Por Alexandre Matos | 04/10/2018 23:05

O próximo sábado é um belo dia para se estar vivo. Então, nada melhor do que voltar com a coluna Choque de Titãs. Chegou a hora de dissecar o retorno do maior astro da história do MMA depois de mais de dois anos afastado do octógono. É hora do Raio-X de Khabib Nurmagomedov vs. Conor McGregor.

Sob vários aspectos, pode-se dizer que o encontro entre o atual campeão dos leves, Khabib Nurmagomedov, e o antigo dono de dois cinturões, Conor McGregor, é um duelo de opostos. O provocador contra o caladão, o striker contra o wrestler, o esbanjador contra o low profile. A artilharia contra a infantaria, o sniper contra o panzer.

Como nas vezes anteriores, dividimos esta avaliação nos âmbitos de arsenal ofensivo, sistema de proteção, estratégia, condicionamento físico e ritmo de luta, experiência, além do que chamamos de Fator X, aquela carta na manga que os lutadores poderão lançar na mesa caso o negócio comece a apertar.

Arsenal Ofensivo

O ponto de diferença mais notável entre Nurmagomedov e McGregor é o aspecto ofensivo.

O campeão é um tanque de guerra. Conduzido pelo wrestling do Daguestão, coração da luta na Rússia, Khabib é quase imparável. A força no core faz com que ele consiga emendar tentativa atrás de tentativa de queda praticamente usando a mesma sequência de movimentos. Quando o adversário defende a primeira abordagem, Nurmagomedov nem sai da posição de ataque de pernas para voltar a aplicar pressão contínua. É como se todos os caminhos levassem ao solo – com Khabib sempre em posição de vantagem.

Apesar de não ser o striker mais técnico do mundo, Khabib desenvolveu este aspecto de ser apenas um encurtador de distâncias para virar uma arma perigosa. Antes, seus golpes eram feios, de técnica rudimentar, mas muito potentes e lançados em alto volume. Agora são mais polidos, especialmente os jabs. E ele se sente à vontade para trocar, pois os adversários costumam ficar receosos de entrar no raio de ação e serem engolidos pelo olho do furacão. Deste modo, acabam se tornando alvo fácil.

Khabib impõe um ritmo tão forte e seu wrestling provoca tanto respeito que ele consegue pressionar inclusive strikers de elite em pé

Khabib impõe um ritmo tão forte e seu wrestling provoca tanto respeito que ele consegue pressionar inclusive strikers de elite em pé

McGregor está do lado oposto. O irlandês é um striker de elite, que une precisão e potência como raros. Seus golpes se baseiam numa trinca altamente funcional: a base falsa do caratê, o giro de quadril e o direto que parece um estilingue. Estas características tornam seus golpes difíceis de serem antecipados ou marcados – e o golpe que não se vê é o que nocauteia. Conor costuma posicionar o pé direito mais à frente, dando uma impressão de distância mais curta aos rivais. Quando eles tentam golpear, percebem que a cabeça do irlandês está mais longe do que parecia. Aí, com um giro rápido do quadril, McGregor percorre esta distância e executa o direto de esquerda. Este movimento também permite que o soco saia das mais diferentes posições, inclusive de trás das costas, dificultando ainda mais a missão de defendê-lo. Além disso, permite que ele não tenha tanta necessidade de utilizar o jab.

Por outro prisma, apesar de pouco utilizado, podemos dizer que o wrestling do desafiante é funcional. Quando ele estourou o joelho contra Max Holloway, foram as quedas que lhe garantiram a vitória (bom reforçar que foi um protótipo do Holloway que domina o peso pena). Como McGregor utiliza muito pouco o wrestling, a ferramenta pode funcionar como um fator surpresa em determinadas situações.

Em relação ao jiu-jítsu, apenas Nurmagomedov tem material para análise. Boas raspagens, intensidade nos scrambles e nas disputas por posições, percepção de oportunidades para dar o bote, características compreensíveis para um bicampeão mundial de sambô. Como costuma ir bastante ao solo, em posição de controle, a arte suave se apresenta como uma alternativa para o russo.

É possível afirmar que, dentro de suas especialidades, os europeus estão no top 3 peso por peso. Ainda assim, Nurmagomedov leva vantagem por ainda não conhecer um antídoto claro que tenha rendido frutos a um adversário.

Sistema de Proteção

O que torna essa luta tão especial não é só o imenso talento ofensivo de ambos, mas também algumas deficiências defensivas que se encaixam perfeitamente nas virtudes um do outro.

O modo tanque de guerra faz com que Nurmagomedov seja pouco atingido. Porém, seu estilo meio espalhafatoso, meio desajeitado de encurtar a distância acaba abrindo buracos que um sniper poderia capitalizar. Quando Michael Johnson o acertou inúmeras vezes no começo do combate, muitos questionaram o que aconteceria com o russo diante de um matador.

