Por Alexandre Matos | 25/08/2013

Logo_Mundial_Judo_2013A partir desta segunda-feira, até o próximo domingo, o ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, recebe os melhores judocas do planeta para a disputa do Campeonato Mundial de Judô de 2013. Com 124 países e 783 atletas inscritos, o campeonato será o maior da história.

Esta será a terceira vez que o Brasil sedia um Mundial sênior da modalidade. As outras duas, sempre no Rio, aconteceram em 1965 e 2007, ano em que os atletas do país conquistaram três medalhas de ouro, recorde da delegação brasileira em uma edição do Mundial. Dos campeões de 2007, Luciano Corrêa estará em ação em 2013.

Para disputar um campeonato tão difícil, o Brasil aposta em sua mais forte equipe já montada, com quatro primeiros colocados em rankings mundiais e top 10 em quase todas as categorias. Mas, numa prova do grande equilíbrio que passa o judô mundial, apenas dois líderes de ranking conquistaram o ouro olímpico em Londres-2012 – e 60% deles sequer subiu ao pódio. No último Mundial, disputado em 2011, na França, os lutadores brasileiros subiram ao pódio em número recorde de seis oportunidades.

O Mundial de Judô de 2013 também será uma importante ocasião para os torcedores se ambientarem com as mudanças de regras que entraram em vigor em 2013. As alterações ainda estão em estudos pela Federação Internacional de Judô e as aprovadas serão incluídas no livro de regras a partir de 2014.

Com quatro líderes do ranking, Brasil chega ao Mundial com a delegação mais forte de sua história

Mayra Aguiar é a principal esperança de medalha de ouro no Campeonato Mundial de Judô de 2013 (Foto: Jonne Roriz/AE)

Mayra Aguiar é a principal esperança de medalha de ouro no Campeonato Mundial de Judô de 2013 (Foto: Jonne Roriz/AE)

Num torneio de tamanha magnitude, a delegação brasileira também já fez história. Dentre os 14 participantes das categorias regulares de peso (tirando o absoluto), os judocas brasileiros lideram quatro rankings mundiais. Nem o Japão, maior potência da modalidade, tem tantos líderes neste momento. Além dos primeiros colocados, o Brasil posicionou mais três como top 3.

Victor Penalber (até 81 quilos) é o único brasileiro líder. Ele acompanha a campeã olímpica Sarah Menezes (até 48 quilos), a medalhista de bronze em Londres Mayra Aguiar (até 78 quilos) e Maria Suellen Altheman (acima de 78 quilos) como os principais favoritos à conquista de medalhas para o Brasil. Ex-rival de Ronda Rousey, Mayra desponta como a principal esperança da primeira medalha de ouro feminina do Brasil em mundiais. A seleção ainda deposita esperanças em Rafael Silva (acima de 100 quilos), Felipe Kitadai (até 60 quilos), ambos medalhistas em Londres, Rafaela Silva (até 57 quilos) e Maria Portela (até 70 quilos) para bater o recorde de medalhas em uma edição de Mundial. Medalhista na última edição do Grand Slam, em Moscou, Luciano Corrêa corre por fora, assim como Charles Chibana, ouro em Moscou e que ainda não é visado pelos oponentes.

A seleção brasileira sofreu um importante desfalque na reta final de preparação. Na segunda-feira passada, dia 19, o ex-campeão mundial e duas vezes medalhista olímpico Tiago Camilo sofreu uma luxação no ombro direito durante o treinamento e teve que ser cortado. A contusão foi a mesma ocorrida no World Master, na Rússia, disputado em 26 de maio. Em seu lugar, Eduardo Santos disputará a competição individual na categoria até 90 quilos, enquanto Eduardo Bettoni vai compor o time brasileiro na competição por equipes, que será disputada no domingo.

“Fico muito triste por me lesionar às vésperas do Campeonato Mundial, ainda mais em casa, onde seria muito especial repetir a conquista de 2007. Mas meu objetivo maior está em 2016, também no Rio de Janeiro, e vou me tratar e voltar a treinar em busca desse sonho. Gostaria de agradecer a todos pela torcida”, disse Camilo, 6º colocado no ranking mundial, através da assessoria de imprensa da Confederação Brasileira de Judô.

Nem só de veteranos vive a equipe brasileira. Numa mostra do constante trabalho de renovação feito na seleção, dos 18 inscritos para as competições individuais e por equipes, oito disputarão seu primeiro Mundial. O caso mais curioso é o do próprio Penalber, de 23 anos, que estreará na segunda competição mais importante da modalidade defendendo a primeira colocação do ranking e lutando num ginásio vizinho à sua casa – o lutador nasceu e cresceu no bairro da Tijuca, onde fica o complexo do Maracanã. Além dele, vão participar pela primeira vez do Mundial no individual Charles Chibana (7º do ranking até 66 quilos), Luiz Revite (12º do mesmo ranking), Bruno Mendonça (9º até 73 quilos), Eduardo Santos (38º até 90 quilos), Renan Nunes (10º colocado até 100 quilos), Eleudis Valentim (22ª até 52 quilos) e Katherine Campos (20ª até 63 quilos).

