Por Edição MMA Brasil | 25/04/2019 17:20

Na briga com o maior rival, o Bellator apostou alto e pode colher os frutos. Batendo de frente com o UFC no sábado, o Bellator 220 traz um card principal mais atrativo que o do líder do mercado. O evento, com duas disputas de cinturão, acontecerá no SAP Center, em San Jose, Califórnia.

Liderando a noite, Rory MacDonald coloca o título dos meios-médios em jogo contra o também ex-desafiante do UFC Jon Fitch. O confronto vale ainda vaga na semifinal do GP da divisão. A outra disputa de cinturão envolve a campeã do peso mosca, Ilima-Lei Macfarlane, contra Veta Arteaga.

Em busca da terceira vitória seguida no peso leve, o ex-campeão do UFC Ben Henderson tenta impedir que Adam Piccolotti chegue ao mesmo retrospecto recente. Pelo meio-pesado, Liam McGeary tenta a vingança contra Phil Davis, que lhe tirou o cinturão. Abrindo o card principal, Gaston Bolanos enfrenta Nathan Stolen.

O Bellator 220 terá as lutas acima transmitidas pelo FOX Sports, estando marcado para se iniciar às 23:00h, no Horário de Brasília.

Cinturão Peso Meio-Médio: C Rory MacDonald (CAN) vs. Jon Fitch (EUA)

Por Alexandre Matos

Quando trocou o UFC pelo Bellator, MacDonald (20-5 no MMA, 2-1 no Bellator) ainda era reconhecido por muitos como o melhor meio-médio do mundo, embora os resultados recentes não fossem os melhores. A expectativa de passear no cage circular não se materializou. Embora seja o campeão da divisão, o canadense só teve vida fácil na estreia diante de Paul Daley. Douglas Lima lhe deu muitos problemas na conquista do cinturão e, quando tentou o título dos médios, foi atropelado por Gegard Mousasi.

Uma série de atributos fez de MacDonald o número um. Ele é basicamente capaz de fazer de tudo num cage. Seu controle de distância é magistral às custas de uma produção constante de socos e chutes alongados. Sabe ser hiper agressivo quando está no pocket e consegue sair dali para quedas com muita propriedade. No solo, pode tanto aplicar um ground and pound violento ou controlar os oponentes em busca de uma brecha para finalizar. Os sete nocautes e sete submissões representam esse equilíbrio. O “Red King” é ainda taticamente muito inteligente e dono de um sistema defensivo bastante sólido.

Com tantas qualidades, por que MacDonald não chegou ao cinturão do UFC e vive sequência recente de 2-3? A resposta atende por Robbie Lawler. A guerra de proporções bíblicas com o então campeão, no UFC 189, foi tão intensa que dá a impressão que MacDonald jamais se recuperou inteiramente, tendo inclusive se tornado fisicamente mais frágil.

Alguns anos antes, Fitch (31-7-1 no MMA, 1-0 no Bellator) traçou percurso parecido com o do rival de sábado. O americano só não alcançou o posto de número um porque esbarrou no maior de todos os tempos. Desde que levou a bota do UFC, ele venceu sete de nove, conquistando o cinturão do WSOF/PFL no caminho. Neste momento, Fitch ostenta cinco vitórias seguidas, contando com a estreia no Bellator, também contra Daley.

As semelhanças com MacDonald não passam muito de uma série grande de vitórias no UFC e a chance de disputar o cinturão. Em relação a estilo, eles são praticamente a antítese um do outro. Fitch tem dificuldade de sustentar longos períodos de troca de golpes em pé sem precisar encurtar para o clinch. No duelo corpo a corpo, contudo, Jon atinge seu máximo. O clinch é sufocante, assim como o controle posicional. Se o oponente lhe der trabalho, ele responde à altura e consegue fazer duelos bastante animados no solo. Porém, quando domina o oponente, o nível de entretenimento costuma desabar. Melhor para ele, que, aos 41 anos, consegue estender a carreira e a saúde sendo pouco acertado na cabeça.

Jon Fitch vs Rory Macdonald odds - BestFightOdds

Acontecesse este duelo há quatro anos, eu diria que Fitch venceria apenas num lance de sorte ou contando com uma noite muito infeliz de MacDonald. Ainda acho que o canadense é muito favorito, mas sua condição física diminui um pouco a vantagem.

Caso MacDonald consiga produzir ofensivamente em pé, o combate tende a ser desigual, com o campeão fazendo tiro ao alvo e aplicando dibres num americano desesperado para derrubar. Mesmo se conseguir grudar, é pouco provável que Fitch complete uma queda. Em resumo: se MacDonald perder, nunca mais aposto a favor dele em alto nível. A aposta é que o “Red King” mantenha o cinturão varrendo os rounds.

