Ciência da Luta: A introdução das luvas no boxe

As luvas de boxe foram criadas para proteger o rosto, certo? Errado. Numa época em que lutas acabavam por fraturas nas mãos, algo precisava ser feito para alimentar a sanha de sangue dos espectadores.

Em outro artigo da coluna Ciência da Luta, mostramos a história e a importância dos protetores bucais para os lutadores. Além da clássica função de proteger a boca e os dentes, o dispositivo ainda pode proteger, de acordo com algumas evidências, o cérebro, a coluna vertebral e o queixo do atleta. Polêmicas à parte, há um artifício no mundo dos esportes de combate cuja função principal é facilmente confundida até por fãs mais atentos. São as luvas.

As Regras de Queensberry, escritas por John Graham Chambers e publicadas em 1867 por John Sholto Douglas, o 8º Marquês de Queensberry, introduziram o uso das luvas no boxe, dentre outras mudanças. Antes disso, os boxeadores profissionais lutavam com as mãos nuas, na época do chamado London Prize Ring Rules, um pacote de regras promulgado em 1838, com base no trabalho feito por Jack Broughton, em 1743 – Broughton, no entanto, já previa o uso de luvas nos treinos. A princípio, as novas regras definiam limites para a prática do boxe amador, mas, com o tempo, os profissionais na Grã Bretanha e Estados Unidos passaram também a adotá-las. Foram as Regras de Queensberry que tornaram as luvas obrigatórias (um dia falaremos da evolução das regras do boxe até chegar em Queensberry).

Curiosidade: a primeira menção ao uso de proteção nas mãos em lutas vem de cerca de 1.500 a.C., na Civilização Minoica, que surgiu durante a Idade do Bronze Grega, em Creta. A origem do boxe na Grécia Antiga é repleta de lendas. Uma delas diz que o esporte foi inventado pelo herói Teseu colocando um lutador sentado de frente para o outro. Eles se socavam até a morte. Mais adiante, o boxe passou a ser disputado em pé, com os lutadores usando uma espécie de luva que tinha pedaços de metal na ponta. Pura finesse.

No começo da implantação das Regras de Queensberry, o advento das luvas não foi bem aceito entre os fãs de boxe. Eles pagavam ingressos para ver demonstrações de coragem e determinação, o que era subentendido como a capacidade de aguentar pancadas por dezenas de rounds de três minutos por um de descanso consecutivamente. Para se ter uma ideia, as esquivas e outros artifícios defensivos eram vistos como “frescura”. O público queria ver os lutadores subirem nos ringues para se socar por rounds indefinidos até que um caísse nocauteado definitivamente, desistisse ou a polícia interviesse.

Contudo, este espetáculo da selvageria (ou de instinto primitivo puro, como preferirem) tinha um preço alto, impactando diretamente na qualidade do serviço prestado aos pagantes. Por lutar rounds e rounds sem proteção nas mãos, os boxeadores comumente as fraturavam. É uma questão simples: os ossos das mãos são mais frágeis do que os da cabeça. Com a sequência de impactos, era natural aparecerem fraturas múltiplas, às vezes algumas expostas.

Deste modo, era humanamente impossível manter o ritmo de golpes lançados com o passar dos rounds. Com uma – ou ambas – as mãos fraturadas, o(s) lutador(es) acabava(m) diminuindo a quantidade de golpes e o público, sedento por sangue, ficava irritado. Portanto, algo precisava ser feito para preservar as mãos dos lutadores, possibilitando assim que pudessem socar mais por mais tempo. Foi assim que as luvas entraram em ação no boxe profissional – antes disso, lutas com luvas eram consideradas amadoras ou de exibição. Ou, como diziam os aficionados na época, “coisa de frouxo”.

Dois processos criminais fizeram então com que o boxe sem luvas passasse à clandestinidade, com direito a prisão de organizadores e praticantes. A primeira luta valendo título mundial com o uso de luvas aconteceu no dia 29 de agosto de 1885, quando o americano John Lawrence Sullivan, o “Garoto Forte de Boston”, venceu o descendente de irlandeses Dominic McCaffrey. Naquela noite, Sullivan se tornou o primeiro campeão mundial dos pesos pesados na era das luvas. Quatro anos mais tarde, desafiando a clandestinidade, John novamente entrou para a história como o último campeão mundial sob as London Prize Ring Rules, sem luvas. No dia 8 de julho de 1889, ele venceu o também americano John Joseph Killion, mais conhecido como Jake Kilrain, por nocaute no 75º round. Esta luta é considerada o marco definitivo da mudança das regras do boxe para o que conhecemos hoje.

John L. Sullivan vs. Jake Kilrain foi a primeira disputa de título mundial fotografada na história do boxe

John L. Sullivan vs. Jake Kilrain foi a primeira disputa de título mundial fotografada na história do boxe

Portanto, diferentemente do que se imagina, as luvas não foram inseridas no boxe para proteger o rosto dos praticantes, mas sim para impedir ou adiar fraturas nas mãos. Ou seja, elas foram desenvolvidas para proteger quem bate e não quem apanha.

Este artigo foi inicialmente publicado por mim no site Discovery Esportes, um projeto que infelizmente foi encerrado pela Discovery Channel Brasil. Foram publicados mais de 50 textos entre 2012 e 2013 e vários deles serão reproduzidos aqui no MMA Brasil sob a coluna Ciência da Luta.