Por Alexandre Matos | 08/07/2015 20:22

No evento comemorativo dos 20 anos do UFC, Robbie Lawler e Rory MacDonald fizeram um duelo essencial em suas carreiras. Lawler ganhou o impulso que faltava para ser reconhecido como um dos melhores do mundo e, quatro lutas depois, conquistar o cinturão. Já MacDonald teve que mudar o comportamento para enfim se tornar o lutador que muitos esperavam.

No próximos sábado, Lawler e MacDonald voltam a se encontrar em condições diferentes da de novembro de 2013. Robbie é o campeão improvável, que desenhou um dos mais belos contos de recuperação da história do MMA. O desafiante Rory chega com novo apelido (o terceiro de sua carreira) e mais uma vez favorito, embora com menor margem desta vez. A visão do futuro contra a recuperação do passado.

MacDonald quer levar o cinturão de volta para o país que se acostumou a tê-lo e mudar de patamar, passando de eterno prospecto para um dos melhores do mundo peso por peso. Lawler quer seguir o conto de fadas visando um acerto de contas com Johny Hendricks – há quem diga que o ex-campeão venceu os dois duelos entre eles.

Como nas vezes anteriores, dividimos esta avaliação nos âmbitos de arsenal ofensivo, sistema de proteção, estratégia, condicionamento físico, experiência, além do que chamamos de The X-Factor, ou o Fator X, aquela carta na manga que os lutadores poderão lançar na mesa caso o negócio comece a apertar.

Arsenal ofensivo

O aspecto ofensivo de Lawler sempre encheu os olhos, até porque ele sempre teve uma visão de jogo altamente ofensiva, mas hoje está ainda mais otimizado. O sujeito é um dos maiores nocauteadores que o MMA já viu em ação, com um poder anormal em seus punhos. Com a maturidade e experiência, ele adicionou chutes e joelhadas tão perigosos quanto os socos e que funcionam dentro de um esquema de movimentação que faz dele um especialista na arte de controlar as ações. Robbie sabe a hora de ser agressivo, de ser comedido, de manter lutas na longa distância ou no infighting, é um contragolpeador nato e capaz de lançar combinações em alto volume, seja em movimentação ofensiva ou mesmo recuando.

Um lado que ele poderia explorar mais é o wrestling, que é uma de suas bases junto com o caratê. Talvez por não se garantir no jiu-jítsu, Lawler prefere se manter de pé e acaba minimizando o uso do ground and pound, que é aterrorizante – Josh Koscheck, nocauteado com uma bomba quando estava de joelhos contra a grade, sabe bem disso.

Robbie Lawler é um ás do contragolpe e é perigoso mesmo andando para trás

Robbie Lawler é um ás do contragolpe e é perigoso mesmo andando para trás

Se Lawler enche os olhos ofensivamente, o que falar de MacDonald? Sem ter base alguma em modalidades de combate, tendo começado diretamente no MMA, o canadense é a síntese do lutador moderno, sem vícios, capaz de atuar com brilhantismo técnico em qualquer área que a luta transcorra. Ele é genial na questão da manutenção da distância, combina braços (socos e cotoveladas) e pernas (socos e joelhadas) como poucos, derruba a partir de qualquer posição e em qualquer amplitude, tem instinto finalizador no chão e é tão potente quanto o oponente no ground and pound. Embora dificilmente seja visto trocando porrada no pocket, MacDonald é violento no clinch.

Rory tem um aspecto parecido com o de Lawler (capacidade de controlar o ritmo das lutas), mas o faz de modo diferente. Quando dita o ritmo no kickboxing, ele é capaz de alternar não só a velocidade dos golpes lançados, mas também de executar combinações nada ortodoxas, seja mandando jabs fora de sequência (ora jab-direto, ora três jabs-gancho, etc.), ou jogando uma cotovelada quando o oponente espera um jab, ou uppercut quando se espera um gancho. Quando um oponente espera levar um chute na cabeça, tem o abdômen alvejado. Isso quando não mistura isso tudo e acaba numa queda. Deste modo, marcá-lo é tarefa para poucos.

