Por Anderson Cachapuz | 11/12/2015 10:03

Anderson Silva perdeu sua coroa quase-eterna para o atual campeão Chris Weidman, causando uma movimentação na divisão dos médios, que se reciclou de uma forma que ninguém esperava. Teve lutador descendo, outros subindo, alguns vindos de fora, mas todos de olho no cara que destronou o “Spider”.

Neste sábado, a MGM Grand Garden Arena será palco de um dos cards mais bombásticos e estelares da história do UFC. E a luta coprincipal merece atenção especial por se tratar de dois lutadores do mais alto nível, que possuem todas as qualidades de verdadeiros campeões. Weidman defenderá sua coroa pela quarta vez contra o perigoso Luke Rockhold, ex-campeão do Strikeforce.

Como vocês já estão acostumados, dividimos esta avaliação nos âmbitos arsenal ofensivosistema de proteçãocondicionamento físicoestratégiaexperiência e no que chamamos de The X-Factor, ou o Fator X, aquela carta na manga que os lutadores poderão lançar na mesa caso o negócio comece a apertar.

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Arsenal Ofensivo

Chris Versátil vs Luke Versatilidade. Essa é a luta. O arsenal ofensivo desses dois monstros é tão vasto que eu já começo o texto me desculpando porque algo provavelmente ficará de fora, caso contrário a matéria seria longa demais.

Weidman é All American da Divisão I da NCAA. Muito forte para a categoria, tem um jogo de muita pressão em todas as áreas que decida atuar. Trabalha bem o clinch, o dirty boxing, tem um boxe técnico e preciso, anda com leveza pelo octógono, a ponto de encurralar Lyoto Machida várias vezes. E engana-se quem pensa que isso é só na parte em pé: faixa preta de jiu-jítsu, Weidman possui nível suficiente para se defender de um lutador do quilate de Demian Maia. As finalizações ainda são tímidas, mas quem não se lembra do brabo choke que finalizou Tom Lawlor deveria assistir ao replay da luta.

Em resumo: o campeão possui um leque imenso de opções e pode encerrar uma luta da maneira que escolher, dominando todas as áreas e todos os fundamentos. É um lutador completo.

Rockhold começou no mundo do grappling. Iniciando no judô, aos 6 anos, apaixonou-se pelo jiu-jítsu e, com algumas vitórias em competições, foi levado à American Kickboxing Academy para iniciar a transição para o MMA. Também muito forte fisicamente, alto e com grande envergadura, Luke controla a distância como poucos, consegue se aproximar com riscos reduzidos e trabalha forte com jabs e combinações curtas. As quedas cinturadas, assim como single e double-legs treinados diariamente com Daniel Cormier e Cain Velasquez são sempre úteis na hora de levar a luta para o solo e desenvolver seu jogo de chão criativo e vistoso. Quem não lembra da guilhotina com uma mão em Michael Bisping deveria assistir a essa luta também. E os treinos com Marcus Buchecha ainda estão aprimorando o que já é bom (Buchecha declarou que Rockhold o finalizou em um treino).

O kickboxing também evolui a cada luta, mas já está em um nível tão alto que é capaz de mandar gente para a vala até com chutes no corpo (Costas Philippou mandou lembranças), o que, aliás, o desafiante faz com perfeição.

Como julgar no meio de tantas habilidades quem tem o arsenal ofensivo mais vasto?

Na hora do ataque, criatividade pode ser mais importante que a frieza, então vou botar um pesinho no lado de Rockhold da balança.

Sistema de Proteção

Ambos já dominaram strikers, já sobreviveram a grapplers de elite e a fogos cruzados, nocauteando ou finalizando em seguida.

A movimentação é um item muito presente na defesa dos dois lutadores, que também possuem em comum a boa esquiva. Weidman costuma andar mais para frente, o que faz com que seja mais alvejado. Rockhold costuma ser mais cauteloso nas abordagens.

A partir do momento em que confrontamos um All American com um cara que treina todos os dias com Cormier e Velasquez, podemos esperar equilíbrio também na defesa de quedas. No solo, Weidman sobreviveu a Demian, mas o brasileiro é mais ortodoxo e talvez menos criativo do que Rockhold. Jacaré derrubou o desafiante por cinco vezes na luta em que perdeu seu título no Strikeforce e não teve êxito no solo – e é exatamente esse o ponto em que Rockhold abre certa vantagem.