Cinturão Peso Mosca: C Ilima-Lei Macfarlane (EUA) vs. Veta Arteaga (EUA)

Por Thiago Kühl

Ilima-Lei Macfarlane (9-0 no MMA, 8-0 no Bellator) tem feito uma boa caminhada no evento. Contratada do Bellator desde 2015, a havaiana tratou de vencer todas as suas oito lutas na organização e se tornar a campeã inaugural da categoria, vencendo Emily Ducote pela segunda vez na carreira e conquistando o segundo cinturão mais importante do MMA em 2017. Em sua primeira defesa, finalizou Alejandra Lara e, em sua última aparição no cage circular, fez ótima luta contra a veterana Valérie Létorneau e chegou a mais uma submissão – a sexta na cartel – se consolidando após vencer o maior desafio da carreira.

Macfarlane evoluiu bastante durante os últimos anos. Na primeira parte de sua carreira, o que se via era uma lutadora com bastante vontade, mas com um striking totalmente rudimentar, jogo de quedas de muita força e sem tanta técnica, além de um chão perigoso, mas sem muita finesse. Nas últimas lutas, a havaiana tem conseguido usar a trocação com mais técnica, o que permite uma melhor utilização do jogo de pressão e de seu grappling, que parece cada vez mais bem ajustado e perigoso. O estilo “tratorzinho” de Ilima-Lei tem se mostrado bem eficiente, a vontade e a pressão imprimida suprem suas deficiências, principalmente na trocação, transformando-na naquele tipo de lutadora que, para ser batida, forçará alguém a navegar em águas profundas.

Veta Arteaga (5-2 no MMA, 4-2 no Bellator), assim como sua adversária, fez apenas uma luta fora do Bellator – nos seis combates na organização, suas duas derrotas vieram de decisões divididas apertadas. Em sua última luta, conseguiu uma finalização por guilhotina em pé em cima da kickboxer Denise Kielholtz, aplicada na base exclusiva da grosseria.

Arteaga tem muita vontade, força e nenhum medo de sofrer dano. Adora transformar seus combates em pancadaria, momentos em que consegue colocar seu bagunçado – mas muito potente – boxe para funcionar. Vence muito na base da grosseria e do peso das mãos, entretanto,é sempre bom lembrar que essas vitórias vieram contra concorrência bem menos qualificada do que terá no sábado. No lado do grappling, depende ainda mais da força, sem quase técnica alguma, tem dificuldade para defender quedas – principalmente se aplicadas da grade para o centro do cage – e, uma vez no chão, cede posições e permite que adversárias mais versadas na arte suave peguem as costas com muita facilidade, sendo surpreendente o fato de nunca ter sido finalizada.

Ilima-Lei Macfarlane vs Veta Arteaga odds - BestFightOdds

A diferença técnica é gritante para o lado da campeã que, se no passado foi bem menos técnica, evoluiu o suficiente para impor o jogo de pressão e conseguir dominar os combates. Além disso, o condicionamento físico da havaiana e sua maior experiencia em lutas de cinco rounds devem facilitar o trabalho para que consiga manter o cinturão. Do lado da desafiante, a possibilidade reside em evitar quedas com uma movimentação que nunca mostrou ter, transformar a luta em uma pancadaria nos dez primeiros minutos e torcer para conseguir causar dano suficiente para conseguir o nocaute ou desgastar muito Macfarlane.

Eu não vejo o segundo cenário acontecendo. Até consigo imaginar Arteaga e Ilima-Lei trocando por alguns momentos no início da luta, mas dificilmente a campeã deixará a luta se desenrolar por ali, chegando a queda e a finalização ainda nos primeiros dez minutos de luta.

Peso Leve: Ben Henderson (EUA) vs. Adam Piccolotti (EUA)

Por Bruno Costa

Ben Henderson (26-8) chegou ao Bellator valorizado após duas boas vitórias como peso meio-médio e carregando o histórico de ex-campeão do peso leve, com direito a três defesas de cinturão, no UFC. Cansado da rotina do corte de peso frequente, Henderson decidiu iniciar a caminhada na nova casa como meio-médio e foi escalado contra Andrey Koreshkov, que lhe aplicou impiedosa surra.

Uma atuação pobre no retorno ao peso leve contra Patricio Pitbull acabou virando vitória por uma lesão fortuita do brasileiro, e rendeu o direito de disputar o título da categoria contra Michael Chandler. Mais uma vez saiu derrotado do cage e sem apresentar perigos maiores ao campeão. Contra Patricky Pitbull, não conseguiu mesclar as ações como costumava fazer em suas lutas, mas teve redenção a vencer Roger Huerta e Saad Awad, adversários de nível pouco adequado para testar o real estágio de Benson.

Outrora um lutador de ótimo ritmo de luta, bom chutador, excelente no clinch com capacidade de quedas e muito bom controle posicional, além da consciência tática beirando à perfeição, Henderson deixa margem para dúvidas sobre a capacidade de exercer com a mesma competência o jogo do passado.

