Por Pedro Carneiro | 02/11/2017 01:46

O mundo era diferente na última vez em que Georges St. Pierre lutou. Estávamos ainda de luto pela tragédia na boate Kiss, o Papa Bento XVI renunciava o seu pontificado, o Brasil vencia a Copa das Confederações, Chorão e Dominguinhos cantavam nos seus estilos distintos, Nicolás Maduro acabava de assumir a presidência venezuelana, Edward Snowden revelava segredos do mundo ao mundo, Nelson Mandela vivia seu último mês de vida e Chris Weidman acabara de chocar o mundo ao nocautear Anderson Silva.

Muita coisa mudou desde então, inclusive o cinturão dos médios, que saiu das mãos de Weidman, passou para as de Luke Rockhold, que, por sua vez, entregou de bandeja para Michael Bisping. E é aqui que veremos mais uma linha da história do MMA ser escrita. St. Pierre, um dos maiores e melhores lutadores de todos os tempos, resolveu voltar para desafiar o atual campeão dos médios. São tantos detalhes envolvidos que a coluna Choque de Titãs volta para destrinchar a peleja, usando as tradicionais categorias arsenal ofensivo, sistema de proteção, condicionamento físico, estratégia, experiência e o Fator X, aquele artifício usado nos momentos em que o filho chora e a mãe não vê.

Arsenal Ofensivo

Georges St. Pierre é provavelmente o melhor lutador, tecnicamente falando, da história do MMA. Não existe nenhuma pessoa no planeta que seja mais eficiente e que transite melhor em todos os aspectos da luta reunidos. O canadense está entre os recordistas de acerto de golpes, quedas, tentativa de finalizações, defesa de quedas e de golpes. Não é o melhor em nenhuma das áreas, mas é de longe o que faz a melhor mistura delas.

Já Michael Bisping é um lutador subestimado. O inglês é portador de um kickboxing técnico, preciso e com combinações que não faltam nem sobram golpes. O jogo de chão e o wrestling são de bons níveis e sua movimentação é tão grande quando a sua chatice.

Se os dois lutadores fossem do mesmo tamanho e peso, GSP venceria esse quesito de lavada. Porém, não é esse o caso. Georges sabe se movimentar e acertar como poucos, mas a diferença de tamanho afetará seu punch e a facilidade em dominar o espaço onde a luta transcorre. Por outro lado, a potência de Bisping pode ser catalisada pela diferença física entre eles.

É difícil imaginar GSP sendo derrubado com facilidade, assim como a diferença de peso dificultará o canadense de levar a luta para o chão quando bem entender. Ou seja, há um enorme equilíbrio nesse aspecto.

Sistema de proteção

Ninguém se torna recordista de defesa de golpes e de quedas se não possuir um sistema defensivo sólido, movimentação diferenciada, visão de luta absurda e um wrestling de elite. Esses são os átomos, nêutrons e elétrons que compõem o elemento químico GSP.

Já em relação a Bisping, é o famoso caso Lulu Santos: não vou dizer que é ruim, também não é tão bom assim. O sistema defensivo do campeão é composto pelo seu volume de golpes, que evita ações ofensivas dos adversários, uma boa defesa de quedas e um jiu-jítsu defensivo de bom nível. Tudo isso é muito bom, mas é bom lembrar que já o vimos ser desmontado contra atletas piores que o canadense. A vantagem aqui é de Georges St. Pierre.

Condicionamento físico

St. Pierre sempre teve um condicionamento físico exemplar, que o permitiu lutar em alto nível durante cinco rounds diversas vezes. O próprio GSP confidenciou ao MMA Brasil que não voltaria a competir se não estivesse em forma – ele mesmo voltou em uma das suas melhores apresentações contra Carlos Condit, depois de 19 meses parado. Todavia, treino é treino e jogo é jogo. Dessa vez é difícil acreditar que os quatro anos parado não interfiram no desempenho do astro.

Bisping também é um atleta que não demonstra problemas nessa área. Sempre em forma e conseguindo lutar por muito tempo mesmo depois que é duramente atingido, sinal de que o condicionamento físico está ótimo, o inglês fez três lutas de cinco rounds recentemente, com duas delas indo até o final. A vantagem nesse aspecto é de Michael Bisping.

Estratégia

O ex-campeão dos meios-médios é o maior estrategista da história do MMA. O atual campeão dos médios é bom neste aspecto, mas estamos medindo forças desiguais aqui. Sem enrolação, a vantagem é do canadense.

Experiência

Temos aqui um caso curioso. GSP e Bisping são os atletas mais antigos do UFC na atualidade (estrearam em 31/01/2004 e 24/06/2006, respectivamente). Isso significa que os dois já passaram por praticamente tudo que um lutador de MMA pode passar na carreira e ambos passaram pelos testes com louvor. O que pode ser um diferencial aqui é que o canadense não viveu a experiência de lutar no peso médio e terá que lidar com a adaptação de peso, dieta e gerenciamento de fôlego com essa nova carcaça. Leve vantagem para o inglês.

Fator X

Georges St. Pierre é praticamente o Fator X encarnado em uma pessoa. Sua capacidade de transitar por todas as valências do MMA faz do canadense um lutador imprevisível e que pode explorar qualquer dificuldade que o adversário tenha em alguma área. O desconforto do oponente certamente é uma área de conforto para GSP, independentemente de qual seja.

Michael Bisping é um lutador que leva o simples à excelência – esse foi o seu diferencial e empecilho na carreira. Contudo, a vantagem na altura e peso será o seu Fator X, já que ele terá aumentado o seu poder de nocaute e a sua capacidade de encaixar golpes de um adversário menor, além de as suas chances de derrubar e não ser derrubado. Sem contar a confiança, que já vem com um incremento de finalmente ter conseguido o cinturão do UFC.

Conclusão

Quer saber como tudo o que foi exposto nesta análise pode ser usado na luta? Não perca a nossa prévia do card principal do UFC 217, que será publicada ainda nesta semana.

Historiador e fã de lutas, conheceu o MMA através das lutas de Vitor Belfort, no UFC 12. Fanático por cinema, séries, literatura e Sylvester Stallone.