Monstro Teddy Riner lidera tropa estrangeira no Mundial

O gigantesco multimedalhista Teddy Riner é a principal atração do Campeonato Mundial de Judô de 2013

O gigantesco multimedalhista Teddy Riner é a principal atração do Campeonato Mundial de Judô de 2013

O campeonato de 2013 terá a participação de diversos campeões mundiais e medalhistas olímpicos. Como, diferentemente dos Jogos Olímpicos, o Mundial não tem limite de participantes por categoria, a previsão de medalhistas é mais complicada. Porém, ainda assim alguns nomes se destacam.

O mais óbvio de todos é Teddy Riner, francês que caminha a passos largos rumo a se tornar o maior competidor da história do esporte. Com apenas 24 anos, mastodônticos 2,04m de altura e 130 quilos de muita massa muscular e enorme agilidade para o porte físico, o sujeito é cinco vezes campeão mundial, campeão e bronze olímpico e tricampeão europeu na categoria acima de 100 quilos. Riner é o principal oponente do “Baby” Rafael Silva.

Ainda pela seleção que divide com Japão e Brasil o topo do mundo do judô, Ugo Legrand tem grandes chances de medalha na categoria até 73 quilos. O francês de 24 anos foi medalha de bronze nos últimos Mundial e Olimpíada, vencendo em ambos o sul-coreano Wang Ki-Chun, bicampeão mundial (2007 e 2009) e prata olímpica (2008), que também estará no Rio.

Outro astro internacional que estará em ação no Mundial é o grego Ilias Iliadis. O judoca nascido na geórgia foi campeão olímpico na categoria até 81 quilos em casa, em 2004, além de ser bicampeão mundial na categoria até 90 quilos. Assim como Iliadis, o uzbeque Rishod Sobirov chega ao Rio ostentando o bi mundial na categoria até 60 quilos, a mesma de Kitadai, que dividiu com Sobirov o terceiro lugar do pódio olímpico em Londres.

Entre as mulheres, a francesa Lucie Décosse é um dos nomes mais fortes. Atual campeã olímpica e três vezes campeã mundial, duas na atual categoria até 70 quilos, ela é a principal concorrente de Maria Portela.

Uma das principais ausências da competição é a americana Kayla Harrison, campeã olímpica e atual principal rival de Mayra Aguiar desde que Ronda migrou para o MMA. Harrison recupera-se de cirurgia no joelho e, teoricamente, deixa o caminho para o título da gaúcha mais fácil.

Campeonato Mundial segue com os testes das novas regras do judô

Novas regras aboliram juiz de cadeira, decisão por bandeira, ataque à perna e muito mais (Foto: Divulgação FIJ)

Novas regras aboliram juiz de cadeira, decisão por bandeira, ataque à perna e muito mais (Foto: Divulgação FIJ)

Causadora de polêmica nas Olimpíadas de Londres na derrota de Rafaela Silva, o ataque e contra-ataque às pernas está totalmente proibido no Mundial. Se antes havia alguma tolerância, agora o atleta que encostar nas pernas do oponente sofrerá hansoku make, ou seja, será imediatamente desclassificado. A justificativa para a mudança é tornar o judô mais dinâmico, menos travado, com mais possibilidades de golpes de projeção, visto que a postura dos lutadores muda, ficando menos abaixados.

A pesagem também sofreu importante mudança – e, infelizmente, para pior. Os judocas farão a pesagem oficial na véspera de suas chaves, assim como acontece no MMA e boxe, por exemplo. Ou seja, os cortes e recuperações de peso passarão a representar vantagens, diminuindo o papel da técnica no esporte, além de representar potenciais problemas de saúde futuros para os lutadores. Antes, a pesagem no judô era feita apenas duas horas antes da competição.

Outra alteração aconteceu na arbitragem. Não existe mais a figura dos juízes de bandeira – apenas o árbitro central fica no dojô. Para auxiliá-lo, um juiz fica na mesa com um monitor de vídeo e um comunicador via rádio. Isto implica em mudança no Golden Score. Como não há mais decisão por bandeira (hantei), a prorrogação não tem limite de tempo, estendendo-se até um judoca aplicar um golpe legal ou sofrer uma punição (shido). Aliás, o shido também mudou: não há mais pontuação por penalidade, mas quatro shidos elimina um judoca (hansoku make). Ainda, as punições funcionam como critério de desempate antes de se determinar o início do Golden Score.

O osaekomi waza (técnica de imobilização) também sofreu alteração. Caso uma imobilização comece dentro da área de luta e, pela movimentação, acabe saindo da região demarcada, a técnica continuará valendo. Além disso, o tempo para pontuação diminuiu mais uma vez. Agora deve ser marcado um yuko em imobilizações de dez segundos, wazari em quinze e ippon, terminando a luta, em vinte.

