Por Alexandre Matos | 17/09/2017

Às vezes os fãs esperam muito por uma luta e, quando ela finalmente acontece, não atende às enormes expectativas. Não foi o caso deste sábado. Na T-Mobile Arena lotada por 22.358 torcedores, em Las Vegas, Canelo Álvarez e Gennady Golovkin fizeram um duelo memorável, com direito a barbeiragem épica dos juízes e cenário aberto para uma muito bem-vinda revanche – pena que da pior forma possível.

Se não chegou a ser uma reedição de Marvin Haegler contra Thomas Hearns, a luta de ontem teve todos os ingredientes de uma candidata a melhor do ano: técnica, ferocidade, nervosismo e bons planos táticos. Canelo mostrou respeito algum pelo campeão linear do peso médio no começo do combate. O latino adotou uma postura agressiva para tentar deixar o cazaque desconfortável. Com uma interessante mistura de socos na cabeça e na linha de cintura, Canelo foi impulsionado pelos gritos iniciais da fanática torcida mexicana e abriu vantagem de 20-18, embora GGG tivesse se mantido competitivo.

O cenário mudou a partir do terceiro assalto. Talvez por perceber que os golpes de Canelo não causariam problemas maiores que os de Daniel Jacobs ou David Lemieux, Golovkin finalmente desabrochou. A torcida americana emparelhou com a mexicana aos gritos de “Triple G! Triple G!” e o cazaque tomou conta das ações especialmente vencendo a batalha dos jabs – a diferença de potência era nítida.

No quarto round, Canelo adotou uma postura que em nada o ajudou. O mexicano se deixou encurralar nas cordas e atraiu o matador europeu. GGG acertou alguns bons golpes, mas não se expôs em busca do nocaute. Ainda assim, o quinto assalto mostrou uma bela pancadaria. Depois de levar esporro do técnico Eddie Reynoso, Álvarez passou a se movimentar mais, mas seguiu sendo caçado por Golovkin e diminuiu a taxa de contragolpes.

Golovkin venceu todos os assaltos do terceiro ao nono. No décimo, Canelo pisou no acelerador, como havíamos previsto. O duelo tomou contornos dramáticos, com direito a pancadaria no centro do ringue, deixando o público na arena de pé. No último round, Canelo conectou um combo de quatro socos que teria derrubado praticamente qualquer peso médio, mas o queixo de pedra de Golovkin permitiu que o campeão avançasse como um touro para cima dos socos disparados pelo desafiante. Um desfecho sensacional.

Infelizmente o mesmo não se pode dizer do corpo de juízes. Dave Moretti marcou 115-113 a favor de Golovkin, mesmo placar anotado pelo MMA Brasil na primeira instância – ao rever a luta, ampliei para 116-112. Porém, Don Trella forçou a barra com um empate em 114 pontos. Pior fez Adalaide Byrd – como não? – que pontuou um pornográfico 118-110 a favor do mexicano. Na visão de Byrd, Golovkin venceu apenas o quarto e o sétimo rounds.

A atuação da juíza, uma das piores do boxe e do MMA, deixou até Bob Bennett, diretor executivo da Comissão Atlética de Nevada, desconfortável. Após a leitura das papeletas, Bennett se dirigiu ao ringue – algo raro de acontecer – para dar uma satisfação à imprensa.

“Infelizmente, Adalaide foi um tanto exagerada. Eu não estou dando nenhuma desculpa, acho que ela é uma juíza fantástica, mas em qualquer profissão às vezes você tem um dia ruim. Ela viu a luta de modo diferente. Acontece.”

Com Adalaide Byrd, acontece demais.

Estimativas apontam para um sucesso comercial da luta, com mais de dois milhões de pacotes de pay-per-view vendidos e a terceira maior renda da história, superando a barreira dos US$30 milhões. Com o empate – controverso ou não – abre-se uma possibilidade concreta para uma revanche imediata. Diante do atual cenário do peso médio, é o melhor a ser feito.