BJ Penn, Tito Ortiz e os caminhos que levam ao fim

Ex-campeões dominantes, integrantes do Hall da Fama do UFC, Tito Ortiz e BJ Penn viram a má fase chegar na aproximação dos 40 anos, mas tomaram caminhos diferentes para a aposentadoria.

Quando Tito Ortiz se aposentou pela primeira vez, no UFC 148, em julho de 2012, amargava uma única vitória desde outubro de 2006. Se considerarmos que o triunfo foi sobre o já decadente e quarentão Ken Shamrock, a seca remontava a abril de 2006, quando venceu Forrest Griffin, o mesmo último algoz no octógono. Neste intervalo de seis anos e três meses, apenas a vitória sobre Ryan Bader, em 2011, considerada uma das maiores zebras da década. De resto, sete derrotas e um empate. Sinal claro que o fim havia chegado.

BJ Penn vive uma fase semelhante. Desde dezembro de 2009, quando surrou Diego Sanchez no UFC 107, na terceira defesa do cinturão do peso leve, o havaiano venceu apenas uma vez, contra o já decadente e quase quarentão Matt Hughes. De resto, seis derrotas e um empate em sete anos. Sinal claro que o fim chegou. Ortiz tinha 37 anos quando perdeu no UFC 148. Penn foi derrotado por Yair Rodríguez aos 38.

As semelhanças não param por aí. Até a chegada de Jon Jones, Tito era dono do mais longo reinado da história dos meios-pesados do UFC. Já Penn viu Frankie Edgar e Ben Henderson igualarem seu recorde de três defesas consecutivas entre os leves, marca que perdura até hoje. Por causa disso, mas não somente por isso, ambos integram o Hall da Fama do UFC.

Neste primeiro mês de 2017, com seis dias de intervalo, Penn e Ortiz voltaram à ação, o primeiro no UFC Fight Night 103, o segundo no Bellator 170. No entanto, as semelhanças param por aqui.

BJ Penn foi maltratado por Yair Rodríguez em sua última aparição no UFC, na semana passada (Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC)

BJ Penn foi maltratado por Yair Rodríguez em sua última aparição no UFC, na semana passada (Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC)

Curado do problema no pescoço que o tirou do posto de comandante do TUF 11 e o incomodou nas lutas finais no UFC, Ortiz resolveu largar a aposentadoria quando aceitou o convite de Scott Coker para integrar o Bellator, em 2014. No cage circular, ele voltou a surpreender quando finalizou o ex-campeão dos médios Alexander Shlemenko, em maio. A vitória garantiu novo compromisso, contra Stephan Bonnar, em novembro. Poucos pareciam se incomodar com o fato de Shlemenko aparentar ser de duas categorias abaixo e que o duelo contra Bonnar tenha sido horrível. Afinal, uma lenda voltava a vencer. Duas vezes seguidas.

Como prêmio, Ortiz foi agraciado com a chance de desafiar o título de Liam McGeary. A empreitada acabou trancada num triângulo invertido do então campeão. Ninguém achou a derrota vergonhosa, já que McGeary era considerado digno de aparecer no top 15 do UFC. Ortiz tinha chegado até longe demais.

O “Bad Boy de Huntington Beach” entendeu que, se ainda quisesse lutar, o palco não poderia mais ser o octógono mais famoso do mundo – até mesmo porque a relação dele com Dana White não é das melhores há muitos anos. O momento de parar é uma decisão pessoal e é direito de qualquer pessoa achar que tem condição de seguir desempenhando sua profissão, mesmo que, no caso, a profissão cause danos físicos que podem ser irreparáveis se forem estendidos além da conta.

BJ está entrando no mesmo momento que Tito viveu entre perder para Griffin e voltar no Bellator. Porém, a situação do havaiano é pior do que era a do californiano. Apesar dos massacres sofridos contra Rashad Evans e Rogério Minotouro, há quem diga que Ortiz venceu Griffin. Ninguém acha que Penn venceu alguma das últimas quatro lutas, já que ele foi espancado pelo “Pantera”, por Edgar, por Nick Diaz e Rory MacDonald. Outra diferença grave foi a escolha das categorias de BJ, ora um nanico como meio-médio, ora um peso pena sem compleição muscular.

