As grandes trilogias da história do UFC

Por Alexandre Matos | 17/10/2013 16:24

Trilogia é o nome dado a uma rivalidade entre lutadores decidida em três duelos. No próximo sábado, no UFC 166, os fãs testemunharão o derradeiro capítulo da primeira trilogia (que tem tudo para se estender) entre pesos pesados na maior organização do mundo quando Cain Velasquez colocar seu cinturão em jogo contra Junior Cigano.

Em outras cinco oportunidades, o UFC viu astros se confrontarem em três lutas, escrevendo alguns dos momentos mais marcantes da história da organização. Neste artigo, o MMA Brasil conta a história de algumas das principais trilogias que aconteceram no octógono mais famoso do mundo.

Importante: Existem outras trilogias no UFC, com outros momentos que fizeram os fãs vibrar, como Tim Sylvia vs Andrei Arlovski (que ainda ganhou um quarto capítulo fora do UFC), Penn vs Hughes e Griffin vs Ortiz, por exemplo. Há também a menos importante Spencer Fisher vs Sam Stout e ainda Gray Maynard vs Nate Diaz, que se completará no TUF 18 Finale, em dezembro.

Chuck Liddell vs Randy Couture

A rivalidade entre o Iceman e o Natural ajudou a lançar a primeira edição do The Ultimate Fighter e catapultou o UFC para o mainstream. Mas a rivalidade começou antes mesmo do TUF 1.

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Depois de duas derrotas seguidas em disputas do cinturão dos pesados, aos 38 anos, Randy Couture foi dado como acabado. Na categoria de baixo, o então campeão Tito Ortiz entrou em litígio com a organização por se recusar a colocar o cinturão em jogo contra o amigo e ex-parceiro de treinos Chuck Liddell. Cansados de negociar com o Bad Boy de Huntington Beach, os organizadores escalaram Couture (na época com cartel 10-5) e Liddell (que tinha retrospecto de 12-1) para a disputa do cinturão interino dos meios-pesados. O confronto aconteceu no dia 6 de junho de 2003, no UFC 43, e acabou com vitória do veterano azarão por nocaute técnico no terceiro assalto. Couture tornou-se o primeiro lutador a conquistar um cinturão pela segunda categoria. O confronto marcou ainda a segunda derrota da carreira profissional de Liddell.

Quando o novo confronto foi marcado, em abril de 2005, Couture havia perdido e recuperado o título. Em paralelo, Liddell novamente se posicionou como desafiante número um e os lutadores voltaram a disputar a coroa no UFC 52. Antes, foram técnicos rivais no TUF 1 e se tornaram as primeiras celebridades globais do MMA. Empurrados pelo sucesso retumbante do TUF 1 Finale, ocorrido na semana anterior, o evento da revanche marcou os recordes de venda de pay-per-view (280 mil pacotes) e de renda (US$2,575 milhões) do UFC até então. No octógono, Liddell provou mais uma vez ser o maior contragolpeador que o MMA já viu. Ele se aproveitou de um avanço intempestivo de Couture e conectou um violento direto que explodiu no queixo do rival, garantindo o nocaute em pouco mais de dois minutos de luta.

Já com a popularidade do UFC bombando, os lutadores voltaram a se encontrar em fevereiro de 2006, no UFC 57. A organização ampliou os recordes de pay-per-view e renda para 400 mil pacotes e US$3,3 milhões, respectivamente. Apesar de serem dois atletas provenientes da luta olímpica, Liddell e Couture trocaram pancadas a valer no primeiro round e o desafiante saiu na frente ao aplicar uma queda no fim da parcial. No retorno do intervalo, Iceman voltou a pegar o oponente num contragolpe violento, cravando-lhe um senhor gancho de direita no queixo. Na entrevista após o combate, Couture anunciou sua aposentadoria (que só durou um ano).

Placar final: Chuck Liddell 2 x 1 Randy Couture

Tito Ortiz vs Ken Shamrock

A provocação de um jovem impetuoso, ainda nos primórdios do UFC, acabou gerando uma enorme rivalidade que fez a organização superar uma barreira importante anos mais tarde.

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Tito Ortiz e Ken Shamrock só se enfrentaram pela primeira vez em novembro de 2002, mas a rivalidade já vinha desde o final do milênio anterior. Querendo aparecer a qualquer custo, Ortiz mesclava vitórias no octógono com provocações. Em 1999, quando venceu Guy Mezger, atleta da Lion’s Den, equipe de Shamrock, Tito foi comemorar ostensivamente com uma camiseta onde se lia “Gay Mezger é minha putinha”. A provocação resultou numa confusão homérica nos vestiários, onde mesas e cadeiras voaram. Estava inaugurada uma das maiores rivalidades da história do MMA.