Se Rory MacDonald tomar conta das ações, ele é quase imarcável

Se Rory MacDonald tomar conta das ações, ele é quase imarcável

Além disso, MacDonald tem uma característica pouco comum: ele consegue criar ângulos não só usando o jogo de pernas, mas também postado na base, inclinando o tronco enquanto escapa de um ataque e lança um golpe. Foi num desses momentos que ele acabou com Tarec Saffiedine:

O poder de destruição de Lawler nunca pode ser negado, mas é difícil alguém na categoria superar MacDonald no âmbito ofensivo.

Sistema de proteção

Neste aspecto, as diferenças são muito curiosas.

Lawler só foi nocauteado uma vez na vida por causa de um queixo dos infernos. Sua intensa movimentação de cabeça faz com que muitos golpes retos dos oponentes passem no vazio, assim como a própria capacidade de atacar recuando. A vitória sobre Melvin Manhoef depois de ser espancado por mais de três minutos arrastando uma perna é um dos momentos mais espetaculares do MMA (posicione o vídeo abaixo a partir de 0:35 e divirta-se).

A defesa de quedas de Robbie é um caso à parte. Houve um tempo em que derrubá-lo parecia tarefa para crianças. Hoje, é preciso que o oponente seja mais preciso, mais técnico e insistente, mas ainda assim não é difícil ter Lawler com as costas no chão – nas sete lutas de seu retorno ao UFC, em apenas uma ele não foi derrubado ao menos duas vezes, talvez porque o oponente (Bobby Voelker) fosse de nível muito inferior aos demais que ele encarou. Pelo menos, de um tempo para cá, ele tem melhorado no uso da guarda, o que facilita a tarefa de ficar novamente de pé.

O aspecto defensivo de MacDonald se apresenta de outro modo. A capacidade de atacar de modo não ortodoxo não faz dele apenas difícil de ser marcado, mas também difícil de ser acertado. Como raramente se expõe à pancadaria na curta distância (talvez seu maior problema na troca de golpes), Rory prefere se defender mantendo os oponentes longe. O principal porém dessa estratégia de “a melhor defesa é o ataque” é que MacDonald de vez em quando apresenta lapsos de ação e acaba gerando brechas para ser atingido.

Na questão do wrestling defensivo, MacDonald é gigante. Usando o mesmo espaço das últimas sete lutas, apenas Demian Maia e Jake Ellenberger conseguiram derrubá-lo e somente o brasileiro obteve vantagem da situação, inclusive ganhando o primeiro round. Ainda assim, as estatísticas oficiais mostram que Demian precisou de 22 tentativas para completar duas quedas durante todo o combate.

Outra diferença considerável é na parte da defesa de submissões. Especialmente no começo da carreira, Rory foi atacado, mas sempre mostrou calma e técnica para escapar. Por outro lado, este sempre foi considerado o caminho mais rápido para dar cabo de Lawler. Ambos enfrentaram quatro artistas da submissão (Demian pelo lado de Rory e Jake Shields, Ronaldo Jacaré e Renato Babalu pelo de Lawler). O desafiante venceu seu adversário e o campeão perdeu todas, finalizado por Shields e Jacaré.

Neste âmbito, a vantagem também fica com o desafiante.

Condicionamento físico e ritmo de luta

Esta área mostra um certo equilíbrio entre os lutadores.

Aos 25 anos, Rory está na ponta dos cascos, livre das contusões que diminuíram sua frequência no começo da carreira. Como ainda é novo, consegue cortar peso e lutar fisicamente forte, mas sem perda de rendimento – seus cada vez mais raros lapsos de produção talvez tenham mais a ver com foco do que com rendimento físico em si.

