Por Edição MMA Brasil | 27/09/2018 23:45

Bellator 206 acontece numa atípica noite de sábado, no SAP Centre, em San Jose, Califórnia, um dos destinos prediletos do presidente da organização, Scott Coker. O excelente evento será encabeçado por dois dos melhores lutadores de qualquer categoria não contratados pela maior organização do MMA mundial.

Liderando o card, o experiente campeão dos médios Gegard Mousasi enfrentará o duríssimo e bem versado Rory MacDonald, atual campeão da categoria dos meios-médios, que busca seu segundo cinturão no Bellator.

Antes da promessa de belo embate da luta principal, os velhos de guerra Quinton “Rampage” Jackson e Wanderlei Silva se enfrentam pela quarta vez, agora no peso pesado, numa rotação totalmente abaixo do prometido no restante do card. Os ex-campeões Douglas Lima e Andrey Koreshkov abrem o torneio dos meios-médios, enfrentando-se pela terceira vez para desempatar a rivalidade. O jovem prospecto Aaron Pico encara mais um desafio contra um adversário consolidado e competente, em Leandro Higo, que sobe para o peso pena para um duro combate.

O Bellator 206 será transmitido pela Fox Sports Brasil e a programação do site oficial do canal indica que a transmissão será iniciada às 23:00h, pelo horário de Brasília. Contudo, vale atenção a eventuais alterações e transmissão alternativa do início dos combates na Fox Sports 2.

Cinturão Peso Médio: C Gegard Mousasi (HOL/IRN) vs. Rory MacDonald (CAN)

Por Alexandre Matos

O mundo do MMA tomou um susto quando Gegard Mousasi (44-6-2 no MMA, 2-0 no Bellator) abandonou o UFC na melhor fase que ele viveu na organização, às vésperas de ser anunciado como desafiante ao cinturão dos médios. Ele carregou as cinco vitórias seguidas obtidas no octógono para o Bellator, onde ganhou a chance de disputar o título com uma vitória complicada sobre Alexander Shlemenko. Já adaptado à nova casa, o cidadão do mundo tomou o cinturão de Rafael Carvalho em menos de quatro minutos, em maio, no Bellator 200.

A saída de Rory MacDonald (20-4 no MMA, 2-0 no Bellator) do UFC também foi surpreendente. Ele já havia disputado a coroa dos meios-médios, quando caiu na lendária revanche contra Robbie Lawler. Com o nariz estragado, Rory teve uma atuação apática contra Stephen Thompson e resolveu testar o mercado. No Bellator, passou o carro em Paul Daley e também desbancou um brasileiro do trono, no caso Douglas Lima, num confronto no qual o “Red King” teve bem mais trabalho do que o imaginado.

Este seria um confronto que facilmente coencabeçaria um pay-per-view no UFC por confrontar dois dos sistemas ofensivos mais diversos já vistos no MMA. E o mais interessante são as diferenças. Mousasi é um kickboxer bastante agressivo e dinâmico, enquanto MacDonald é mais perigoso nos contragolpes e no controle de distância, embora seja um matador frio quando encurta e atua no infighting. No solo, MacDonald tem um controle posicional de elite, que o permite usar um violento ground and pound ou sair para botes de finalização. Por outro lado, Mousasi é astuto inclusive de costas para o chão, ainda que tenha sofrido no passado contra wrestlers fortes.

Defensivamente, temos também diferenças notórias. Rory é muito mais sólido que Gegard, tanto no striking quanto no grappling, mas deixa brechas contra golpes em linha que provavelmente Mousasi mapeou. No entanto, essa vantagem defensiva e a superioridade no wrestling permitirão ao canadense definir onde o combate transcorrerá.

Gegard Mousasi vs Rory Macdonald odds - BestFightOdds
 

Se este combate fosse descrito no formato da coluna Choque de Titãs, provavelmente MacDonald teria vantagem em mais quesitos do que o campeão. Porém, dois itens pouco tangíveis explicam as odds acima: a fase de ambos – MacDonald não teve nenhuma atuação que lembrasse o melhor meio-médio do mundo desde que Lawler lhe ceifou a alma – e a maior adaptação ao peso de Mousasi – este é a primeira vez como peso médio do desafiante.

Isto posto, imagino dois caminhos. No primeiro, com MacDonald totalmente recuperado da fratura do nariz e da confiança, teremos uma guerra que lembrará o maravilhoso UFC 189. Neste caso, se MacDonald superar a barreira física, poderá trabalhar na curta distância tanto no dirty boxing quanto nas quedas para levar o segundo cinturão para o Canadá.

