Por Gabriel Carvalho | 03/07/2018 00:39

UFC 226 é um dos cards mais importantes da história recente do UFC. E tamanha importância é digna do retorno do sempre relevante Choque de Titãs do MMA Brasil, que irá dissecar dois talentos do MMA que irão se enfrentar pela coroa máxima do peso pena no UFC.

No combate coprincipal da noite, Max Holloway caminhará pelos corredores da T-Mobile Arena para colocar o cinturão dos penas em jogo contra o invicto e perigoso Brian Ortega, que é um dos desafiantes com a maior credencial dos últimos tempos no UFC, com vitórias sobre os ótimos Frankie Edgar e Cub Swanson.

Como nas outras vezes, dividimos esta avaliação nos âmbitos arsenal ofensivo, sistema de proteção, condicionamento físico, estratégia, experiência e no que chamamos de The X-Factor, ou o Fator X, aquela carta na manga que os lutadores poderão lançar na mesa caso o caldo comece a engrossar.

ARSENAL OFENSIVO

Uma das tarefas mais complicadas no UFC é de emplacar 12 vitórias seguidas, e essa é uma das grandes provas que Max Holloway é um monstro, e isso é muito por conta de sua vasta caixa de ferramentas.

Com 1,80 de altura e 1,75 de envergadura, Holloway é mais largo que boa parte da categoria, e ele soube trabalhar bem sua vantagem física ao lapidar sua principal arma: o jab. Com um controle de distância magistral, Holloway normalmente inicia as lutas em um ritmo reduzido, buscando tomar o controle do octógono e agredindo o adversário com rápidos jabs, alternando entre cabeça e tronco das vítimas.

Depois de marcar o território, Max passa a adicionar os diretos em sequência aos jabs, com sua postura passando a ser mais objetiva. Os socos em linha reta costumam aumentar conforme Max entender que o adversário está encurralado e sem capacidade de resposta. Para não ser muito previsível, Holloway costuma largar um chute de vez em quando.

O campeão também sabe derrubar (como visto contra Anthony Pettis) e sabe trabalhar no clinch (como visto contra Jeremy Stephens), mas são características que Max provavelmente não terá que usar como carta ofensivamente.

Brian Ortega impressiona muita gente com o jiu-jítsu, mas ele também se destaca pela versatilidade. A principal valência do “T-City” em pé é a movimentação. É muito comum ver Brian jogando um golpe reto e andando para a esquerda, evitando que o adversário o encontre. É difícil ver alguma luta em que Ortega seja o lutador que atinge mais golpes, portanto, ele investiu bastante em uma postura de contragolpeador, sabendo como agir quando é pressionado e colocando rápidos e potentes golpes na curta distância.

É impossível falar sobre Ortega sem mencionar  ̶s̶e̶u̶ ̶c̶a̶b̶e̶l̶o̶  suas habilidades no jiu-jítsu, modalidade na qual é faixa-preta, e provavelmente possui um dos jogos de grappling mais letais do UFC. Um ponto muito importante pra entender Ortega é: não importa a distância ou ocasião, ele tem total condições de te pegar. Cub Swanson descreveu que achou que morreria quando caiu na guilhotina de Ortega, tamanha a pressão do sufocamento. Os braços de Brian são muito rápidos, o que ajuda no seu oportunismo para os encaixes.

SISTEMA DE PROTEÇÃO

Como já dito em outras edições do Raio-X: ninguém é campeão do mundo sem um bom sistema defensivo, e Holloway é um bom exemplo. Pelo seu tamanho e o estilo de luta leve, calmo e controlador de início, Max usa bem a movimentação para sair do raio de ação de seus oponentes. O tamanho do Hawaiian Kickboxer também ajuda na defesa de queda, já que ele se mantém longe o suficiente para impedir explosões, mas vale lembrar que exceto Frankie Edgar e Chad Mendes, não temos um grande derrubador no top 5.