Adam Piccolotti (11-2 no MMA) pintou como projeto de estrela criada em casa pelo Bellator ao conquistar quatro vitórias consecutivas em seus primeiros combates pela organização. Três finalizações por mata-leão demonstraram o ótimo instinto de finalização do lutador baseado em San Jose e que treina com frequência na AKA. Brandon Girtz foi o primeiro oponente mais reconhecido a ser derrotado por Piccolotti, que controlou a agressividade do adversário nos rounds iniciais e, mesmo sendo derrotado na última parcial, saiu vitorioso na ocasião. As derrotas para Goiti Yamauchi e David Rickels frearam a ascensão expondo falhas defensivas e a dificuldade de utilizar o wrestling ofensivo contra competição de nível qualificado.

“The Bomb” é faixa preta de jiu-jítsu e tem no oportunismo do jogo ofensivo da luta agarrada a melhor de suas qualidades. Na troca de golpes, ataca basicamente com golpes em linha reta e, embora até utilize com boa frequência chutes baixos e joelhadas se aproveitando da boa envergadura, deixa a desejar pela falta de velocidade e potência dos golpes. Necessita de melhoras defensivas, principalmente no grappling e por se deixar ser encurralado por adversários que aliam alguma técnica a agressividade.

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Uma vez que é difícil contar com a possibilidade de finalizar o adversário, Piccolotti precisaria de controle de distância com movimentação frequente bem executada para sair vitorioso contra o experiente adversário, que mesmo em declínio físico e técnico ainda parece ter as ferramentas necessárias para anular seu jogo. O combate parece à medida para que Henderson exerça com algum conforto seu jogo de chutes à longa distância, travando Piccolotti no clinch em alguns momentos e levando a luta ao solo quando desejar, controlando o combate em três rounds de contornos parecidos ou até finalizando na terceira parcial.

Peso Meio-Pesado: Phil Davis (EUA) vs. Liam McGeary (ING)

Por Gustavo Lima

Revanche de luta realizada em 2016, o notável combate de meios-pesados entre o bom Phil Davis (19-5 no MMA, 6-2 no Bellator) e a incógnita Liam McGeary (13-3 no MMA, 10-3 no Bellator) já não possui a mesma magia de outrora, com os atletas não mais surfando no bom momento que viviam por volta de três anos atrás. Todavia, o duelo ainda é considerado um embate de dois top 5 na categoria sem nenhuma ressalva, dada a escassez de nomes de qualidade e consistência dentro da faixa de peso.

Na altura do primeiro duelo, o inglês entrava no cage circular para defender seu cinturão com cartel perfeito de 11-0 e causava a impressão unânime de ser um dos grandes nomes da categoria fora do UFC. Davis, um dos primeiros a saltar o barco do UFC para a companhia da Viacom – na onda agressiva de investimentos feita pela mesma no último triênio – chegou na nova casa vencendo aqueles que eram discutivelmente os três melhores lutadores da divisão além do então rei (Emanuel Newton, Francis Carmont e King Mo Lawal). Daquela vez, o primeiro duelo ficou marcado por uma atropelo antológico de Davis em McGeary na luta agarrada, fazendo cair inclusive o mito de que Liam era dono de um jiu-jítsu defensivo perigosíssimo.

Davis, após atingir a glória, viria a perder o ouro em seu próximo combate ao recepcionar Ryan Bader na organização e encontrar um adversário com características muito similares às suas, mas com nível superior em todos os aspectos do jogo. O “Mr. Wonderful” viria a bater Leo Leite e Linton Vassell na sequência, fazendo seu feijão com arroz e não mostrando nenhum tipo de variação tática ou mudança de postura em seus duelos. O excelente wrestler criado na Universidade da Pensilvânia acabou pagando o preço por isso na luta contra o excelente Vadim Nemkov, quando saiu derrotado por decisão dividida.

Se Phil continua consistente e talentoso, mas pouco versátil e previsível, McGeary beira o irreconhecível desde que perdeu a invencibilidade e o trono. Há de se ponderar, obviamente, o aumento do nível de competição encontrado pelo britânico nas últimas lutas, mas é muito difícil não ter a impressão de que Liam se encontra no estágio de decadência de sua carreira. O recente nocaute sobre o decrépito King Mo não foi o suficiente para apagar as duas derrotas sofridas anteriormente – finalização para Linton Vassell (!) e nocaute técnico via surra para o mesmo Vadim Nemkov, que arrebentou sem dó nem piedade as pernas do ex-campeão com chutes por quase 15 minutos.

Liam McGeary vs Phil Davis odds - BestFightOdds

A previsão é de que essa luta transcorra exatamente da maneira que seu deu a primeira: Phil Davis derrubando e roçando Liam McGeary no chão por 15 minutos, com o inglês sendo derrotado em técnica, força e durabilidade. Embora sobrem altura e envergadura a favor de Liam, o mesmo deixa a desejar em termos de técnica, explosão e confiança (especialmente na própria habilidade de defender quedas) para acreditar que seu striking será capaz de surpreender o adversário em algum momento da luta.