Beat The Streets 2019 fecha com encontro entre estrelas do wrestling e do MMA

Por Elias Freire | 08/05/2019 00:10

Nesta segunda-feira, 6 de maio, rolou o evento anual Beat The Streets, que completou 10 anos de existência reunindo vários dos melhores wrestlers do mundo. O BTS 2019, que neste ano recebeu o subtítulo “Grapple at the Garden”, ocorreu no Hulu Theater, no famoso Madison Square Garden, em Nova York, tendo como tema o confronto entre os campeões da Divisão I da NCAA de 2019 e os membros do time que representou os Estados Unidos no Mundial de 2018.

A atração principal foi um confronto de wrestlers de diferentes gerações. De um lado estava um dos melhores da história americana, Jordan Burroughs, tetracampeão mundial e campeão olímpico em 2012, contra a estrela em ascensão do UFC e lutador invicto de MMA Ben Askren, quem, além de ter um currículo invejável no folkstyle – melhor do que Burroughs, inclusive -, representou os Estados Unidos no estilo livre nas Olimpíadas de 2008. Porém, antes de falar da luta (ou surra?) entre ambos, vou comentar rapidamente sobre outras atrações, como o surgimento de um fenômeno.

A primeira luta de renome ocorreu entre Nick Piccininni e Jack Mueller, na categoria até 57 quilos. Ambos são duas vezes All-American na mesma época, mas nunca se encontraram antes. Mueller, que fez a final deste ano da D1 contra Spencer Lee, mostrou sua maior experiência no estilo livre e, sem muitas dificuldades, conseguiu a superioridade técnica por 10 a 0 logo no primeiro período contra o wrestler da Oklahoma State University.

O primeiro confronto entre um campeão da NCAA de 2019 e um membro do USA World Team aconteceu no peso até 70 quilos, entre Anthony Ashnault, quatro vezes All-American e campeão da NCAA, considerado como o melhor wrestler da história da Rutgers University, de New Jersey, e James Green, também quatro vezes All-American e dono de uma medalha de prata no Mundial de 2017.

Green, como de costume, abriu uma vantagem considerável contra o seu oponente, mas deixou Ashnault encostar no final, saindo de um placar de 8 a 0, quase conseguindo a superioridade técnica, para 8 a 4 no final.

O “Capitão América” Kyle Snyder, bicampeão mundial e campeão olímpico em 2016, que tem apenas 23 anos, teve pela frente o canadense Nishan Randhawa, na categoria até 97 quilos. Snyder, com seu jogo dependente quase que exclusivamente de suas quedas, abriu uma vantagem de 10 a 1, com cinco quedas aplicadas. Snyder então, de forma inesperada, conseguiu acertar um suplê de cinco pontos para finalizar Randhawa.

O próximo embate se deu entre os mamutes até 125 quilos Nick Gwiazdowski, bicampeão da D1 e medalhista de bronze nos dois últimos Mundiais, e o atual finalista da NCAA, Derek White. Gwiz, muito mais experiente e sem dúvidas o melhor wrestler americano neste peso, superou White por 9 a 0.

Na categoria até 61 quilos, Nick Suriano, finalista da D1 no ano passado e campeão neste ano, surpreendeu ao vencer o muito duro e experiente Joe Colon, medalhista de bronze no Mundial de 2018 e recém-campeão pan-americano, batendo no meio do caminho o atual campeão mundial, Bonne Rodriguez, num placar apertado de 3 a 1, conseguindo a única queda da luta.

A segunda vitória de um campeão da D1 contra um membro do USA World Team veio de uma forma nada agradável. Drew Foster, numa tentativa de queda contra David Taylor, campeão mundial e considerado o melhor wrestler do mundo em 2018, machucou uma das esperanças americanas para o próximo Mundial, lesionando o joelho de Taylor. Espero que não tenha sido uma lesão grave e que o “Magic Man” possa lutar no Final X, evento que define o representante do país no Mundial, em junho.

J’den Cox, campeão mundial em 2018 na categoria até 92 quilos e o wrestler com mais títulos da D1 da história da University of Missouri, com três, não tomou conhecimento de Patrick Brucki. Cox venceu em menos de um minuto por superioridade técnica, com placar de 13 a 0. No final da luta, mostrando uma força descomunal, Cox levantou seu oponente, que estava de bruços, e conseguiu um movimento de quatro pontos, fechando o placar.

Na luta coprincipal, começou a ser desenhado um fenômeno do wrestling nos EUA. Yianni Diakomihalis é bicampeão mundial cadete, mostrando um forte jogo no estilo livre, como também é bicampeão da NCAA D1, com mais dois anos pela frente para fazer história e se tornar tetracampeão, feito muito raro. O jovem acabou de levar o US Open, o campeonato nacional adulto de estilo livre, vencendo nomes poderosos do cenário mundial como Frank Molinaro, Jordan Oliver e Zain Retherford. Porém, nenhuma conquista era comparada a vitória que ele conseguiu nesta segunda-feira.

Diakomihalis, que vai disputar o Final X na categoria até 65 quilos, enfrentou o bicho-papão indiano Bajrang Punia, atual número um do mundo, medalhista de prata do Mundial do ano passado e que chegou na final de 11 dos últimos 12 campeonatos que disputou, com oito títulos, incluindo o Campeonato Asiático e o Ali Aliyev, na Rússia. Bajrang, que geralmente faz os seus oponentes ficarem exaustos por causa do seu ritmo de luta e ataque frenético, não conseguiu cansar o americano. Num placar apertado de 10 a 8, Diakomihalis o superou, levantou a torcida e mostrou ter muito cacife para medalhar no Mundial, em setembro.

A luta principal, como já dito, aconteceu entre as estrelas do wrestling e do MMA Jordan Burroughs e Ben Askren. O cabeludo teve uma carreira estelar no universitário, com dois títulos da NCAA D1, dois Hodge Trophy e provavelmente é o maior pinner (aquele que encosta as costas do adversário no chão e finaliza a luta) do século 21 no folkstyle wrestling, com 91 no total. Ben também teve uma bela carreira no estilo livre, classificando-se para as Olimpíadas de Pequim.

Askren estava longe dos tapetes por muito tempo e voltou logo contra Burroughs, alguém que nem precisa de muita introdução. Muitos pensaram que o estilo “funky” de Askren, amante dos scrambles, poderia trazer problemas para Burroughs. O problema é que scrambles funcionam muito bem quando o adversário investe em single legs e Jordan tem um double leg matador, que entrou para a história do esporte.

Ben, assim como vários fãs, pensou que Burroughs iria de certa forma pegar um pouco mais leve com ele. Ledo engano.

Jordan enterrou Askren no chão com double legs, passando por cima dele – literalmente, como você pode ver no vídeo abaixo. O multicampeão mostrou que está em um nível completamente diferente no wrestling. No começo do segundo período, fechou o placar por 11 a 0.

Independentemente do resultado, o reaparecimento de Askren nos tapetes acabou levando muitos fãs de MMA a conhecerem melhor o wrestling, ajudando o esporte a crescer mais. Por isso, fica meu agradecimento a Ben Askren por aceitar o desafio de um dos melhores wrestlers da história do esporte.