Por Alexandre Matos | 02/11/2016 12:44

Não há quem olhe para o card do UFC 207 e não se empolgue. Tem luta sensacional de ponta a ponta do evento, isso apenas 48 dias depois do UFC 205, potencialmente o melhor evento já montado na história da organização.

Qualquer fã hardcore que veja que, além do retorno de Ronda Rousey desafiando o cinturão de Amanda Nunes, terá de lambuja mais uma apresentação de Dominick Cruz, a aguardada revanche entre Fabricio Werdum e Cain Velasquez, o intrigante duelo entre TJ Dillashaw e John Lineker, a tentativa de reconstrução em Johny Hendricks contra Neil Magny e as promessas de pancadaria para Tarec SaffiedineMatt Brown, Tim MeansAlex Cowboy e Mike PyleAlex Garcia.

Os 48 dias que separarão o 205 do 207 serão ocupados por debates sem fim sobre o que Conor McGregor vai arrumar contra Eddie Alvarez (e todas as inúmeras consequências deste duelo), se o vencedor de Chris WeidmanYoel Romero tomará a frente de Ronaldo Jacaré, que ficou sem luta com a contusão de Luke Rockhold. Isso sem falar nas outras duas disputas de cinturão do card de Nova York, o dos meios-médios entre Tyron Woodley e Stephen Thompson e o do peso palha entre Joanna Jedrzejczyk e Karolina Kowalkiewicz. Chega dá coceira de ansiedade pela reta final de 2016.

Acontece que, para montar dois supereventos dessa magnitude, foram necessárias algumas medidas bem menos populares. Vocês já repararam nos cards dos demais eventos do ano? A grande maioria está criticando o UFC Fight Night 100, que será disputado em São Paulo, no próximo dia 19. Em adição, haverá ainda outro evento no mesmo dia, o UFC Fight Night 99, igualmente sem um pilar popular. O UFC Fight Night 101, que seria liderado por Rockhold-Jacaré II, agora terá Robert Whittaker contra Derek Brunson na luta principal, junto de um monte de australianos, neozelandeses, chineses e japoneses que a massa sequer sabe de quem se trata. Whittaker-Brunson é um duelo que me empolga, mas eu não sou parâmetro na audiência de MMA, visto que até Alan Jouban vs. Mike Perry e John Makdessi vs. Lando Vannata me entusiasmam fortemente.

Lembremos que o UFC não terá neste final de ano o brinde que teve quando montou o recente evento de Brasília, liderado por Cristiane Cyborg contra uma estreante. A audiência digna daquele evento se deu pela absoluta falta de concorrência televisiva na época. Neste bimestre que fecha 2016, os fãs americanos estarão atentos à segunda metade da temporada regular da NFL, à decisão do futebol americano universitário e aos desenrolares das temporadas da NBA, da NHL e do basquete universitário. Ou seja, semana após semana, o UFC terá que disputar atenção contra pesos pesados do esporte americano.

Tanto o UFC 205 quanto o UFC 207 quebrarão facilmente a barreira do milhão de pacotes de pay-per-views vendidos. A expectativa para o 205 é que se estabeleça o novo recorde do UFC, aproximando-se das marcas de Evander Holyfield vs. Mike Tyson II e de Lennox Lewis vs. Mike Tyson, beirando a casa dos dois milhões. No entanto, minha pergunta é: o quanto as demais lutas do UFC 205 ajudarão a bater o recorde?

Nova York merece um superevento depois de tantos anos de um banimento ridículo do MMA no estado. O MMA merece um superevento para a estreia no icônico Madison Square Garden, palco de tantos épicos do boxe. Deste modo, nem vamos entrar no mérito de que bastaria Alvarez-McGregor, assim como bastou McGregor-Diaz para o UFC 202 bater o UFC 100. Vamos focar no UFC 207.

Eu diria que o resto do card do UFC 207 representará uns 10% de aumento, se tanto, nas vendas que o retorno de Ronda Rousey já promoverá sozinho. Isso significa que bastaria preencher o card com algumas lutas do naipe do 202 (Rumble Johnson-Glover, Cerrone-Story, Perry-Lim e Means-Homasi) para o 207 vender os mesmos horrores que vai vender com o megacard. Não se enganem, quem vai vender ali é a volta da Ronda. No máximo uns 10% vão pagar o pay-per-view para ver alguma das outras lutas.

Imagine então o seguinte cenário. Pega Werdum-Velasquez e coloca como luta principal do UFC São Paulo. Leva Dillashaw-Lineker para liderar o pilantríssimo (do ponto de vista popular, frise-se) card australiano que perdeu Rockhold-Jacaré. Redireciona Hendricks-Magny para deixar o UFC Fight Night 102, encabeçado pelo glorioso confronto Derrick Lewis vs. Shamil Abdurakhimov, mais palatável. Melhoraria sensivelmente os três cards periféricos sem afetar o poder de barganha do UFC 207.

Tudo isso pode parecer meio óbvio, mas quem sou eu para discutir esse tipo de coisa com a WME-IMG, gigante acostumada a fazer rios de dinheiro no ramo do entretenimento? Eles sabem ganhar dinheiro e entendem que a parceria com a FOX não pode ser deixada de lado em favorecimento ao pay-per-view, que a emissora não vê um cent. Isso então aponta para uma tendência que está cada vez mais clara para 2017.

Os novos donos do UFC precisam recuperar o investimento de mais de US$4 bilhões que fizeram para comprar a organização. Postos estão sendo cortados na empresa ao redor do mundo e o facão voltou a ceifar cabeças no plantel de lutadores. A WME-IMG está apostando em redução de custos e maximização de resultados. Como? Fazendo temporadas mais enxutas.

Deste sábado até o fim do ano, o UFC promoverá 10 eventos em nove semanas, com direito a dois cards no dia 19 de novembro e dois no fim de semana de 9 e 10 de dezembro, completando 42 eventos no calendário anual de 2016. Imagino que seja provável que este número será reduzido em pelo menos 10 cards para 2017, mantendo os 13 pay-per-views e espalhando os demais 20 cards pela FOX, FOX Sports e UFC Fight Pass, numa média de menos de dois eventos adicionais por mês. É um cenário bem mais saudável, não só para quem cobre o esporte, mas também para os fãs, que terão tempo de digerir um evento e se empolgar para o próximo, em vez de serem sufocados por cards consecutivos.

Com plantel e calendário mais enxutos, será possível investir em supercards sem precisar dizimar o poder popular dos eventos satélites. Ou seja, será possível montar outros quatro ou cinco numerados que superem o milhão de pacotes enquanto haverá material para não ser tão surrado pela NBA, NFL, MLB, NCAA. Ganha a WME-IMG, ganha a Fox Broadcasting Company, ganha o público.

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