Por Edição MMA Brasil | 13/12/2018 09:59

Dose dupla para encerrar a temporada 2018 da segunda maior organização do MMA mundial. O Bellator MMA vai ao Havaí pela primeira vez na sexta e no sábado, na bela Neal S. Blaisdell Arena, na capital Honolulu, para o Bellator 212 e Bellator 213.

O evento de sexta será liderado pela revanche valendo o cinturão dos leves após o bizarro final do primeiro encontro, quando o atual campeão Brent Primus tirou o título de Michael Chandler. No dia seguinte, será a vez da local Ilima-Lei Macfarlane colocar a coroa do peso mosca em jogo contra a ex-UFC Valérie Létorneau.

Outros confrontos interessantes foram marcados para o evento de sábado. O ex-campão do UFC Lyoto Machida faz sua estreia no cage circular contra o compatriota e antigo rei dos médios, Rafael Carvalho. Antes, dois confrontos da velha rivalidade wrestling contra jiu-jítsu terá vez: os prospectos Ed Ruth e Neiman Gracie sobem ao cage logo após o encontro dos veteranos King Mo Lawal e Liam McGeary.

O início dos cards principais de ambos os eventos está marcado para as 1:00h da manhã, com a transmissão ficando a cargo da Fox Sports, que ainda precisa confirmar os horários em sua programação.

Cinturão Peso Leve: Brent Primus (EUA) vs. Michael Chandler (EUA)

Por Matheus Costa

Na revanche do duelo que foi atrapalhado por uma lesão do então campeão, Brent Primus e Michael Chandler farão a luta principal do Bellator 212 com o cinturão dos leves em jogo e trazendo uma rivalidade que se criou por um acaso do destino.

Faixa preta de jiu-jítsu, Brent Primus (8-0 no MMA, 6-0 no MMA) é um lutador que sempre teve certo potencial, mas a falta de frequência de lutas acabou atrapalhando o desenvolvimento de suas habilidades. Hoje, aos 33 anos, Primus costuma mostrar sempre certa melhora em seu jogo, mas a margem de evolução não é mais tão e, como possui o cinturão em seu ombro, o nível de competição será o maior possível naquilo que a categoria dos leves do Bellator pode oferecer. Nesta ocasião, Primus enfrentará o melhor lutador da categoria.

Especialista na luta agarrada, Primus tem um arsenal de quedas subestimado e boa habilidade clinch, seja para golpear ou principalmente para buscar a luta para o chão. Primus se destaca por ser um grappler de ótimo controle posicional e por realizar raspagens com excelência, já que mostra ótima capacidade trabalhando por cima de seu oponente. Em pé, o campeão evoluiu seu jogo de trocação, usando principalmente o boxe para se tornar um trocador de mão pesada e que gosta de aplicar pressão na hora de golpear, com um bom ritmo. No primeiro confronto, Primus buscou minar a movimentação de Chandler desde o início usando chutes baixos, e essa estratégia deve ser repetida na noite de sexta.

Por falar em especialista na luta agarrada, Michael Chandler (18-4 no MMA, 15-4 no Bellator) chega sorrindo na conversa. Um dos melhores lutadores do mundo que não tem contrato com o UFC, Chandler foi quatro vezes All-American e wrestler da divisão 1 da NCAA, e isso já é o suficiente para mostrar o seu gabarito no grappling. Duas vezes campeão na categoria, Chandler buscará assumir seu terceiro reinado na organização, além de bater o recorde de somar sua décima disputa de cinturão na organização – mais do que qualquer outro lutador. No auge de sua forma física e técnica, Chandler evoluiu bastante seu jogo nos últimos tempos, principalmente em pé, onde foi moldado por Henri Hooft, que o fez de um wrestler de mãos pesadas à um ótimo boxeador.

Bastante agressivo e dono de uma pressão avassaladora, Chandler não costuma ser muito paciente e isso pode lhe custar muito contra um estrategista como Primus. Em pé, ele é um trocador bem acima da média e possui um poder de nocaute insano, além de se movimentar com muita fluidez e agilidade, o que ajuda na hora de criar ângulos. Sua explosão é um ponto a se destacar, pois Chandler consegue produzir ótimas combinações em instantes. Dono de um wrestling excepcional, Michael controla muito bem seus adversários por cima, aplicando um forte ground and pound. Recentemente, Chandler mostrou evolução no jogo de finalizações, mandando Brandon Girtz pra vala.