No outro cenário, Mousasi terá um maior volume na média e longa distâncias, apostando no jogo de pernas para deixar seu pé dianteiro entre os pés de MacDonald e explorar a avenida em linha reta que se abre no canadense rumo ao abatido nariz. Se Gegard conseguir magoar o respirador do desafiante, levará a confiança dele para a vala e abrirá caminho inclusive para um nocaute técnico na segunda metade do combate.

A razão me faz ir na segunda hipótese, embora resida no meu coração uma torcida para que um gênio como MacDonald se recupere. Sábado é a oportunidade de ouro para isso.

Peso Pesado: Rampage Jackson (EUA) vs. Wanderlei Silva (BRA)

Por Idonaldo Filho

Cerca de 15 anos atrás, com o MMA ainda em fase de desenvolvimento, o PRIDE era não só vivo, como também era o líder do esporte na época. Em 9 de novembro de 2003, os fãs viram o início de uma grande rivalidade, uma das mais clássicas no MMA, entre Quinton Jackson (37-13 no MMA, 4-2 no Bellator) e Wanderlei Silva (35-13 no MMA, 0-1 no Bellator). Na primeira luta, uma clínica de joelhadas do brasileiro acabou com o combate. Um ano depois, o cenário não mudou muito: o método foi igual, porém mais lembrado, depois que Rampage caiu desacordado, apenas segurado pelas cordas do ringue, numa das imagens mais representativas da história. O americano descontou no UFC, em sua primeira luta após perder o título dos meios-pesados, quando ele acertou uma bomba que nocauteou o brasileiro.

Não é preciso muito para falar de Wanderlei. Lenda do esporte, um dos atletas mais respeitados que o Brasil já teve. No auge, Wand foi um lutador brutal, destemido e que usava seu muay thai extremamente agressivo e potente para aniquilar qualquer que fosse o oponente. Porém, os 22 anos de carreira, além das diversas pancadas que recebeu durante a carreira, cobraram o preço. Hoje, o “Cachorro Louco” está muito mais lento, frágil e receoso, sem ser sombra do que já foi um dia.

Personagem querido por uns e odiado por outros, Rampage Jackson sempre foi um lutador autêntico, que teve sucesso no PRIDE e no UFC, carregando um TUF nas costas, com highlights sensacionais, como o brutal bate-estaca contra Ricardo Arona, e diversos nocautes. Só que ele está atualmente numa situação bastante similar ao brasileiro. Rampage, que era bom atleta, decidiu “ligar o foda-se” e se apresentar totalmente despreparado, com cerca de 115 quilos e desempenho sofrível. Ele já foi uma ameaça com o bom wrestling, mas largou de mão de usar a luta olímpica, chegando a reclamar de ser casado contra wrestlers. É mais do que nítido que Rampage só quer lutar para descer a mão em alguém e ganhar seu salário, mas nem isso ele tem conseguido. O que estamos vendo é um lutador que golpeia em câmera lenta e é facilmente atingido, além de nem mais oferecer defesa contra as quedas.

Quinton Jackson vs Wanderlei Silva odds - BestFightOdds
 

Eu nem achei que essa luta iria acontecer. Pensei que alguém ia machucar tendo em vista o quão ruim é a fase desses dois (ex?) lutadores. Eu ia dizer o que a maioria deve imaginar que vai acontecer: uma luta sofrível entre caras que já deveriam ter parado e que viraria uma decisão dividida chata após um encontro de encaradas, mas não. Acho que o sentimento entre eles não vai acabar assim tão cedo e, por mais podre fisicamente que ambos estejam, vou apostar em nocaute de Rampage, que estará fisicamente maior e, a princípio, me parece mais inteiro (mas vai saber né?).

GP Peso Meio-Médio: Douglas Lima (BRA) vs. Andrey Koreshkov (RUS)

Por Matheus Costa

Esqueça a quarta luta entre Wand e Rampage. Se tem um acerto de contas que realmente merece a sua total atenção no Bellator 206, l é a trilogia entre Douglas Lima e Andrey Koreshkov.

Andrey Koreshkov (21-2 no MMA, 12-2 no Bellator) é bastante técnico em todas as áreas de seu jogo. Em pé, possui alto volume de golpes e mãos rápidas, que sempre culminam em boas combinações na curta distância. Além disso, o ex-campeão também adora aplicar golpes rodados, sejam socos ou chutes. Uma das especialidades recentes do russo é o jogo de quedas, que lhe permite trabalhar por cima e aplicar seu ótimo ground and pound, que geralmente faz muito efeito em seus adversários. Além disso, Koreshkov mostrou boa evolução no jiu-jítsu, com ótimas raspagens e a mesma agressividade no chão. É difícil apontar um ponto fraco em seu arsenal.