Ninguém mais aguenta ver Penn apanhar. Os fãs mais novos devem estranhar quando leem sobre o passado glorioso de um dos mais talentosos lutadores que o MMA já produziu. Os mais antigos, com as boas memórias ainda vivas, se entristecem com o que BJ vem fazendo à própria reputação.

BJ Penn atropelou Sean Sherk numa cena que já foi comum no MMA

BJ Penn atropelou Sean Sherk numa cena que já foi comum no MMA

Estivesse eu no lugar de Penn e já teria tomado a decisão de parar. Porém, o primeiro totalmente não-brasileiro campeão mundial de jiu-jítsu na faixa preta parece ter um espírito de guerreiro dentro de si que sempre quer mais uma. Ele não precisa de dinheiro, nunca precisou. Nada do que ele faça apagará as glórias conquistadas. O que o move parece mesmo ser esse tal de espírito, que mais tem parecido um encosto.

Já que ele não quer parar, alguém precisa convencer BJ que o UFC não é mais o seu lugar. Ao contrário disso, o treinador Jason Parillo disse que seu pupilo ainda quer disputar mais uma luta no octógono. Chega a me dar desespero. Imagine se o matchmaker Sean Shelby voltar com a esdrúxula ideia de confrontá-lo com Ricardo Lamas, um erro que a loucura de Rodrigo Duterte impediu de acontecer nas Filipinas. Alguém duvida que BJ aceitaria novamente? Eu não.

Depois de perder para McGeary, Ortiz decidiu que era hora de parar. De vez. Agendou uma luta contra alguém em condições físicas e técnicas semelhantes às suas – Chael Sonnen está a poucos meses de completar 40 anos e não lutava desde novembro de 2013. O combate, que marcou a estreia do “Gângster de West Linn” no Bellator, tinha ainda um ingrediente de revanche, já que Sonnen, quando defendia a University of Oregon, subiu de categoria e venceu Ortiz, da California State University de Bakersfield, por encostamento em 44 segundos, na Divisão I da NCAA, em 1998.

Depois de muita provocação na promoção da luta e das baixarias que Sonnen e Ortiz são especialistas em produzir, o final. O combate em si foi tosco, a finalização, com direito a segurar o estrangulamento além da conta, foi mais ainda, mas Tito conseguiu vingar sua derrota no wrestling diante de seus conterrâneos, com o filho deixando suas luvas no centro do octógono e o mundo do MMA agradecido pelos serviços prestados ao longo de 20 anos de carreira. A saída de cena de Ortiz não foi a melhor, mas pelo menos ele para com retrospecto recente de 3-1 em vez do 1-7-1 de 2012.

Bem mesmo fez Georges St. Pierre, que se aposentou quando virou o lutador que mais venceu na história do UFC, atingindo a segunda maior marca de defesas consecutivas. Parou como campeão e número um do mundo. Só que isso é raro. Lembro de Pete Sampras pendurando a raquete após conquistar o US Open, em 2002. Ou Floyd Mayweather Jr., recentemente aposentado do boxe com 49-0, mesma marca de Rocky Marciano. Ou ainda John Elway, Ray Lewis e Peyton Manning, que largaram o futebol americano com uma vitória no Super Bowl, assim como David Robinson e Bill Russell na NBA. Jim Brown deixou o esporte da bola oval ocupando o posto de melhor jogador da NFL. Mark Spitz saiu das piscinas logo após conquistar sete medalhas de ouro e recordes mundiais nos Jogos Olímpicos de 1972. A lista não deve ir muito além disso.

Afinal de contas, uma vez disse Harvey Dent:

“Ou você morre como um herói ou vive o bastante para se tornar o vilão.”

As luvas de Tito Ortiz foram deixadas no cage circular, indicando sua aposentadoria (Foto: Dave Mandel/Sherdog.com)