Ciência da Luta: Como a altitude afeta os lutadores, especialmente os mais pesados

"Cain Velasquez ao nível do mar" virou mais uma das entidades do MMA por conta da derrota para Fabricio Werdum, no UFC 188. Será que foi apenas folclore, ou uma desculpa de perdedor, o que aconteceu no México?

Desde o UFC 188, disputado nos 2.250 metros de altitude da Cidade do México, foi criada uma nova entidade do MMA: o “Cain Velasquez no nível do mar”. Afinal, a queda de rendimento apresentada contra Fabricio Werdum foi tão brusca que só uma piada justificaria. Mas será mesmo que aquilo foi uma piada?

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Para ajudar a entender este fenômeno, a coluna Ciência da Luta traz uma pesquisa feita por mim para o extinto site do projeto Discovery Esportes, do grupo Discovery Channel. Para efeito de medição, o UFC 188 foi disputado no dia 13 de junho de 2015 e o texto original foi escrito em 19 de fevereiro de 2013, mais de dois anos antes do encontro de Velasquez com as montanhas mexicanas. Para este artigo, o texto original foi completado com os fatos ocorridos dois anos depois, na capital mexicana.

Todo brasileiro fã de futebol já ouviu falar um dia dos efeitos nocivos de uma partida disputada em altitude elevada. A Bolívia é a grande vilã, com estádios localizados entre 3.500 e 4.050 metros acima do nível do mar, mas nem é preciso subir tão alto nos morros para sentir os desagradáveis sintomas. Cidades como Quito, no Equador (2.800 metros acima do nível do mar) e Denver, nos Estados Unidos (1.600 metros acima) já são motivos para preocupação das comissões técnicas e médicas – o estádio do Denver Broncos inclusive se chama Sports Authority Field at Mile High (algo como Campo Sports Authority a uma milha de altitude).

Como a quantidade de oxigênio diminui quanto mais alta for a cidade, o indivíduo tende a apresentar dificuldade de oxigenar os glóbulos vermelhos no sangue, que transportam o gás vital pelo nosso organismo. Quanto menos oxigênio no sangue, menos eficiente é a queima de combustível pelo corpo. Este quadro gera, como forma de compensação, aumento da frequência de batimentos cardíacos, aumento do ritmo respiratório e do volume de sangue bombeado por minuto, fazendo com que a pessoa acabe cansando mais rapidamente. Até tarefas simples como subir escadas, carregar uma mala ou caminhar uma distância considerável é bem mais complexa em grandes altitudes.

A altitude afeta jogadores de futebol, que costumam correr de quatro a oito quilômetros em uma partida, num campo de mais de 7.000m² de área, mas também atrapalha muito lutadores que atuam num octógono de cerca de 70m², especialmente pelo fato de o MMA ser um esporte que mescla como poucos os momentos de explosão com a necessidade de suportar o ritmo por 25 minutos, como se fosse uma mistura de uma prova de 100 metros rasos com uma de fundo, tipo 10.000 metros.

O problema de lutar na altitude atinge mais os lutadores das categorias mais pesadas do que os mais leves. Como o corpo humano é uma máquina que precisa de oxigênio, água e alimento para funcionar, quanto maior a máquina (a estrutura física), maior o consumo. Um lutador como o peso pesado Cain Velasquez, de 1,86m de altura e 108 quilos, precisa de muito mais oxigênio do que a atleta do peso palha Jéssica Andrade, que mede 1,58m e bate 52 quilos na véspera da luta, provavelmente sem chegar a 60 no momento do combate.

Em condições normais, lutadores da categoria pesado já são menos dotados de gás, ou seja, já costumam cansar mais rapidamente que seus pares mais leves por terem que alimentar de oxigênio e nutrientes uma estrutura corporal bem maior. Lutando em grandes altitudes, este quadro piora. Sintomas como náusea, dor de cabeça, mal estar e fadiga muscular são recorrentes. Não foi à toa que registraram pelo menos sete lutadores vomitando nos bastidores após saírem do octógono, no UFC 188.

