ringue-detona-arbitro-convulsionei-duas-vezes.ghtml
    https://sportv.globo.com/site/combate/noticia/arbitro-nega-erro-em-luta-no-para-e-desafia-lutadores-vou-dar-uma-pisa-em-cada.ghtml

    Eu acho que foi a coisa mais amadora que já vi nos esportes, o “juizão” tava vendo a luta como civil, e por ele ser lutador de mma e amigo do dono do evento colocaram ele lá pra arbitrar, e ainda usa isso pra se promover e cavar luta com os caras, dá repúdio um negócio desses.

    • Rafael Oreiro

      Tem coisa ainda pior nessa história, Alexandre tá preparando uma matéria sobre isso.

      • William Oliveira

        Porra, dá pra ficar pior?!

    • Malk Suruhito

      Literalmente, saído do churrasco…

  • Bruno Coelho

    O cara estava “arbitrando” DESCALÇO, repito, DESCALÇO! Só esse detalhezinho já dá indícios do amadorismo da situação… Tá que o pariu! Lutadores até podem ser amadores, mas a equipe de apoio (médicos, cutmans, juízes, entre outros) deve ser profissional sempre. Imagina a merda que poderia dar essa história aí!

    • Vinicius Maia

      Muito bizarro né. E o pior de tudo, arbitrando um esporte aonde o objetivo é subjugar seu adversário, seja a base de socos ou submissões. Ainda fico me perguntando como não teve várias tragédias pelo mundo em eventos amadores de MMA.

      • Pois é, cara. Tem alguma entidade protegendo o MMA nacional de dar merda.

    • Sobre arbitrar descalço, eu já vi caso de ter sido necessário. Um evento tinha a lona tão escorregadia (o que é comum no MMA nacional) que o árbitro Roberto Thomaz estava escorregando com sapatilhas de wrestling. Ele achou melhor ficar descalço.

      De resto, é isso aí mesmo que você falou.

  • Bruno Fares

    baita texto.

  • Vinicius Maia

    Excelente texto. Ainda mais para um leigo na luta agarrada como eu. Sempre achei que apagar diversas vezes não seria saudável para o lutador.
    Nós reclamamos dos árbitros centrais de eventos como UFC, Bellator e companhia mas esquecemos como o texto bem disse que em eventos locais – Rússia, Brasil, Europa e etc o panorama de arbitragem deve ser bem pior.
    Fico imaginando a quantidade de cagadas não deve existir em eventos amadores da Rússia que sequer vem a tona na mídia.
    Ciência da luta é uma das minhas colunas favoritas do MMABrasil e como sempre o padrão de qualidade se manteve alto.

    • Duvido muito que exista algo no cenário russo que não aconteça aqui.

  • William Oliveira

    Baita texto, o problema das finalizações são os juízes incompetentes e atletas como o Toquinho que as seguram propositalmente, temos sempre que apontarmos os verdadeiros culpados, afim de não chegarmos em conclusões estupidas.

    • E a gente ainda tem que fazer uma distinção: quando um Toquinho da vida segura demais uma chave de joelho, pode estourar ligamento, pode dar um problema forte, mas vai ser de ordem ortopédica. Dificilmente será um atentado contra a vida de alguém.

      No entanto, quando a gente fala de um estrangulamento mantido por tempo demais, a merda pode ser colossal, pode até levar a óbito.

      Por isso que a ressalva é fundamental: as finalizações num esporte controlado como o MMA e o jiu-jítsu são bastante tranquilas. A gente apaga e volta sem nenhum problema ou consequência. O problema é quando a arbitragem é irresponsável.

  • Hyury De Carvalho Rabêlo

    Eu vivia apagando quando entrei no jiu jitsu, parece que do nada você é transportado para outra realidade , e quando volta, sem lembrar nada, sente um leve entorpecimento do corpo, como se vc tivesse dormido muito. Sempre queria voltar mas o mestre não deixava kkkkkkkk. Eh bem mais tranquilo que um ko. Não da dor de cabeça.

    • KOs em sequência geram problema grave como demência pugilística (ETC). Se você apagar uma vez por semana numa finalização (desde que não tenha sido nada por muito tempo), não vai te acontecer nada. Mas experimenta ser nocauteado toda semana.

      • Hyury De Carvalho Rabêlo

        Acabei de tirar uns minutinhos do trampo e corri com o boleto para concretizar meu apoio ao site. Continuem assim!

        • Bruno Fares

          Grande Hyury, obrigado pelo apoio.

        • Que homem!

  • James sousa

    A coluna a cada aparição me faz aprender mais, essa e uma coluna que todo amante e praticante de arte marcial deveria ler, realmente a imagem do Lyoto me assustou a do Aspera então foi aterrorizante

  • Gabriel Fareli

    Que textão da porra !!!
    Bastante esclarecedor tanto pra leigos, quanto pra quem já pratica alguma arte.

  • Cássio Rafael Guimarães Nascim

    Excelente artigo. Excelente!

  • Carlos André

    Parabéns pelo texto e já no aguardo da republicação dos demais.

    • Rafael Oreiro

      Valeu Carlos! Se você clicar na tag “Ciência da Luta”, já pode conferir outros textos da série que já foram publicados no site!