Ciência da Luta: A história e a importância dos protetores bucais

O boxe provocou o nascimento dos protetores bucais, surgidos para diminuir as lesões na boca e nos dentes dos lutadores. Mas será que este é o único benefício?

Por contar apenas com golpes traumáticos, com mais de 70% destes direcionados à cabeça do oponente, o boxe é um dos esportes de combate que mais pode provocar danos aos praticantes no alto nível de competição.

Quando a prática do boxe se disseminou, em meados do século XIX, as regras (ou a falta delas) eram muito mais cruéis com os atletas. Os lutadores não usavam luvas – trocavam socos com as mãos nuas –, não usavam protetores bucais e, o mais bizarro, lutavam até que alguém fosse nocauteado. O recorde registrado no Guinness Book é de macabros 276 rounds, quando Jack Jones bateu Patsy Tunney em Cheshire, no ano de 1825.

Os tempos mudaram e as regras se atualizaram, preservando um pouco mais a integridade física dos lutadores. Diversos artifícios foram desenvolvidos para dar proteção a pontos vitais do corpo humano. Por exemplo, temos a coquilha, que protege a região genital, e o protetor bucal, que preserva a boca e, dizem alguns, até o cérebro!

Se você estranhou a informação acima, não foi o único. É normal que muitos pensem, até mesmo lutadores, que os protetores bucais sirvam para manter os dentes no lugar. E, sim, se você pensou nisso, está certo. Porém, de acordo com algumas pesquisas científicas, esta não seria a mais nobre das funções da peça que os lutadores obrigatoriamente levam à boca nos combates.

Os protetores bucais eram bem toscos na origem. Sem uma consultoria de profissionais de odontologia, os lutadores começaram usando materiais dos mais diferentes tipos, como algodão, lã, esponja, fita e até mesmo pequenos pedaços de madeira como protetores. No final do século XIX, um médico de Londres chamado Woolf Krause desenvolveu o primeiro protetor baseado em algo parecido com borracha. Ele usou guta-percha, substância extraída do látex do pé de sapoti, a mesma usada na resina do chiclete, para minimizar as lacerações labiais nos lutadores. Filho de Krause, Phillip, que era dentista e boxeador amador, desenvolveu o primeiro protetor reutilizável, que ficou famoso em 1921 na boca do campeão mundial dos meios-médios Ted “Kid” Lewis, amigo de infância de Phillip.

A vitória de Kid Lewis na disputa do cinturão contra Jack Britton suscitou diversas discussões acerca de um benefício ilícito. Isso perdurou até 1927. Na ocasião, o combate entre Jack Sharkey e Mike McTigue teve que ser interrompido quando o segundo sofreu um profundo corte na boca. Nove quilos mais leve, McTigue teria vencido a luta na decisão.

Desde então, os protetores bucais passaram a ser adotados nos combates. Assim como as regras, os protetores foram se aprimorando ao longo dos anos. A primeira grande evolução foi desenvolvida pelo americano Rody Lilyquist, na década de 1940, que usou uma resina transparente de acrílico nos protetores, diminuindo o seu tamanho. Em seguida, os protetores passaram a ser fabricados à base de borracha, menos comuns atualmente, pois machucam a boca e estragam com facilidade; de silicone, muito fáceis de encontrar em lojas de material esportivo; até chegarem aos termoplásticos e ao EVA (ethylene-vinyl acetate, etileno acetato de vinil, ou espuma vinílica acetinada), polímero que melhor se molda à estrutura bucal e dissipa melhor o impacto dos golpes. Estas duas características fazem dos protetores de EVA os mais adequados para prevenção de lesões.

Quando um soco atinge o queixo de um lutador, o osso da mandíbula, que recebe inicialmente o impacto, transfere o choque para a caixa craniana. Este impacto faz com que o cérebro balance e colida com a parede interna do crânio, podendo causar lesões sérias que, se acumuladas, podem ser irreversíveis. Além disso, o choque pode causar até mesmo herniações na coluna vertebral.

Um estudo desenvolvido por Hickey JC, Morris AL, Carlson LD, et al., publicado na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, apontou que o uso de protetor bucal poderia atenuar as forças aplicadas à cabeça como resultado de um golpe no queixo. O estudo, que, cabe dizer, tem alguns pontos considerados falhos pela comunidade científica, observou uma redução de até 50% na amplitude da onda de pressão intracraniana após o impacto.

Ao utilizar o protetor bucal, feito sob medida para sua arcada dentária, o lutador fica mais protegido. Além de absorver parte do impacto, o protetor cria uma folga entre a mandíbula e o resto do crânio, diminuindo ainda mais a intensidade do impacto ao cérebro. Existem diversos estudos estatísticos que mostram uma maior incidência de nocautes em atletas que, por alguma razão, deixaram cair o protetor da boca.

Polêmicas à parte, há um artefato de proteção dos lutadores que realmente possui como principal função algo diferente do que a maioria imagina de primeira – as luvas. Isso será tema para um próximo artigo aqui na coluna Ciência da Luta.

Este artigo foi inicialmente publicado por mim no site Discovery Esportes, um projeto que infelizmente foi encerrado pela Discovery Channel Brasil. Foram publicados mais de 50 textos entre 2012 e 2013 e vários deles serão reproduzidos aqui no MMA Brasil sob a coluna Ciência da Luta.