Brent Primus vs Michael Chandler odds - BestFightOdds
 

Chandler precisa dosar sua agressividade, por vezes desnecessária, para não se exceder e ser surpreendido como já aconteceu em algumas vezes. Primus tentará contê-lo desde o primeiro minuto na longa distância, usando chutes para minar a movimentação de alto padrão do desafiante da noite, além de focar no uso de contragolpes. Acredito que o campeão terá dificuldades em conter o ímpeto de Chandler, que por sua vez, deve impôr seu jogo na curta distância e tentar trocar no pocket.

A tendência é que Primus não consiga levar a luta para o chão e que o combate se desenvolva em pé, onde Chandler é melhor e mais técnico. Por mais que também seja superior no chão, o desafiante não deve precisar de seus gabaritos na ocasião. A aposta fica no nocaute de Michael Chandler, que pode acontecer entre o segundo e terceiro round.

Cinturão Peso Mosca: Ilima-Lei MacFarlane (EUA) vs. Valérie Létourneau (CAN)

Por Thiago Kühl

Ilima-Lei Macfarlane (8-0 no MMA, 7-0 no Bellator) tem feito uma boa caminhada no evento. Contratada do Bellator desde 2015, a havaiana tratou de vencer todas as suas sete lutas na organização e se tornar a campeã inaugural da categoria, vencendo Emily Ducote pela segunda vez na carreira e conquistando o segundo cinturão mais importante do MMA.

Macfarlane evoluiu bastante durante os últimos anos. Na primeira parte de sua carreira o que se via era uma lutadora com bastante vontade, mas com um striking totalmente rudimentar, jogo de quedas de muita força e sem tanta técnica, além de um jogo de chão finalizador, mas sem muita finesse. Nas últimas lutas, a havaiana tem conseguido usar a trocação com mais técnica, o que permite uma melhor utilização do jogo de pressão e de seu grappling, que parece cada vez mais bem ajustado e perigoso. A campeã possui faro de finalização, tendo vencido cinco de suas últimas seis lutas após a adversária dar os três tapinhas.

Valérie Létorneau (10-6 no MMA, 2-0 no Bellator) conta com muito mais experiencia que sua adversária. Ex-desafiante do UFC, a canadense sofreu nas mãos da então campeã Joanna Jedrzejczyk, quando até conseguiu dar algum trabalho para a polonesa no primeiro round, mas acabou apanhando pelo resto do combate de forma inapelável. Após três derrotas seguidas, ela acabou dispensada pelo UFC e foi contratada por Scott Coker para lutar pelo cinturão inaugural do peso mosca, contra Ducote, mas teve que se retirar da luta por conta de uma lesão.

Létourneau é especialista no kickboxing, tem um ótimo controle de distancia e consegue imprimir bom volume de golpes. Muito precisa, tem como característica de fazer tiro ao alvo com lutadoras muito afobadas, principalmente se utilizando de combinações de mão e chutes altos, desferidos em alto volume. Ainda em pé, quando chega ao clinch, possui joelhadas bastante potentes. O grappling defensivo é melhor que o ofensivo, seja nas quedas ou em finalizações. Seu jiu-jítsu – que é bom o suficiente para incomodar desavisadas – não deverá ser uma arma muito útil neste sábado.

Ilima-Lei Macfarlane vs Valerie Letourneau odds - BestFightOdds
 
 

Mesmo com o dobro de lutas na carreira que a campeã e experiência no nível mais alto do MMA, Létourneau chega para a sua segunda disputa de cinturão com desvantagem nas casas de apostas, o que se justifica pelo bom retrospecto de sua oponente. Por outro lado, Ilima-Lei nunca enfrentou concorrência do nível da canadense, seja em termos de experiência ou técnicos.

Num confronto de estilos, a luta se mostrará favorável para aquela que conseguir colocar seu jogo em ação. A melhor versão da canadense tem armas suficientes para conseguir manter a distância da havaiana e evitar a pressão, marcando o rosto de Macfarlane com seus precisos golpes. Por outro lado, vimos recentemente Viviane Sucuri – muito menor que a campeã – conseguir vencer a canadense justamente fazendo um jogo de pressão. Apostando que a melhor Valérie não aparecerá nesta sexta, apostamos em vitória de Ilima-Lei por decisão ou uma finalização tardia.

Peso Médio: Lyoto Machida (BRA) vs. Rafael Carvalho (BRA)

Por Idonaldo Filho

Lyoto Machida

Tendo sido campeão em 2009 e com um estilo único de luta único, Lyoto Machida (24-8 no MMA, 0-0 no Bellator) marcou época no UFC mas, aos 40 anos de idade, decidiu respirar novos ares. E se engana quem acha que Lyoto está em má fase. Mesmo não sendo nem de perto o lutador que no auge destruía um por um na categoria com contragolpes fatais, Machida vem de duas vitórias consecutivas. Uma controversa veio em decisão sobre Eryk Anders, mas outra inapelável, em um nocaute que foi um ótimo desfecho para o fim de sua carreira no UFC, contra Vitor Belfort.