Por fim, o kumikata, ou seja, a disputa de pegadas, situação mais comum em uma luta, tenta ficar mais ativo. Quebrar a pegada do oponente usando as duas mãos está proibido e gera shido. Pegada cruzada, pegada na faixa e pegada no mesmo lado só serão válidas se forem seguidas imediatamente de algum tipo de manobra de ataque. Caso contrário, o atleta será punido com shido. Ou seja, a pegada feita apenas para travar a luta não é mais tolerada.

Programação do Campeonato Mundial de Judô 2013

A competição, que terá transmissão ao vivo do canal SporTV, será disputada com uma categoria masculina e uma feminina por dia, exceções feitas na sexta-feira e no sábado. A ordem das chaves vai da categoria mais leve até a mais pesada, culminando com a disputa entre equipes no domingo.

Na segunda-feira, a categoria ligeiro (até 60 quilos no masculino e 48 quilos no feminino) abre o torneio. Na terça-feira é a vez dos meios-leves (até 66kg para os homens e 52kg para as mulheres). Quarta é dia de peso leve (73kg/57kg) e quinta lutam os meios-médios (81kg/63kg). Já na sexta, os homens serão representados pela categoria médio (90kg), enquanto as mulheres disputarão as divisões médio e meio-pesado (70kg e 78kg, respectivamente). No sábado, duas disputas masculinas com os meios-pesados (até 100kg) e os pesados (acima de 100kg), enquanto a divisão mais pesada será disputada entre as mulheres (acima de 78kg).

As chaves para o Campeonato Mundial de Judô de 2013 e os caminhos dos brasileiros

O sorteio das chaves deixou alguns brasileiros em aperto logo no começo e outros, com melhores condições.

Peso ligeiro: Felipe Kitadai sai de bye e estreia nas oitavas-de-final, mas pode pegar de cara a pedreira sul-coreana Kim Won-Jin, vice-campeão asiático. Já Sarah Menezes deve alcançar a semifinal. Ela estreia contra uma cazaque, depois deve pegar uma boa norte-coreana e fechar a chave A contra Laetitia Payet, bronze no campeonato europeu, todas adversárias “vencíveis”.

Peso meio-leve: Luiz Revite terá o desprazer de estrear contra o sul-coreano Cho Jun-Ho, bronze olímpico em 2012. Se passar, pega o vencedor do combate entre um japonês e um chinês. Vida dura para ele. Na mesma categoria, Charles Chibana não deverá encontrar problemas até as quartas-de-final. Entre as mulheres, Erika Miranda deve disputar a vaga na semifinal contra a russa campeã europeia Natalia Kuziutina. Já Eleudis Valentim, se passar pela argentina na estreia, encara a japonesa Yuki Hashimoto, que venceu duas etapas do Grand Slam neste ano.

Peso leve: Bruno Mendonça caiu na chave de um medalhista europeu e um campeão europeu júnior, mas há muito equilíbrio até a semifinal. Rafaela Silva não deverá ter dificuldade de alcançar as quartas, quando pode pegar a campeã europeia Telma Monteiro. Ketleyn Quadros tem uma medalhista mundial no caminho até a semifinal.

Peso meio-médio: Victor Penalber tem o campeão asiático Suk-Woong Hong no caminho até a semifinal, além do brasileiro naturalizado libanês Nacif Elias. Boa chance de passar. No feminino, Katherine Campos pega uma holandesa cabeça-de-chave na segunda luta e caiu na chave com várias medalhistas europeias e a bronze olímpica Gévrise Émane. Não deve ir longe.

Peso médio: Eduardo Santos deu sorte e não tem nenhum oponente cascudo até as quartas, quando pode bater de frente com o ex-campeão mundial e europeu Varlam Liparteliani, da Geórgia. Maria Portela teve um ótimo sorteio. Ela deve encarar nas quartas a terceira colocada do ranking, a canadense Kelita Zupancic, atleta que já foi consistentemente batida pela brasileira.

Peso meio-pesado: Luciano Corrêa tem um francês e um georgiano, representantes de duas fortes escolas, em sua chave, mas tem capacidade para vencer e pegar uma semifinal se conseguir render o seu melhor. Renan Nunes pega o alemão Dimitri Peters, bronze nas Olimpíadas de 2012, logo na estreia. Se passar, pode pegar uma pedreira azerbaijana. No feminino, Mayra Aguiar disputará a vaga na semifinal contra a japonesa vice-campeã mundial Akari Ogata, que já a venceu algumas vezes.

Peso pesado: Rafael Silva saiu de bye e pode encarar o sul-coreano Kim Soo-Whan, campeão asiático e número 5 do mundo, nas quartas. Pelo menos ficou do lado oposto da chave em relação a Teddy Riner e só pega o titã francês numa eventual final. Com a cubana, japonesa e chinesa do outro lado da chave, Maria Suellen Altheman só deve ter a francesa Emilie Andéol, vice europeia, em seu caminho até uma final. Pelo menos uma medalha qualquer ficou mais clara para a brasileira.