Astros olímpicos e surpresas coroam as finais da Divisão I da NCAA no wrestling

Kyle Snyder e J'Den Cox confirmam favoritismo, Zain Retherford vai forte rumo ao Dan Hodge Trophy, Mark Hall mantém sina de vitórias e Vincenzo Joseph choca o cenário do wrestling americano.

Chegamos ao final da temporada 2016/2017 do college wrestling com 10 campeões nacionais coroados na Divisão I da NCAA, alguns repetindo o feito, outros chegando à glória pela primeira vez, e uma equipe de estrelas se firmando como força dominante da modalidade.

Reunindo 111.454 espectadores em três dias de competições (o terceiro maior público da história do torneio), o Scottrade Center, em St. Louis, Missouri, foi palco (e que palco!) da competição entre os melhores wrestlers universitários dos Estados Unidos. Eles não decepcionaram os fãs, principalmente aqueles que torciam para os Nittany Lions: a Penn State University (PSU), comandada pelo lendário Cael Sanderson, se mostrou tão dominante que conseguiu o sexto título nacional em sete anos antes mesmo de chegar às finais. E quando chegou, simplesmente dominou o tapete, com todos os seus cinco finalistas se tornando campeões, feito somente reproduzido outras três vezes (Oklahoma State University 2005 e University of Iowa 1986 e 1997).

As apresentações individuais dos campeões não deixaram a desejar. Tivemos também diversas surpresas, inclusive uma que chocou todos que estavam acompanhando, me deixando paralisado, de boca aberta, por vários segundos tentando processar o que tinha acabado de acontecer.

Das dez finais, acompanhadas no ginásio por um público de 19.675 pessoas no sábado à noite, apenas duas geraram algum tipo de controvérsia. São com os campeões dessas duas categorias que vou começar a matéria.

Primeiro, na categoria até 174 libras, o fenômeno Mark Hall, campeão mundial cadete e júnior, sagrou-se campeão da NCAA vestindo o singlet da PSU, competindo em sua primeira temporada na universidade. Em seu caminho, foi obrigado a despachar alguns dos favoritos de seu peso, incluindo o maior favorito entre eles, Zahid Valencia, que acabou prejudicado quando agarrou o suporte de queixo de Hall e deu um ponto de graça ao rival. Na decisão, Hall teve pela frente Bo Jordan, da Ohio State, que o tinha vencido na final da conferência Big 10. Depois de uma luta apertada, com alguns momentos polêmicos a favor do wrestler da Penn State, Hall superou Jordan por 5 a 2, levando seu primeiro título da NCAA logo como calouro. Em minha opinião, os árbitros acertaram as chamadas polêmicas.

Na divisão até 184 libras, depois de chegar à final no ano passado, Bo Nickal, da PSU, dessa vez conseguiu alcançar o lugar mais alto do pódio ao ter um dos melhores desempenhos do torneio. Isso pode ser atestado pelo fato de Nickal ter levado o Gorrarian Award por conseguir o maior número de encostamentos no menor tempo de toda competição (foram três encostamentos em cinco lutas, com um tempo de 11:09).

Após passar pelo atual campeão da Big 10, Sammy Brooks, com um encostamento depois de acertar um lindo lateral drop com um minuto de luta (como você pode ver no vídeo abaixo), Nickal teve pela frente o favorito até então em levar o Dan Hodge Trophy, Gabe Dean, que vinha tendo uma temporada perfeita. A luta não foi um passeio no parque, com muita tensão e um ou outro momento de controvérsia, quando Dean conseguiu uma queda. Por questões de centímetro – ou centímetros – seu pé não estava na área de luta, não computando o ponto desta forma, o que foi difícil de verificar até com o vídeo da luta. Com uma queda para cada lado, mas dois escapes em seu favor, Nickal acabou encerrando a sequência de Dean, impedindo o veterano da Cornell de ganhar o seu terceiro título na despedida dos tapetes universitários.