Se você perguntar para alguém sobre o karatê no MMA, altas são as chances de te falarem sobre Lyoto Machida. O brasileiro é conhecido pela ótima adaptação que fez de sua arte marcial da família ao MMA. A base aberta, os chutes extremamente perigosos, e os contragolpes fulminantes e rápidos faziam de Lyoto um dos melhores lutadores em seu auge. O problema para o seu próximo combate é que aos 40 anos, mesmo estando bem conservado para a sua idade, os reflexos e a velocidade não são os mesmos de outrora e, como o jogo de karatê era muito baseado nisso, seu desempenho obviamente caiu. Lyoto também mostrou que sua absorção de golpes hoje é questionável, quase sempre apagando quando sofreu nocautes, o que é preocupante. Mas seu cardio e técnica ainda estão lá, e o paraense ainda tem capacidade para se dar bem na rasa categoria dos médios do Bellator.

Rafael Carvalho

Acredito que o Bellator não imaginava que Rafael Carvalho (15-2 no MMA, 6-1 no Bellator) se tornaria campeão do evento ao efetuar sua contratação. Desconhecido do cenário internacional e tendo feito lutas somente em eventos nacionais, em 2014 ele recebeu o chamado de Scott Coker e, chegando na organização, venceu duas lutas e logo conquistou o título do peso médio contra o (na época) hypado Brandon Halsey, acertando uma bicuda monstruosa no fígado do americano.

Duas de suas defesas posteriores foram contra o temido nocauteador, que ultimamente anda mais sendo nocauteado, Melvin Manhoef. A primeira foi uma das lutas mais chatas já vistas, e a segunda ia pelo mesmo caminho até o carioca conseguir um belo nocaute. Depois de uma vitória em uma inexplicável luta contra Alessio Sakara, ele teve que botar seu cinturão a jogo contra Gegard Mousasi e, bem… foi atropelado pelo homem de mil nacionalidades.

Carvalho não é um lutador que imprime um bom volume de golpes, mas possui muito poder de nocaute. Como atleta que veio do muay thai, seu clinch também é muito temido. A sua trocação se baseia em pouco uso das mãos, mas sim dos chutes baixos e na cabeça, além também das cotoveladas quando o oponente se aproxima. Ele tem a tendência de muitas vezes passar por momentos de inatividade, buscando sempre usar contragolpes. O brasileiro não é lá muito bom no chão, não oferecendo muita resistência a transições, tendo sido facilmente dominado por Gegard Mousasi no tablado em sua última luta.

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Não garanto que esta será uma luta boa, já que ambos os lutadores por muitas vezes não tomam a ação do combate e Rafael, principalmente, não imprime um volume de golpes decente. Acho até que o duelo pode chegar a ser bastante chato caso não tenhamos um nocaute. Como é mais veloz, mais novo e mais inteiro, imagino que Rafael Carvalho vai conseguir acertar Lyoto, nocauteando o Dragão no terceiro assalto e frustrando a estréia da lenda brasileira.

GP Peso Meio-Médio: Neiman Gracie (BRA) vs. Ed Ruth (EUA)

Por Alexandre Matos

Levou um ano e meio entre Ruth (6-0 no MMA, 6-0 no Bellator) assinar contrato com o Bellator e finalmente fazer sua estreia não só na organização, mas no MMA profissional. A espera vem sendo justificada com uma coleção de corpos machucados largados pelo caminho, em cinco nocautes e uma decisão por espancamento. Na apresentação mais recente, bateu em Andy Murad até o estourar do gongo no segundo assalto, em sua primeira luta como meio-médio.

Ruth foi um dos craques do wrestling americano que o Bellator contratou em grupo para desenvolver na organização. Pela poderosa Penn State University, Ed foi tricampeão da Divisão I da NCAA, depois de terminar em terceiro em seu ano de estreia, em 2011. Em 2014, foi chamado por Jon Jones para treiná-lo para o primeiro duelo contra Daniel Cormier. Ali nasceu a amizade com o astro e o gosto pelo MMA.

Velocidade e explosão nas entradas de queda, além de uma incrível facilidade de derrubar de qualquer posição, são as características que mais se destacam no jogo de Ruth no MMA. Muito forte fisicamente, ele aplica ground and pound que parece perfurador de petróleo, além de já exibir algumas transições bastante justas no solo – ele foi medalhista pan-americano na faixa azul de jiu-jítsu e costuma competir de pano. Em pé, é forte como um búfalo especialmente nas joelhadas no corpo ou nos diretos e cruzados que ainda se desenvolvem, mas saem com potência elevada.

