Bruce Lee: a lenda do Dragão de água, parte 1

Com o anúncio da EA Sports da inclusão de Bruce Lee no jogo oficial do UFC, o historiador Pedro Lins faz uma revisão da vida de um dos precursores do MMA, o artista marcial mais famoso do mundo, sua carreira, influência e uma pergunta polêmica: como seria seu desempenho no MMA?

“Não se limite a uma forma, adapte-se e construa a sua própria e deixe-a crescer, ser como a água.

Se você colocar água num copo, ela se torna o copo; se você a coloca numa garrafa, ela se torna garrafa. A água pode fluir ou pode destruir. Seja água eu amigo.”

Bruce Lee

Bruce-Lee-UFC

A influência de Bruce Lee e sua relação com o UFC são antigas. Dana White nunca escondeu sua admiração pelo maior artista marcial do mundo, vários lutadores do UFC reconhecem a influência do astro e, nesta semana, a EA Sports anunciou a participação de Bruce Lee no jogo oficial do UFC. Ele poderá ser selecionado nas categorias galo, pena, leve e meio-médio.

O debate sobre como seria o desempenho do Dragão no octógono é antiga e extensa, entretanto, para o inicio do debate, é essencial um conhecimento prévio sobre quem foi Bruce Lee e o marco que ele representa nas artes marciais.

O início

Bruce Lee nasceu no dia 27 de novembro de 1940, em São Francisco, na Califórnia. Filho de pais chineses, mudou-se para Hong Kong aos 3 anos de idade. Lee, que tinha asma e oito graus de miopia, começou a treinar Tai Chi com seu pai durante a infância.

Bruce Lee disputando uma luta de boxe em 29 de março de 1958

Bruce Lee disputando uma luta de boxe em 29 de março de 1958

Aos 13 anos, Bruce Lee iniciou sua vida como artista marcial treinando Wing Chun, sistema de luta chinês que acredita na economia de movimentos, simplicidade da defesa pessoal e que todo movimento acrobático deve ser descartado, com o mestre Yip Man. Pelo fato de Lee ser mestiço (sua mãe não era totalmente chinesa, pois o avô materno era alemão), os alunos mais graduados se recusavam a ensiná-lo. Lee passou então a ser ensinado diretamente pelo mestre Yip Man, fato que impulsionou a sua evolução e aprendizado. O efeito colateral do preconceito foi criar um ícone, que em seus filmes denunciava o preconceito que Lee sofrera durante toda a sua vida.

Em 1956, aos 16 anos, devido ao fraco desempenho escolar, ele foi transferido para o Colégio St. Francis Xavier, onde se tornou aluno do Irmão Edward, monge, professor e técnico de boxe. Bruce Lee aprendia as técnicas com uma velocidade acima da média e tornou-se campeão de boxe em Hong Kong nos anos de 1957 e 1958.

Vida nos Estados Unidos e as aulas de kung fu

Em 1959, com 18 anos, metido com brigas de gangues, Bruce Lee se mudou para os Estados Unidos para concluir os estudos e iniciar a universidade. No mesmo ano, ele começou a dar aulas de kung fu nos Estados Unidos. Kung Fu significa “trabalho perfeito”, o conceito é de qualquer coisa que o homem faça buscando a perfeição.

Rapidamente sua fama se espalhou na região de Seattle, onde morava, e o crescimento da sua academia começou a chamar atenção da comunidade chinesa nos país, que era contra o ensino do kung fu para estrangeiros.

Em 1964, começou a se apresentar no Long Beach Internacional Karate Championship, com suas flexões de um braço, apoiado somente nos dedos polegar e indicador, vencendo lutadores de caratê com os olhos vendados e usando seu famoso soco de uma polegada. Bob Baker, voluntário para a apresentação do soco de uma polegada, disse: “eu tive que ficar em casa sem trabalhar porque a dor no peito era insuportável”. O soco tinha a distância de uma polegada e Bob Baker, deslocado pela potência do golpe, caiu sentado em uma cadeira e seguiu sendo deslocado na distância total de um metro.

Bruce Lee com seu aluno número um, Chuck Norris

Bruce Lee com seu aluno número um, Chuck Norris

Bruce saiu da apresentação com novos alunos, dentre eles Chuck Norris, que depois de treinar com Bruce Lee, tornou-se sete vezes consecutivas campeão mundial de caratê.

Por causa da apresentação em Long Beach, Lee foi convidado para um papel na série Besouro Verde, iniciando assim sua carreira como ator. Ele também conheceu e ficou amigo de John Rhee, que lhe ensinou taekwondo. Nas filmagens de Besouro Verde, o diretor pediu para diminuir a velocidade dos golpes, pois a câmera não conseguia pegar seus movimentos. Bruce Lee conseguia dar oito socos por segundo: era tão rápido que conseguia encostar dedo na sua pálpebra enquanto você piscava.

O surgimento do Jeet Kune Do

Bruce-Lee-Jeet-Kune-Do-LivroEm 1965, Bruce Lee foi desafiado por um lutador chinês, Wong Jack, representante da comunidade de seu país. O acordo dizia que caso Bruce Lee fosse derrotado, não poderia mais ensinar kung fu para estrangeiros. Lee venceu em três minutos, porém ficou extremamente insatisfeito com seu desempenho, porque acreditava que deveria ter vencido mais rapidamente. Ele começou a se questionar e concluiu que o Wing Chun, ou qualquer outra arte marcial isolada, não era suficiente para uma situação real de luta. Era necessário misturar as artes, criar o que ele chamou de “estilo sem estilo”. Assim surgiu o Jeet Kune Do.

O Jeet Kune Do criticava a ideia do artista marcial se prender a apenas um estilo, pensava que isso o limitava e o engessava. O artista marcial deve ser como a água, se adaptar ao seu adversário e às circunstâncias da luta. Se o adversário luta com golpes retos, ele luta com movimentos circulares. Se o adversário lutava na longa distância, ele encurtava a distância. Deveria ser como a água: se a água é colocada em um copo, ela se adapta à forma do copo, sem deixar de ser água. Se colocamos um obstáculo na frente da água, ela se molda e circunda o obstáculo. O Jeet Kune Do deveria ser como a água.

Bruce Lee já possuía uma bagagem extensa para a criação do “estilo sem estilo”. Antes de criar o Jeet Kune Do, os estilos praticados por Bruce eram: Wing Chun, Boxe, Jiu-jítsu, Caratê Shotokan, Savate, Esgrima, Judô, Taekwondo, Wrestling, Hapkido e Aikido. Além disso, Lee foi precursor da ideia que um lutador precisava ter um condicionamento físico acima da média.

Em 1967, ele voltou ao Long Beach International Karate Championship, realizando diversas apresentações demonstrando o Jeet Kune Do, incluindo o famoso “soco imparável” contra o campeão mundial de caratê Vic Moore. A apresentação consistia em Moore tentar bloquear um soco de Lee. Bruce deu um soco em linha reta em direção ao rosto de Moore e parou antes de atingi-lo. Ele repetiu o mesmo movimento oito vezes e Vic Moore não conseguiu bloquear o movimento em nenhuma das tentativas.

Na segunda e última parte, que será publicada no próximo sábado, a carreira no cinema, morte e legado e como Bruce Lee se sairia numa competição de MMA. Não perca!