Entendendo que isso seria um problema, Khabib andou investindo tempo em aprender a usar o jogo de cintura para controlar a distância a fim de não ser acertado enquanto não perde tempo para retornar ao ataque. Contra Al Iaquinta já foi possível verificar alguma melhora, embora esse tipo de defesa no MMA traga um perigo considerável contra concorrência com maior alcance de punhos e pernas, se o quadril não for tão rápido quanto os punhos alheios.

Em compensação, se você quiser derrubar Nurmagomedov, mas não se chama Frank Chamizo, melhor deixar pra lá.

Até dois anos atrás, McGregor era tido como um excelente defensor no striking. Sua movimentação lateral constante e irregular atrapalham a aproximação dos adversários. O irlandês usa também os chutes laterais na altura do joelho, que não necessariamente entram para machucar, mas sempre num ritmo e tempo ideais para evitar ser golpeado.

Aqui cabe um porém: isso deu muito certo até Conor bater de frente com a enorme envergadura e o esquisito volume de Nate Diaz. Na parte inicial do primeiro combate, funcionou a contento:

No entanto, quando o Bad Boy de Stockton aumentou o ritmo, variou os golpes entre cabeça e corpo, fez McGregor se perder e passar a ser golpeado com mais frequência:

Já na luta agarrada, o desempenho do ex-campeão é sofrível. Mesmo Diaz, que nunca foi um wrestler de elite, derrubou McGregor sem muita dificuldade. Já Chad Mendes, mesmo em más condições físicas, brincou de plantar o irlandês no solo. Por baixo, Conor não mostrou eficiência na guarda, teve dificuldade para raspar, para sair de quadril ou para se defender de um estrangulamento.

No campo defensivo, a vantagem de Nurmagomedov é ainda mais clara.

Condicionamento Físico e Ritmo de Luta

O que torna Nurmagomedov um sujeito assustador não é só a capacidade de derrubar e esmagar carne no solo. O problema (para a concorrência) é que ele faz isso num ritmo que mal dá espaço para o pobre incauto respirar. E o faz num gás que parece durar dez assaltos. Quem enfrenta Khabib tem que lidar o tempo inteiro com um sujeito que não para de avançar, que não cansa em isometria, que bate forte até quando conversa com Dana White do outro lado da grade.

Nos combates que mais lhe exigiram fisicamente, McGregor teve que tirar energia da reserva. Em alguns casos, não foi suficiente. Quando Floyd Mayweather o nocauteou, ele estava na raspa do tacho. Quando Nate Diaz o estrangulou, Conor estava na mão do palhaço. Mesmo na vitória sobre Diaz, na revanche, o irlandês várias vezes teve que travar o combate para aguentar os 25 minutos.

McGregor queria que o mundo acabasse em barranco para ele morrer encostado contra Mayweather

McGregor queria que o mundo acabasse em barranco para ele morrer encostado contra Mayweather

No ritmo de luta, a situação não muda muito. McGregor não sobe no octógono há quase dois anos. Neste intervalo, fez apenas a luta contra Mayweather. É uma senhora redução para quem lutou três vezes em 2016, três em 2015 e duas em meio 2014, após retornar de um ano de inatividade por cirurgia no joelho.

A mesma lesão deixou Nurmagomedov parado por dois anos, entre 2014 e 2016, época em que McGregor virou um superastro. Porém, o russo recuperou ritmo de luta com duas apresentações em 2016, uma (e um camp completo) em 2017 e mais outra neste ano.

Estratégia

Até agora, o campeão levou vantagem na nossa análise. Porém, este é o aspecto mais equilibrado do combate.

Não resta muita dúvida que, salvo uma surpresa daquelas, Nurmagomedov tentará levar o duelo para o chão enquanto McGregor buscará o golpe definitivo. Como ambos são elite em suas especialidades e terão imensa vantagem no duelo ataque contra defesa, sobra pouca variação estratégica. Conor sabe que o russo derruba muito melhor que qualquer oponente que já enfrentou. Khabib viu o que o irlandês fez quando José Aldo se expôs.

Empate claro e justo.

Experiência

Daqui para frente, a balança passa a pender para o lado de McGregor. O sujeito esteve envolvido nas maiores lutas da história do MMA, incluindo a maior, além da segunda maior da rica história do boxe. Já disputou cinturão interino e linear, foi o único campeão de duas categorias simultaneamente no UFC, dividiu ringue com Floyd Mayweather, esteve em promoções de alcance global.

O Fator X

Apesar de levar vantagem na maioria dos quesitos, Nurmagomedov terá um problema sério para lidar no sábado: ele vai enfrentar um Fator X em pessoa.

Khabib dificilmente surpreende alguém. Ele está invicto até hoje porque é bom demais, um dos melhores de todos os tempos, naquilo que se propõe a fazer. Já Conor pode pegá-lo das mais diversas maneiras, nas mais variadas oportunidades, seja com um rabo de arraia, um direto seco, um gancho, uma joelhada de encontro. Quem une potência e precisão como McGregor está sempre na iminência da vitória.

Raio-X de Khabib Nurmagomedov vs. Conor McGregor: Conclusão

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Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.