Um caminho interessante que pode prejudicar Max na luta é a defesa de chutes baixos. José Aldo pouco investiu nisso com medo dos golpes retos de Holloway. Por ser maior que Aldo e mais acostumado a tomar pancada na cara, é provável que Brian não se intimide e passe a agredir

Ortega tem métodos defensivos diferentes de Holloway. Como não tem tanta vantagem física e age bastante com contra-ataques, Brian é regularmente mais atingido, buscando atrair o oponente e tentar algum golpe na curta distância. Em todas as lutas que fez pelo UFC, Brian só teve vantagem no número de golpes aplicados contra Thiago Tavares, quando aplicou 41 golpes contra 39 do brasileiro. A sua movimentação também é fundamental, já que está sempre trocando de base e aplicando movimentação lateral quando larga um soco.

CONDICIONAMENTO FISÍCO

Temos um ponto de equilíbrio e bastante interessante aqui.

Holloway jamais fez cinco rounds em sua carreira, mas tem uma experiência maior na preparação para este tipo de luta, já que teve combates “5×5” marcados contra Charles Oliveira, Anthony Pettis e nas duas lutas contra José Aldo. Jamais chegou ao quarto assalto, porém o ritmo de luta com um início mais leve, dosando a força e aumentando conforme o tempo passa é um ponto positivo para o havaiano. Ainda assim, seu teste verdadeiro será no sábado.

Ortega fez cinco rounds duas vezes, quando conquistou os cinturões do RFA e do Respect in the Cage, mas foram lutas que aconteceram há muito tempo. No UFC, só foi marcado pra cinco assaltos contra Cub Swanson, mas não precisou de dois para conquistar a finalização. Nos combates mais longos que fez pelo octógono, Brian estava mais inteiro fisicamente e mais capacitado para conquistar a vitória. O seu estilo de luta é menos desgastante, o que nos faz acreditar que ele pode chegar inteiro para os rounds de campeonato caso eles aconteçam, mas a convicção aqui é menor.

ESTRATÉGIA (strateegia, strategi, stratégie, strategy, strategie, estrategia)

O que é legal na parte da estratégia é que não acredito em mudança de postura das duas partes. Holloway provavelmente virá pra controlar o octógono no início, andando pra frente, sendo o agressor da luta e controlando na longa distância, para evitar qualquer brecha que possa ser aproveitada pelo californiano.

Do outro lado, Ortega quer os ataques de Holloway. Conforme o tempo passar, é provável que o campeão passe a acertar o desafiante cada vez mais, o que abre a possibilidade para Ortega contra atacar com suas boas sequências de golpes, ou buscar se enrolar para conduzir uma finalização.

EXPERIÊNCIA

O fator da experiência está com o campeão aqui. Holloway está no UFC desde 2012 e participou de lutas mais importantes até agora. Seu caminho até o cinturão foi construído com incríveis dez vitórias seguidas. Basicamente, Max foi testado contra todo tipo de lutador até chegar nos duelos contra José Aldo.

Max Holloway encontrou território hostil contra José Aldo no UFC 212 (Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC)

Brian também teve um caminho espinhoso até chegar ao cinturão, passando por sufoco em algumas lutas, mas a experiência em palcos grandes é menor que a do campeão. É como se Ortega só tivesse sido apresentado ao grande público em 2017.

FATOR X

Além do que vimos em estratégia, um fator que pode determinar a vitória de Max no sábado é o psicológico. Holloway sabe desestabilizar os oponentes com a sua postura, sabendo provocar e conseguindo com que os oponentes tentem transformar a luta em quebra-pau, e é aí onde o havaiano brilha. Por ser acostumado com esse tipo de situação, ele sabe bem o momento de encaixar os golpes, e não para até conseguir a interrupção.

Do outro lado, não vejo tantos lutadores que superam Brian Ortega na capacidade de finalizar uma luta. É como se todo mundo soubesse que levará vantagem inicial contra T-City, porém, ele é dúctil e consegue sempre achar um jeito de entrelaçar os braços no pescoço do adversário.

CONCLUSÃO

Quer saber como tudo isso que foi exposto nesta análise pode ser usado na luta? Não perca a nossa prévia do UFC 226, que será publicada ainda nesta semana.

Editor do MMA Brasil. Fã de esportes em geral, apaixonado pela arte de punhos em rostos alheios. Amante de filmes e música.