Da geração atual dos Gracie que chegou ao MMA nos últimos anos, Neiman (8-0 no MMA, 6-0 no Bellator) é o melhor dele. Se Ruth coleciona nocautes, o neto de Carlos Gracie junta finalizações na carreira profissional. Até o momento, cinco bateram no pescoço e outros dois no braço.

Nem é preciso falar da qualidade do sobrinho de Renzo Gracie no solo. Gracie começou sua formação na Gracie Barra e terminou em Nova York, com o tio. Ele é um grappler altamente agressivo, que tem muita facilidade em pegar as costas e consegue emendar tentativas de finalização até estabelecer uma posição da qual o rival não consiga sair. Porém, o que o diferencia de outros praticantes da arte suave é o jogo de quedas mais desenvolvido que o normal. Neiman tem se mostrado mais à vontade em pé, passando a usar mais os chutes e criando boa postura no boxe.

Ed Ruth vs Neiman Gracie odds - BestFightOdds
 

Mais um capítulo da velha rivalidade Brasil x Estados Unidos, jiu-jítsu contra wrestling, traz à tona o atual estágio do desenvolvimento do MMA.

Como dito, a destreza nas quedas faz com que o jogo de chão de Neiman seja otimizado. Porém, esta definitivamente não é uma possibilidade para sábado. A base de equilíbrio de Ruth é muito forte e isso torna virtualmente impossível que o brasileiro derrube o americano. Por outro lado, a sagacidade de Neiman no chão também é um perigo para o atual estágio de (in)experiência de Ruth. Portanto, Ed deve ditar onde a luta vai se conduzir – e provavelmente ele o fará em pé. Mesmo que Neiman venha evoluindo no striking, a potência e a velocidade de Ruth devem abrir caminho para mais um nocaute do americano.

Peso Meio-Pesado: King Mo Lawal (EUA) vs. Liam McGeary (ING)

Por Alexandre Matos

Outro confronto no tema wrestling contra jiu-jítsu será a primeira atração de impacto do Bellator 213. O ex-campeão do Strikeforce Muhammed “King Mo” Lawal (21-7 no MMA, 10-5 no Bellator) encara o antigo dono do cinturão do Bellator Liam McGeary (12-3 no MMA, 9-3 no Bellator).

Nenhum dos dois vive a melhor fase da carreira. Desde que perdeu a invencibilidade e o cinturão para Phil Davis, McGeary só venceu uma em quatro lutas – foi finalizado por Linton Vassell e levou uma sacolada de bicas nas pernas de Vadim Nemkov. Já King Mo está em gangorra, variando resultados nos seis combates mais recentes. Nos últimos, vingou uma roubalheira contra Rampage Jackson e foi nocauteado em 15 segundos por Ryan Bader.

Tricampeão do US Open, campeão pan-americano e vice da Copa do Mundo de wrestling, King Mo é um exímio derrubador que, de tanto largar de mão suas origens para sair na porrada, acabou enferrujando no tempo de entrada. O lutador que antes botava qualquer um para baixo agora sofre mais que o necessário forçando os oponentes contra a grade. Em pé, tem pegada para derrubar dinossauro, mas não combina muito bem os golpes e ainda se expõe a contragolpes. No entanto, o ground and pound é um dos mais assombrosos do MMA atual.

Gigantão, McGeary faz ótimo uso das pernas de flamingo, enormes e finas, para infernizar a vida dos adversários quando está na grade. Porém, este jogo costuma ter problemas contra oposição que saiba atuar no controle posicional com ground and pound. Em pé, Liam é desajeitado e faz o que pode para encurtar e chegar ao chão.

Liam McGeary vs Muhammed Lawal odds - BestFightOdds
 

Este combate será engraçado. Assim como Neiman terá dificuldade para derrubar Ruth, McGeary deve passar longe de botar King Mo para baixo sem que o americano passe por baixo de suas pernas. Em compensação, o baixinho Lawal terá que socar para cima a fim de alcançar o queixo do britânico lá no quarto andar, o que vai diminuir o impacto de seus golpes.

Dadas as fases complicadas de ambos, a previsão é uma luta monótona, com Lawal esmagando McGeary contra a grade e eventualmente chapando-o no solo, pressionando-o contra a tela. Dali pode sair um nocaute técnico, mas o mais provável é que King Mo saia triunfante na leitura das papeletas dos juízes.