Por João Gabriel Gelli | 25/02/2020 12:18

Nenhuma academia de MMA teve um 2019 melhor do que a City Kickboxing. A equipe ganhou muita notoriedade com Israel Adesanya e Alexander Volkanovski concluindo suas escaladas rumo ao cinturão do UFC. Por ser um time ainda pequeno, na Nova Zelândia, pouco é discutido sobre o treinador Eugene Bareman, mas seus resultados tornaram a City Kickboxing impossível de ignorar. Agora, em 2020, um novo nome começa a surgir como uma possível futura força: Brad Riddell.

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Com companheiros de treinos como Adesanya, Volkanovski, Dan Hooker e Kai Kara-France, Riddell já tinha com quem contar para entender como era a experiência de estar no UFC. A City Kickboxing tem se notabilizado por evoluir seus atletas de maneira significativa na luta em pé. Todos os lutadores se mostram capazes de executar os fundamentos básicos de forma eficiente, com um trabalho de pés qualificado e ataques em combinações, no geral. Quando isso se soma a um bom desenvolvimento no grappling – sobretudo o defensivo –, a academia tem moldado uma geração de bons atletas.

Histórico no kickboxing e começo no MMA

Riddell não foge muito do molde dos lutadores que estão sob a tutela de Bareman, mas chegou ao treinador já com um histórico longo no kickboxing. Ele começou dividindo a atenção entre a modalidade e o rúgbi, como um bom neozelandês, mas passou a focar no esporte de combate quando tinha cerca de 17 anos. Ao longo do tempo, enfrentou concorrência de qualidade, como quando venceu a lenda John Wayne Parr. Ele também entregou lutas bastante competitivas contra o Regian Eersel (campeão no ONE Championship) e Cedric Doumbé (duas vezes campeão no Glory).

Brad fez cerca de 70 lutas de kickboxing e começou a carreira no MMA em 2013, com uma vitória por nocaute. No entanto, ficou inativo até o final de 2016, quando venceu novamente. Lutou apenas uma vez nos dois anos seguintes, amargando o primeiro revés em 2018, ao ser finalizado por Abel Brites. Depois disso, o foco parece ter virado totalmente para o MMA: Riddell conseguiu três triunfos entre abril e julho de 2019, mas contra concorrência duvidosa. Assim, veio o chamado do UFC.

Brad Riddell é chamado pelo UFC

No UFC 243, escondido no card preliminar, estava o combate entre Riddell e Jamie Mullarkey, outro estreante vindo do cenário da Oceania. Apesar de serem dois lutadores desconhecidos do público presente, o duelo empolgou. Foram 15 minutos de pancadaria, que renderam um merecido bônus de luta da noite. A apresentação de Brad mostrou que é um lutador com potência, que combina bem os golpes e sabe usar o atleticismo, mas ainda está um tanto cru para o MMA. Ele mostrou algumas brechas ao se empolgar e foi derrubado em algumas ocasiões, mas controlou a luta rumo à vitória em uma decisão clara.

Eis que então chegou o evento do último sábado e Riddell foi colocado para enfrentar o bem mais experiente Magomed Mustafaev. O daguestani é uma máquina atlética, com potência para definir combates com um golpe e wrestling de qualidade, mas com uma técnica um tanto rudimentar no geral. Com o maior desafio da carreira pela frente, o neozelandês subiu de nível e mostrou que é um nome que merece atenção no peso leve. Ele dominou a luta em pé ao longo dos três assaltos, inclusive com um knockdown logo no começo do duelo.

Os momentos de sucesso do russo vieram ao travar a luta e conseguir algumas quedas. No entanto, Brad mostrou evolução defensiva, ao estar mais ciente de como evitar investidas quando estava com as costas na grade, enrolando e controlando as mãos de Mustafaev. Além disso, apesar de ter sido derrubado oito vezes, em nenhuma delas ficou preso por baixo, sempre levantando quase que de imediato. No fim das contas, foi o suficiente para que Riddell saísse vencedor por decisão dividida.

Avaliação técnica atual de Brad Riddell

Com duas vitórias no UFC, Riddell já começou a mostrar que tem potencial para crescer na divisão mais difícil do MMA. Apesar de ainda ter pouco tempo como profissional na modalidade, tem ampla experiência em esportes de combate. Seu jogo já parece estar bem moldado e o kickboxing provavelmente figura entre os melhores da categoria, o que lhe traz alguma vantagem em uma boa quantidade de confrontos. Por outro lado, como passou a se dedicar ao MMA de fato há apenas pouco mais de três anos, ainda tem muito espaço para evoluir.

Tudo indica que seu estilo geral permanecerá como o de um kickboxer potente, que gosta de pressionar e atuar próximo ao adversário. Praticamente todos os ataques são feitos com mais de um golpe e muitas das combinações são encerradas em um chute. Riddell é adepto de alternar a altura dos ataques e abre muitas brechas ao focar no corpo e nas pernas dos oponentes. Entretanto, quando dispara chutes isolados, muitas vezes acaba sendo previsível, o que rende oportunidades para que os adversários consigam entradas de quedas.

Como suas lutas no UFC já mostraram, o wrestling defensivo está evoluindo a cada passo. Antes dependente apenas do atleticismo no cenário regional, passou a um sprawl digno e exibe um quadril forte, além da capacidade de vencer na esgrima oponentes qualificados e fisicamente potentes. Contudo, a evolução não pode parar por aí. Riddell tem muito o que aprender com Israel Adesanya ao focar na trajetória de evolução.

O futuro de Brad Riddell no UFC

O fato de ainda ser um lutador de MMA razoavelmente cru e estar no auge atlético aos 28 anos colocam Brad como candidato a ser muito ativo neste começo de carreira no UFC. O ideal seria lutar pelo menos mais duas vezes nesse ano, contra concorrência que possa testar sua evolução na luta agarrada, mas com qualidade crescente. Olivier Aubin-Mercier, Arman Tsarukyan e Alexander Hernandez podem ser testes interessantes neste sentido. Outras lutas empolgantes também podem trazer mais informações sobre o neozelandês. Seria o caso de combates contra David Teymur, Drew Dober ou até Damir Ismagulov.

Não são poucos os testes possíveis no peso leve. Não importa o caminho traçado, certamente o lutador encontrará uma grande variedade de estilos e uma escalada crescente até chegar no nível mais alto. Os passos de Brad Riddell até aqui dão sinais de que ele pode alcançar este patamar. Ele apresenta a ótima combinação de atleticismo elevado, técnica apurada em pé, evolução visível na luta agarrada, a inexperiência no esporte e o fato de estar em uma das melhores academias de MMA da atualidade.

Dessa forma, tudo leva a crer que Brad pode ser o próximo nome da City Kickboxing a fazer algum barulho.