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Velasquez sempre foi conhecido por ser uma máquina física, um sujeito com mobilidade e condicionamento de peso meio-médio, mas estrutura, força e potência de um pesado. Ou seja, um verdadeiro pesadelo para todos que dividiram o octógono com ele. Isso explica porque Cain simplesmente não sabe vencer uma luta que não seja por espancamento completo. A exceção deste cenário foi Fabricio Werdum, no mesmo UFC 188. Desde então, a pergunta que ficou é: por que o “Vai Cavalo”, que é ainda maior e mais pesado que Velasquez, não teve o mesmo prejuízo do adversário?

Para competir em altitudes elevadas, é necessário preparação adequada. O princípio do método é o aumento do número de glóbulos vermelhos, que ocorre em função do organismo ser exposto a uma atmosfera com redução do teor de oxigênio no ar inspirado, de acordo com Turíbio Leite de Barros, doutor em fisiologia do exercício e fisiologista do São Paulo por mais de 25 anos. Em termos fisiológicos, em altitudes a partir de 2.000 metros, o processo de aclimatação só estabiliza ao fim de pelo menos duas a três semanas. E aqui reside o principal ponto que diferenciou Velasquez de Werdum no UFC 188.

O brasileiro juntou sua equipe e se mandou para a altitude com cerca de 30 dias antes do combate. Em parte desse tempo, “Vai Cavalo” ficou hospedado em altitude até maior que a da Cidade do México, quando ele foi treinar em Toluca, a 2.680 metros acima do nível do mar. Enquanto isso, Velasquez ignorou o pedido do técnico Javier Mendez e só saiu de San Jose, ao sul da Baía de San Francisco, 14 dias antes do combate. Isso significa que a aclimatação de Velasquez foi insuficiente, explicando a brusca queda de rendimento apresentada a partir do final do primeiro assalto, algo impensável para alguém como ele.

É possível inclusive dizer que mesmo a preparação de Werdum não foi a ideal. Há uma corrente, iniciada por especialistas russos, que defende que a aclimatação deve ser feita em um local que permita um rápido deslocamento para altitude mais baixa. Deste modo, é possível treinar mais perto do nível do mar e passar o resto do dia na altitude, para que o rendimento nos treinamentos não seja prejudicado, baseado nas condições da hipóxia hipobárica intermitente. Como Werdum treinou e viveu na altitude por 30 dias, acabou tendo dificuldades em parte do camp. Porém, perto do que Velasquez fez, a estratégia do gaúcho foi melhor e acabou desempenhando papel fundamental no andamento e resultado do combate.

O preparador físico e fisiologista Jairo Corsino, do Sampaio Correia e com experiência atuando no MMA com lutadores do UFC, reforçou que a estratégia de Velasquez foi imprudente, ao contrário do planejamento de Werdum.

Jairo Corsino:

“O fato de o Cain [Velasquez] ter ido [para a Cidade do México] somente com 14 dias de antecedência com certeza pode ter diferenciado. No futebol, alguns clubes preferem chegar no local em cima da hora do jogo, porque alguns estudos dizem que não há tanta diferença assim. Os efeitos agudos da altitude começam a aparecer a partir da quarta hora. Teve um jogo do Flamengo, em Potosí, na Bolívia, que eles chegaram no local da partida uma hora antes do jogo. E o Flamengo sentiu pouco. Então, na estratégia do Velasquez, teria sido melhor ele chegar uma hora antes da luta do que ir com 14 dias de antecedência. Porém, isso prejudicaria a pesagem, então ele teria que ir pesar, voltar e só depois seguir para a luta. A preparação do ‘Vai Cavalo’ foi mais prudente.”

Este artigo foi inicialmente publicado por mim no site Discovery Esportes, um projeto que infelizmente foi encerrado pela Discovery Channel Brasil. Foram publicados mais de 50 textos entre 2012 e 2013 e vários deles serão reproduzidos aqui no MMA Brasil sob a coluna Ciência da Luta.