Por Alexandre Matos | 28/09/2017 17:53

A coluna Ciência da Luta não tem uma periodicidade definida. Porém, às vezes alguns fatos atuais puxam ganchos para resgatarmos um dos textos. Muita gente viu (e se chocou) um vídeo no Facebook mostrando uma guilhtoina que passou do ponto. Alguns disseram que não dá nada, outros falaram que o lutador poderia ter sofrido algum problema mais grave. Com este gancho, resgatamos o artigo sobre os estrangulamentos no MMA, abrindo espaço para uma posterior discussão do que houve no caso citado.

Dentre os vários modos de vencer uma luta no MMA, a finalização (ou submissão) é o preferido de boa parte dos lutadores brasileiros, por causa da origem no jiu-jítsu. Vencer por finalização significa forçar o oponente a desistir do combate por meio de torções ou hiperextensões de articulações, ou através de estrangulamentos.

Submissões fizeram a fama de Royce Gracie, que usou estes recursos para vencer três dos primeiros quatro torneios da história do UFC. Mesmo lutando contra oponentes em media 20 quilos mais pesados, Gracie mostrou que a técnica supera a força quando bem executada. Royce detém até hoje o recorde de vitórias por finalização no UFC (10), seguido de perto por Demian Maia, Nate Diaz e Charles do Bronx (9).

Nota: oficialmente Royce tem 11 vitórias por submissão no UFC. Porém, uma delas, contra Patrick Smith, foi obtida via socos.

À vista de uma pessoa pouco acostumada com o jiu-jítsu ou com o MMA, uma finalização pode assustar, principalmente os estrangulamentos. Não é raro um lutador “apagar” (sofrer um episódio de rápido desfalecimento) depois de ser estrangulado por um adversário em um combate.

Em dezembro de 2011, Lyoto Machida foi vítima de um golpe assim. Disputando o cinturão dos meios-pesados no UFC 140, o baiano radicado no Pará desabou, completamente apagado, após ser estrangulado por uma guilhotina em pé aplicada pelo então campeão Jon Jones. A imagem de Machida caindo com o rosto no chão, os olhos virados, parecendo um saco de batatas sendo largado, assustou até quem já acompanhava o MMA há mais tempo. Confira a finalização no vídeo abaixo:

Na verdade, apesar da cena forte, não há motivo para preocupação. Em alguns segundos, o lutador volta à consciência – e o melhor, por um mecanismo de defesa do organismo, sem lembrar o que aconteceu.

O MMA Brasil conversou com o faixa-preta terceiro dan de jiu-jítsu e lutador profissional de MMA Marcos Escobar. O carioca, que também é formado em Educação Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, explicou como funciona o mecanismo do desmaio nos estrangulamentos.

Marcos Escobar:

“O mata-leão e a guilhotina são técnicas de constrição, que podem funcionar de duas maneiras. Na primeira, a pressão exercida pelo braço ao redor do pescoço bloqueia a passagem de ar aos pulmões (devido à compressão da traqueia) ou a passagem de sangue/oxigenação ao cérebro (devido à constrição da artéria carótida).

O segundo caso é onde encontramos normalmente a ocorrência do atleta que sofre o ‘apagão’ (desmaio). Isso se deve justamente pela insuficiência do fluxo sanguíneo e, consequentemente, de oxigênio ao cérebro, fazendo com que o mesmo “desligue” todas as funções do organismo”.

Por este motivo, quando uma pessoa sofre um desmaio, ela cai e fica em posição horizontal, com cabeça e pés no mesmo nível, fazendo com que o fluxo sanguíneo ao cérebro fique mais fácil por causa da minimização de atuação da força da gravidade. “Assim, pode-se dizer também que o fenômeno do ‘apagão’ é uma forma de defesa do organismo para reestabelecer o fluxo de oxigênio ao cérebro”, completou Escobar.

Apesar de aterrorizar as pessoas que não praticam ou não acompanham de perto as artes marciais, os estrangulamentos nos esportes de luta não causam maiores prejuízos aos atletas – salvo, claro, nos casos em que há predisposição de problemas respiratórios ou cardíacos.

Marcos Escobar:

“Vale lembrar que um golpe como um estrangulamento só traria danos severos a uma pessoa caso fosse aplicado de forma longa e ininterrupta, o que não acontece nos esportes de combate com regras, como é o caso do MMA, por exemplo. Além disso, atletas são pessoas altamente treinadas e experientes, a ponto de serem capazes de perceber um desmaio iminente e interromper o golpe, mesmo na ausência do sinal de desistência (os famosos “três tapinhas”) do oponente”.

No entanto, a segurança dos atletas em esportes de combate não depende apenas das ações preventivas deles próprios. Em todas as lutas, árbitros centrais capacitados e bem treinados, na maioria dos casos também graduados em lutas, devem ficar atentos a todo e qualquer movimento durante o combate. Caso uma situação de desmaio seja iminente ou acabe ocorrendo, prontamente o árbitro deve interromper a luta para preservar a integridade do atleta que foi vítima do golpe.

Aqui entra uma atualização, que foi o motivo que resultou na recuperação deste artigo, que foi escrito inicialmente no meio de 2012. Árbitros capacitados e bem treinados infelizmente não fazem parte do pacote de vários eventos nos circuitos regionais espalhados pelo mundo. Aqui no Brasil, até mesmo nas maiores organizações há incidência de árbitros cometendo erros grotescos e deixando a saúde dos atletas em risco. Há cerca de um mês e meio eu publiquei uma matéria desancando as atitudes de um árbitro no Aspera FC, que clama pelo posto de maior organização do país. No último fim de semana, viralizou um vídeo em que um lutador parece convulsionar dentro de uma guilhotina. O árbitro central, que parecia ter saído de um churrasco, nada fez para minimizar o sofrimento do atleta. Deixamos então este episódio do Ciência da Luta como ponte para a matéria que publicaremos ainda nesta semana sobre o ocorrido em Capanema, nordeste do Pará.

Por fim, pelos motivos elencados neste artigo, não há porque temer os estrangulamentos no MMA – desde, é claro, que o árbitro em questão tenha o mínimo de preparo. “Podemos dizer que, com a evolução das regras do MMA, o mata-leão e a guilhotina, apesar da grande eficiência na definição de uma luta, são técnicas que não trazem danos severos ao atleta, ainda que este sofra um ‘desmaio’ ao receber o golpe”, finalizou Escobar.

Este artigo foi inicialmente publicado por mim no site Discovery Esportes, um projeto que infelizmente foi encerrado pela Discovery Channel Brasil. Foram publicados mais de 50 textos entre 2012 e 2013 e vários deles serão reproduzidos aqui no MMA Brasil sob a coluna Ciência da Luta.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.