Oito anos mais velho, Robbie está na melhor forma da carreira. A experiência lhe deu não só a capacidade de controlar as ações, mas também a de dosar energia a ponto de atuar com intensidade alta por 25 minutos, mesmo se precisar de força isométrica para manter as lutas em pé – sem contar o fato de Lawler ainda ser capaz de dar um sprint final.

Por ser mais novo e menos desgastado (16 lutas a menos), MacDonald poderia levar vantagem no confronto físico, mas Lawler tem uma carta na manga. Das quatro lutas que disputou no ano passado, três duraram 25 minutos. Por outro lado, Rory só esteve envolvido em uma luta de cinco rounds na vida, o nocaute aplicado em Saffiedine no terceiro assalto. Como Robbie não apresentou sinais de sobrecarga em 2014, é provável que os sete meses que separam o UFC 181 do UFC 189 tenham servido para recarregá-lo, mantendo o ritmo de combate elevado.

Estratégia

Começar no MMA profissional ainda adolescente numa das melhores equipes do mundo, adotado por um dos melhores lutadores de todos os tempos, é um privilégio para poucos. No caso de MacDonald, estar perto do técnico Firas Zahabi e do superastro Georges St. Pierre desde sempre ajudou a criar um lutador de notável senso estratégico.

Zahabi pegou um moleque talentoso, com capacidade de aprender rapidamente, e o transformou num lutador que se reinventa conforme a necessidade. MacDonald sabe não se meter em enrascadas, é capaz de jogar adversários em armadilhas, pode lutar como kickboxer ou nas quedas e ground and pound. Seja lá como o rival se apresente, a impressão é que o canadense sempre tem uma saída para se impor.

Rory MacDonald abusou das quedas contra Nate Diaz

Rory MacDonald abusou das quedas contra Nate Diaz

Embora esteja também numa equipe de ponta, com parceiros de treino de alto nível, Lawler não tem o mesmo amparo tático do desafiante. Até mesmo por não ser tão versátil quando Rory, o campeão não mostra a mesma capacidade de se reinventar dentro de uma luta ou mesmo de apresentar estratégias muito diferentes de um combate para outro.

Experiência

A balança pende fortemente para o lado do americano neste aspecto.

Embora já tenha 20 lutas profissionais, 11 delas pelo UFC, MacDonald não passou por muitas situações que Lawler já viveu. Quando o desafiante estreou no MMA, o campeão já havia sido demitido do UFC depois de ser considerado um prospecto forte o suficiente para um dia conquistar o cinturão (o que só aconteceu quando quase ninguém mais acreditava).

Robbie já foi campeão no EliteXC, foi considerado uma ameaça para Anderson Silva, disputou cinturão no Strikeforce, fez luta do ano, anotou alguns dos nocautes mais espetaculares da história e chegou ao topo da categoria. Por outro lado, já foi dado como acabado mais de uma vez, virou chacota quando perdeu cinco em oito lutas no Strikeforce e não foi levado a sério quando retornou ao UFC por conta da extinção da última organização. Aliás, lutar em organizações que faliram é especialidade do americano, que ainda passou por PRIDE, IFL, além de EliteXC e Strikeforce.

Fator X

Um sujeito versátil, inteligente e bem preparado como MacDonald pode trazer qualquer tipo de surpresa para a mesa neste confronto. Imaginar que MacDonald será o cara a usar um Fator X é o caminho mais fácil.

Vamos então ficar com algo um pouco menos convencional, tipo Lawler encurtar e, ao invés de soltar socos, lembrar que veio do wrestling e surpreender o adversário colocando para baixo e metralhando no ground and pound. Difícil? Sem dúvida. Impossível? É disso que campeões são feitos.

Conclusão

Quer saber como tudo isso que foi exposto nesta análise pode ser usado na luta? Não perca a nossa prévia do UFC 189, que será publicada ainda nesta semana.