Semifinal contra Sammy Brooks:

Final contra Gabe Dean:

Na categoria mais leve, até 125 libras, outro favorito foi superado. Thomas Gilman, da Iowa Hawkeyes, foi derrotado nas semifinais pelo wrestler que se tornou pela primeira vez campeão da Divisão I da NCAA, Darian Cruz, de Lehigh. Cruz, depois de eliminar o número um da categoria, encarou Ethan Lizak na final e decidiu a luta depois de acertar uma das quedas mais criativas do torneio, nos segundos finais do terceiro período (vale a perna ver no replay do vídeo, no minuto 9:10), superando Lizak por 6 a 3.

Você está lesionado e é sua última chance de se tornar campeão do mais importante torneio de seu esporte no país e, mesmo assim, longe de sua melhor forma física, você é capaz de eliminar os números 1 e 2 de sua categoria e se consagrar, alcançando o lugar mais alto do pódio e fechando com chave de ouro sua carreira. Parece o resumo de um filme, mas não é. Esta foi a trajetória de Cory Clark lutando em seu último ano pelos Iowa Hawkeyes, na categoria até 133 libras. Clark, na semifinal, com o ombro bastante prejudicado, eliminou o número 1, Nathan Tomasello, por apertados 6 a 4. Como se não bastasse tamanha dificuldade, Cory enfrentou na final Seth Gross, o número 2, superando-o por 4-3 com uma queda milagrosa no terceiro período. Clark havia batido na trave duas vezes, ficando em segundo nas duas temporadas anteriores. Agora finalmente conseguiu seu lugar ao sol, com direito a lançar o coach Tom Brands ao final da luta (não deixe de ver isso!):

Dean Heil, da Oklahoma State University, treinado pelo lendário John Smith, confirmou seu favoritismo na categoria até 141 libras. Invicto desde a temporada passada, Heil não teve um torneio fácil, enfrentando o duro Anthony Ashnault na semifinal, vencendo por um placar nada folgado de 4 a 2. Aliás, placares apertados assim são comuns nas lutas de Heil, que costuma achar um jeito de vencer no final. Na disputa de título, enfrentou George Dicamillo, da University of Virginia, e, com um desempenho bem melhor que a da final do ano passado, Dean venceu por 6 a 3, com duas belas quedas para selar a vitória. Com mais este título, o wrestler da Oklahoma State entrará em sua última temporada no semestre que vem como bicampeão da NCAA D1 e três vezes All-American.

Zain Retherford justificou o apelido de “Zain Train” na categoria até 149 libras e passou o trem em todos os oponentes que estavam em seu caminho, vencendo suas cinco lutas com bonus points, quatro dessas por superioridade técnica e uma por encostamento, levando para casa seu segundo título da NCAA D1.

Retherford encarou na semifinal um dos únicos wrestlers que lhe deram trabalho atualmente, Brandon Sorensen, da Iowa Hawkeyes. Numa apresentação totalmente diferente de quando venceu Sorensen na prorrogação, na única vez que tinham se enfrentado nesta temporada, o lutador da Penn State conseguiu o encostamento com 2:31 de luta usando seu sufocante jogo por cima, o melhor entre os wrestlers em atividade no circuito universitário (assista à luta logo abaixo). Na final, Zain bateu de frente contra o terceiro da categoria, Lavion Mayes, e conseguiu a única superioridade técnica das finais, derrotando o atleta de Missouri por 18 a 2.

Zain Train, com essas performances, saiu com dois prêmios do torneio: o wrestler mais extraordinário do campeonato e o mais dominante de toda a temporada. Com 64 vitórias consecutivas, a maioria delas com bonus points, Retherford é o favorito absoluto para levar ainda mais um prêmio, o tão cobiçado Dan Hodge Trophy, dado ao melhor lutador da temporada.

Luta contra Sorensen, encostamento com 2:31 de luta:

Zain Retherford vs. Lavion Mayes:

O único wrestler que, na minha opinião, pode impressionar e tirar o Dan Hodge das mãos de Retherford é justamente o campeão da próxima categoria de peso, até 157 libras, Jason Nolf, também da PSU, que tem como vantagem o fato de não ter tido nenhuma luta apertada na temporada inteira.