Do outro lado, Douglas Lima (29-7 no MMA, 11-3 no Bellator) é especialista em muay thai com um estilo bem feroz. Ele não é o trocador mais ágil e veloz do mundo, mas suas mãos são pesadas e já fizeram inúmeras vítimas. O brasileiro adora jogar na longa distância e contragolpeia com maestria, mas também é conhecido pelos ótimos chutes baixos, que são um dos melhores da atualidade do esporte. Sua defesa de quedas é decente, mas não o suficiente para interromper as tentativas do russo – ele já provou isso antes. Por mais que seja faixa-preta de jiu-jítsu, Lima não usa suas habilidades no chão, então é difícil fazer uma análise profunda sobre o brasileiro na arte suave.

No primeiro confronto entre ambos, Koreshkov dominou por cinco rounds e venceu por decisão unânime usando o wrestling. Já na revanche, o brasileiro não foi tão pressionado e conseguiu impor seu jogo, nocauteando no terceiro round e reconquistando o cinturão.

Andrey Koreshkov vs Douglas Lima odds - BestFightOdds
 

A tendência é que a primeira luta se repita e Douglas Lima seja arremessado por três rounds. Para evitar o jogo de pressão do russo, Lima precisa usar bastante a movimentação lateral e os jabs para manter a luta na longa distância, além dos chutes na perna para minar a movimentação de Koreshkov e, consequentemente, sua capacidade de pressionar em busca de uma possível queda.

O russo provavelmente aprendeu com os erros que cometeu na segunda luta e não deve deixar o brasileiro em paz e com tempo e espaço para impor seu ótimo muay thai. Aposto em três longos rounds para Douglas, que deve passar um bom tempo de costas para o chão. Koreshkov, decisão.

Peso Pena: Aaron Pico (EUA) vs. Leandro Higo (BRA)

Por Thiago Kühl

Aaron Pico (3-1 no MMA e no Bellator) é um fenômeno. Isso poucos têm dúvida. Com ótimos resultados no wrestling internacional e treinando boxe desde os 12 anos, o garoto da Califórnia se tornou um grande alvo de hype do MMA mundial. Contratado do Bellator antes de sua primeira luta profissional, sofreu um revés relâmpago na estreia ao ser finalizado por Zach Freeman em menos de 30 segundos, resultado que colocou, para alguns precipitados, o seu futuro em cheque. Daí em diante, com casamentos de luta mais razoáveis para um iniciante, Pico não tomou conhecimento da concorrência. Três nocautes no primeiro round fizeram com que a expectativa sobre o garoto fosse reforçada.

Wrestler de muito alto nível, Pico tem conquistas nos três estilos da modalidade – livre, greco e folkstyle – o que lhe dá capacidade de implementar tanto um jogo de quedas eficiente, quanto de controle posicional. Ocorre que nada disso tem sido o seu objetivo quando a porta do cage se fecha. Aaron precisou apenas do alinhado boxe. A capacidade de colocar golpes variados no tronco e na cabeça com elevada potência deu o tom das três vitórias, todas por interrupção conseguida via nobre arte.

Leandro Higo (18-4 no MMA e 1-2 no Bellator) tem cinco vezes mais lutas que seu adversário. O brasileiro da Pitbull Brothers chegou a participar do TUF Brasil 4, mas logo na primeira luta dentro da casa foi derrotado, sem ter sido aproveitado pelo UFC posteriormente ao programa. Após o TUF, Higo chegou ao título da RFA e defendeu-o na LFA, conseguindo assim um contrato com o Bellator. O “Pitbull” teve duas chances de disputar o cinturão do peso galo na atual casa, mas sofreu duas derrotas. Na primeira, contra Eduardo Dantas, não bateu o peso e acabou batido na decisão. Na segunda, em sua última luta, acabou finalizado por Darrion Caldwell ainda no primeiro round.

O jogo de Higo é um clássico da Pitbull Brothers, com muita potência, bons chutes, uma defesa de queda alinhada e um jiu-jitsu de bom nível, que garantem ao potiguar um arsenal suficiente para dar trabalho para grande parte das categorias dos galos, na qual teve problemas com a balança, e dos penas.

Aaron Pico vs Leandro Higo odds - BestFightOdds
 

Os próprios irmãos Pitbull já confidenciaram no nosso podcast que Pico tem tudo para se tornar um fenômeno no MMA. A questão é que Higo é muito mais experiente neste esporte e tem condições técnicas suficientes para vencer. Se o americano decidir se manter no striking, como tem feito em suas lutas, privilegiando o boxe, pode se complicar muito contra um trocador potente como Higo. Caso coloque para jogo o wrestling de elite, pode ter o seu caminho para a vitória facilitado. Apostando no maior talento e na mudança de patamar na carreira de Pico, vamos de vitória por interrupção na parte final da luta.

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