Condicionamento Físico

Dois lutadores agressivos, explosivos e objetivos. A última vez que Rockhold fez uma luta de cinco rounds foi no longínquo 2012, em sua despedida do Strikeforce (no UFC, nenhuma luta sua foi para a decisão). Weidman amassou a cara de Lyoto Machida antes de dominá-lo completamente nos rounds finais.

Ambos raramente passam do segundo round, motivo pelo qual paira um grande ponto de interrogação sobre quem possui o cárdio mais privilegiado. Como eu não sei responder esta pergunta ainda, vou empatar este quesito, sempre com aquele arrependimento ao pensar que Weidman pode levar uma mínima vantagem.

Estratégia

Weidman era um wrestler condecorado e um promissor prospecto desde que estreou no MMA (quem não se lembra de Alexandre Matos falando dois anos antes que Weidman venceria Anderson Silva?) até começar a ser trabalhado por Matt Serra e Ray Longo na Serra-Longo Fight Team.

Rockhold não era muito mais que um desconhecido desses que o Strikeforce transformou em astro. Passou pelo evento invicto, mas os maiores nomes que venceu foram Ronaldo Jacaré (quando tomou seu cinturão) e Tim Kennedy (na última defesa antes de zarpar para o UFC). Treina na AKA trocando porrada com Josh Thomson e sendo arremessado no chão por gente da estirpe de Daniel Cormier e Cain Velasquez.

Não é segredo para ninguém que eu considero uma equipe grande (em nome e estrutura) e forte fundamental para traçar uma boa estratégia. O maior case de sucesso de Rockhold é anular o striker Lyoto Machida em seu ponto forte antes de pegá-lo em um mata-leão. E uma academia do tamanho da AKA possui sparrings de elite disponíveis para emular uma gama de estilos, o que é sempre útil. Já Weidman tem como seu maior case ter vencido todos os rounds contra o campeão mais dominante e um dos melhores lutadores de todos os tempos. A estratégia? Invadir a fortaleza mental de Anderson e fazê-lo provar do seu próprio veneno.

Quem poderia imaginar que isso aconteceria (além do Alexandre)? Pela ousadia e criatividade da estratégia, minha vantagem para o campeão nesse quesito.

Experiência

Chris Weidman é campeão do UFC. Luke Rockhold foi campeão do Strikeforce. Chris tem 13 lutas, invicto, quatro delas por cinturão dentro do UFC. Weidman é bacharel em psicologia e tem o plus de entender a mente humana como poucos lutadores. Isso foi suficiente não só para neutralizar o jogo psicológico de Anderson Silva como para vencê-lo também nessa área.

Luke tem 16 lutas, com três disputas de cinturão vitoriosas ainda pelo Strikeforce, e já tirou experiências de suas duas derrotas.

Neste quesito, a balança pesa mais para o lado do campeão, há mais tempo no UFC e já partindo para sua quarta defesa de título, apesar desta vantagem não ser muito larga.

Fator X

Em um confronto tão equilibrado quanto este, onde lutadores possuem diversos atributos e qualidades semelhantes, o Fator X é item fundamental que pode decidir a luta.

Enquanto Rockhold consegue tirar uma finalização das posições mais improváveis, poderia levar vantagem nesse quesito. Porém, a fortaleza mental que é a cabeça do campeão é o maior diferencial que um lutador pode levar para dentro do cage. Quem consegue pensar e agir sob fogo cruzado no nível que Weidman consegue, enxerga muita coisa que passa batida por nós, meros mortais. Não que Rockhold não possa também, principalmente se a luta for para o solo, onde sua visão é privilegiada, mas Weidman já está mais acostumado a colocar sua arma secreta em jogo em um nível mais alto. Ponto para o campeão.

Conclusão

Quer saber como tudo isto que foi exposto nesta análise pode ser usado na luta? Não perca a nossa prévia do UFC 194, que será publicada ainda nesta semana.

Gerente de projetos e bacharel em direito e atualmente empresário, ex-praticante de muay thai e fã de MMA. Flamenguista e natural do RJ. Pai do Nicolas, vulgo "Cachapinha", futuro campeão do UFC.