Nolf terminou a temporada invicto, vencendo a maioria em grandes domínios – as cinco do torneio final tiveram bonus points, duas por superioridade técnica, uma por encostamento e dois major decisions. Na final contra o terceiro da categoria, Joey Lavallee, de Missouri, Nolf deu um show de quedas, o maior das finais, apresentando um verdadeiro espetáculo para aqueles que admiram sua apurada técnica, superando o adversário por 14 a 6.

Final contra Joey Lavalle:

Confira este pequeno highlight de Jason Nolf para perceber o monstro que os wrestlers de sua categoria estão enfrentando:

O momento mais espetacular da competição saiu da próxima categoria, aquele momento que deixou os fãs sem palavras. Vincenzo Joseph, da PSU, apesar de estar ranqueado como terceiro até 165 libras, não era nem de perto o favorito a levar o título. Ele enfrentou nas semifinais o segundo da categoria, Logan Massa, de Michigan, e o derrotou por 5 a 4. Na final, bateu de frente com o monstro dos tapetes, o número 1 do peso, Isaiah Martinez, de Illinois, o wrestler que todos botavam fé que seria o próximo tetracampeão da NCAA D1. Joseph já tinha perdido duas vezes para IMAR nesta temporada e a grande maioria dos fãs esperava que o resultado não seria diferente. Ledo engano. Vincenzo não deixou Martinez fazer o seu papel de bully e foi melhor pela luta inteira. No terceiro período, acertou seu patenteado inside trip e grudou as costas de IMAR no chão, vencendo o confronto por encostamento e chocando todos os espectadores com um fantástico momento que acabou entrando para a história.

Vincenzo Joseph vs. Isaiah Martinez:

Wrestlers se tornaram campeões e bicampeões da NCAA D1 nesta temporada, mas somente um se tornou tricampeão, o atleta de Missouri, J’Den Cox, medalhista de bronze olímpico. Em sua despedida dos tapetes universitários – e talvez do wrestling como um todo -, Cox deixou sua marca ao se tornar o único tricampeão da história de Missouri (Ben Askren conseguiu duas vezes o título pela universidade). Na final, Cox encarou Brett Pfarr, o segundo da categoria até 197 libras, e o derrotou por 8 a 2, depois de quedá-lo em três oportunidades. Cox saiu da temporada invicto, com 47 vitórias seguidas. Agora ficamos na torcida para que ele mude de ideia e deixe o futebol americano de lado, voltando aos tapetes no estilo livre do circuito internacional.

J’Den Cox vs. Brett Pfarr:

Kyle Snyder, como você já deve saber, conquistou de tudo no mundo do wrestling, desde as Olimpíadas, passando pelo Mundial, Ivan Yarygin GP, Jogos Pan-Americanos e até a Copa do Brasil. No final de semana passado, ele adicionou mais um título ao seu currículo, o bicampeonato da NCAA D1 na categoria até 285 libras.

Em sua primeira luta no torneio, Snyder conseguiu derrubar o adversário em incríveis 12 vezes. Se você tinha alguma dúvida de sua força física, agora não deve ter mais ao assistir a sua final contra o segundo ranqueado do peso, Connor Medbery. Snyder tirou do chão o wrestler de Wisconsin (foto abaixo), que pesa uns 17 quilos a mais que ele, mostrando que, além da técnica, a força física também é seu forte. Snyder venceu por 6 a 3, a segunda vitória sobre o rival nesta temporada – a primeira foi na final da Big 10.

Final entre Kyle Snyder vs. Connor Medbery:

  • James sousa

    parabéns pelo excelente Trabalho tanto na Prévia como agora

    • Elias Freire

      Valeu James! Espero que tenha gostado.

  • Felipe Simões

    Parabéns pelo ótimo trabalho com as matérias, graças a você o wrestling ganhou um novo fã!

    • Elias Freire

      Esse é o principal objetivo, ler isso é missão cumprida! Valeu cara.