Por Pedro Carneiro | 24/05/2019 14:38

O ano era 2012 e o Brasil vivia o seu melhor momento no UFC, com campeões em quatro categorias. Renan Barão era o suplente que foi elevado à glória graças às lesões de Dominick Cruz. José Aldo era o rei dos penas, Anderson Silva seguia como campeão dos médios e o maior nome do MMA mundial, enquanto Junior Cigano chegou ao título enfileirando corpos na vala dos pesados. Isso sem levar em consideração que o top 5 das categorias também eram infestados por atletas da Terra de Vera Cruz. É interessante notar que esses campeões eram um retrato do estilo do MMA no país, atletas com base na luta em pé e com um histórico no jiu-jítsu. Tudo ia bem até que TJ Dillashaw, Conor McGregor, Chris Weidman e Cain Velasquez passaram como um furacão, devastando a era de maior sucesso do Brasil no UFC.

Algo digno de nota é que, com exceção dos 13 segundos mais longos da vida de José Aldo, todos os brasileiros foram derrotados por wrestlers e juntamente foram suplantados não na modalidade de quedas, mas na luta em pé. Curioso, não? Como um atleta perito na troca de golpes é derrotado nesta seara por outro que é oriundo de outra arte? Seria isso tudo uma terrível coincidência ou existe algo por trás disso?

A resposta pode parecer bastante simples, mas seus efeitos são complexos.

O diferencial de todos os vencedores é que o wrestling tem duas características que têm sido o diferencial no mais alto nível do MMA. A primeira é que o wrestler, em geral, decide onde a luta irá ocorrer. Apesar de parecer banal, isso define grande parte dos combates num esporte extremamente difícil de ser excelente em tudo. É a velha história que Marco Ruas contava: “Se ele vier com soco e chute, eu derrubo; se ele vier para derrubar, eu soco e chuto”. Em todos os confrontos, o wrestler pode guiar a luta para o caminho de menor risco ou resistência e conseguir a vitória usando as fraquezas dos adversários como um trunfo.

O segundo diferencial – e ainda mais importante – é que o wrestling oferece aos seus praticantes a valência mais importante do MMA: o domínio das transições. Existem lutadores que são ótimos em alguns ramos da luta, com excelência naquilo que se propõem a fazer, mas reparem que esses mesmos lutadores, com raras exceções, não são os que conseguem chegar no mais alto patamar do esporte. Ao mesmo tempo, atletas que não são excelentes em nada específico, mas que conseguem flutuar entre uma modalidade e outra, atingem resultados expressivos.

Não nos faltam exemplos. Vamos ao tal do “Clube dos 5” dos maiores de todos os tempos, que é composto, na minha opinião, por Jon Jones, Georges St. Pierre, Fedor Emelianenko, José Aldo, Anderson Silva e com o sexto elemento Demetrious Johnson. Em qual modalidade St. Pierre é melhor? Qual arte marcial Jones domina com predominância? Johnson é melhor na luta em pé, no wrestling ou no jiu-jítsu? É possível que cada um tenha uma resposta na ponta da língua para cada uma dessas perguntas, mas cada uma delas cabe uma boa discussão.

O caso de Fedor gera um bom debate, mas o russo competiu num período no qual ainda era muito comum os lutadores serem um tanto unilaterais e é bem possível que, justamente por ser um dos raros atletas que transitava por várias modalidades, que ele tenha tido tanto sucesso. É só lembrar do “Último Imperador” trocando sopapos com Mirko Cro Cop e dominando Rodrigo Minotauro no chão.

Na contramão, os dois brasileiros que se encontram na lista são atletas predominantes da luta em pé – não necessariamente oriundos, mas predominantes. Aldo, apesar de possuir a fórmula brasileira “muay thai + jiu-jítsu”, conseguiu tamanha longevidade por também ter um ótimo wrestling defensivo, que impedia as quedas e o deixava confortável para abrir sua caixa de ferramentas de braços e pernas. Já Anderson foi bastante dominante usando a troca de golpes como carro-chefe, mas, no dia em que encontrou um wrestler que tinha domínio das transições, foi duramente nocauteado.

Aquele momento em que Jeremy Stephens se deu conta que o fígado tinha ido para o vinagre - e não foi por birita

Os atletas que conseguem transitar com facilidade entre as diversas modalidades que o MMA abarca têm levado vantagem sobre os outros. Esta tendência tem ficado cada vez mais nítida nas estatísticas do UFC. Em pequeno levantamento, é possível notar que os wrestlers tendem a ser superiores aos atletas de outras modalidades. A exceção feita, por enquanto, é no MMA feminino, que, em virtude da sua juventude e número menor de praticantes, ainda está num nível de evolução anterior ao MMA masculino – embora esteja evoluindo muito mais rápido – e, por este motivo – foi retirado deste breve estudo de caso.

Usemos como primeiro recorte o ranking peso por peso do UFC. Dentre os 12 homens que compõem os 15 da seleção, há um total de oito wrestlers. Os quatro primeiros do ranking são wrestlers e, no Top 5, apenas Max Holloway, o quinto, não é um exímio derrubador de pessoas. Talvez isso signifique algo, não?

Vamos às disputas de cinturão. Nos últimos dez eventos numerados que contaram com lutas nas quais o posto mais alto de uma categoria esteve em disputa, houve embate entre atletas com origens semelhantes três vezes. Nos embates restantes, o wrestling sobrepujou os outros estilos em sete oportunidades. Quando o wrestler perdeu – Kelvin Gastelum para Israel Adesanya -, o wrestling foi pouco utilizado. na última disputa, que não envolvia um wrestler de origem, foi a modalidade que garantiu a vitória de Jéssica Andrade sobre Rose Namajunas.

Ampliar o escopo para analisar os duelos entre os campeões e os cinco melhores lutadores de cada categoria faz com que os números continuem expressivos. Não existe Top 5 em nenhuma categoria que não tenha pelo menos dois wrestlers (ou quem use o wrestling como ferramenta principal). Até a última atualização, os três melhores pesos meios-médios do mundo eram oriundos do wrestling. Há inclusive um campeão olímpico de wrestling (Henry Cejudo) ostentando um cinturão do UFC.

Henry Cejudo (Foto: Jeff Bottari/Getty Images)

Ainda é possível examinar as situações nas quais um wrestler campeão ou integrante do top 5 de uma categoria enfrenta um lutador de outro estilo deste seleto grupo nos últimos confrontos de cada um deles. Num levantamento que fiz em outubro passado, os derrubadores de gente saíram vencedores em 75% das vezes na categoria dos moscas e galos, 80% das oportunidades no peso leve, 50% nos médios e 100% das vezes entre os meio-pesados e pesados. O contraponto é que o wrestling foi derrotado em todos os casos no peso pena naquele levantamento (recentemente houve a vitória de Alexander Volkanovski sobre José Aldo para retomar o predomínio dos derrubadores). Todavia, chega-se a um total de êxito em 65% dos wrestlers quando confrontam lutadores de outros estilos.

Não é à toa que tantos lutadores brasileiros partem para o exterior para aprender com estrangeiros como derrubar e não ser derrubado. O mais importante: como transitar e mesclar os diferentes estilos que compõem o MMA. Alguns dizem que os resultados recentes dos brasileiros no UFC é apenas uma má fase. Pode ser até verdade. Porém, também é aconselhável que tanto os atletas quanto o público percebam que, sem o domínio das transições, a estrada para o sucesso é mais longa e estreita.