A primeira luta demorou a acontecer porque Ortiz dizia que Shamrock era muito maior e mais pesado. Para resolver o problema, o veterano baixou de categoria e encontrou seu rival em 93 quilos. Em novembro de 2002, Ortiz já era o campeão dos meios-pesados e Shamrock não lutava no UFC desde 1996. Ainda assim, o confronto valeu o cinturão de Tito. O hype para a lavagem de roupa suja no octógono foi imenso. O UFC 40 lotou a MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas, atraiu a atenção da ESPN e fez a organização triplicar seu recorde de pay-per-view – foi o evento que fez os americanos acreditarem de verdade que o MMA poderia ser grande. Anos de contusões, corte brusco de peso e a idade (nove anos de diferença) acabaram pesando no octógono. Shamrock até teve um bom momento no começo, mas foi massacrado pelas quedas e ground and pound do jovem campeão. No intervalo entre o terceiro e o quarto assaltos, o córner de Shamrock jogou a toalha.

Na sequência dos acontecimentos, Ortiz perdeu o cinturão na unificação contra Couture, foi nocauteado por Liddell e se recuperou com uma vitória sobre o novato Patrick Côté, um assalto contra Vitor Belfort e uma batalha contra o então vencedor do TUF 1 Forrest Griffin. Em paralelo, Shamrock fez lutas aleatórias, liderou o card da final do TUF 1 contra Rich Franklin e foi nomeado junto com Royce Gracie como os primeiros integrantes do Hall da Fama do UFC, no aniversário de dez anos da organização. Mas sempre ficou impregnando os ouvidos de Dana White pedindo uma revanche contra Ortiz, que entrou na pilha e mandou: “Se você conseguir bater 93 quilos, eu amaria te dar outra surra”.

O que fez o UFC? Escalou Ortiz e Shamrock como técnicos do TUF 3 e os colocaram para sair na mão no UFC 61, em julho de 2006. Com a popularidade do reality show acirrando a rivalidade, nem é preciso dizer como foi grande a revanche. O UFC bateu recordes de pay-per-view e renda (775 mil pacotes e US$3,4 milhões, respectivamente) e Ortiz bateu em Shamrock novamente. Desta vez, o Bad Boy de Huntington Beach precisou de apenas 78 segundos para nocautear o Homem Mais Perigoso do Mundo já com 42 anos com cotoveladas no ground and pound. A luta rendeu muita polêmica, já que Shamrock reclamou que o árbitro Herb Dean fora precipitado na interrupção do combate. Com o público também enfurecido pelo resultado, Dana logo confirmou o terceiro encontro.

Um evento foi inventado por Dana White para encaixar o encerramento da trilogia. O Ortiz vs. Shamrock 3: The Final Chapter, em outubro do mesmo ano, não foi card numerado, tampouco UFC Fight Night, mas ainda assim atraiu enorme interesse dos fãs, gerando audiência recorde até então (de acordo com o presidente da Spike TV, que transmitiu o evento, esta luta fez os patrocinadores acordarem definitivamente para o MMA). A luta? Ora, ora, ora. Terminou em outra sova. Como não? Nocauteado antes da metade do primeiro round, humilhado pela camiseta de Ortiz que dizia “Puni-lo para a aposentadoria”, Shamrock anunciou que estava se retirando oficialmente do MMA (na verdade ele fez mais cinco lutas, mas apenas para cumprir papelão).

Placar final: Tito Ortiz 3 x 0 Ken Shamrock

Randy Couture vs Vitor Belfort

O Natural e o Fenômeno lutaram por título em duas oportunidades, mas foi o primeiro encontro, que não tinha nada em jogo, um dos momentos mais representativos na história do MMA.

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Representantes dos primórdios do MMA, Randy Couture e Vitor Belfort se enfrentaram pela primeira vez no UFC 15, em outubro de 1997. Vitor era uma máquina de nocautear com 20 anos que não tinha levado mais do que 77 segundos para despachar seus quatro oponentes anteriores e que conquistara o título do torneio do UFC na décima segunda edição. Couture era um prestigiado wrestler que havia feito duas lutas e conquistado o torneio na edição seguinte, mas que já estava com seus 34 anos, tido como um iniciante que teria carreira curta.

No mesmo UFC 12 que Belfort conquistou o torneio, Mark Coleman se tornou o primeiro campeão dos pesados da história do UFC. No UFC 15, Vitor e Randy disputaram uma eliminatória para saber quem se tornaria o desafiante número um de Maurice Smith, que tomara o cinturão de Coleman no UFC 14. Belfort era franco favorito a transformar Couture em estatística. Porém, o que se viu foi a primeira demonstração de tática no MMA. Sabendo do poderio dos punhos de Belfort, principalmente na mão esquerda, o veterano americano anulou a principal arma do brasileiro circulando em direção ao lado direito do Fenômeno, encurtando a distância e muitas vezes prendendo a canhota de Vitor enquanto trabalhava no dirty boxing no clinch. Randy ainda capitalizou uma tentativa de ataque do rival com uma queda, descendo a madeira no ground and pound. Esta tática exauriu Belfort, que acabou nocauteado com pouco mais de oito minutos de luta.

Os lutadores voltaram a se encontrar no octógono em janeiro de 2004, no UFC 46, já como meios-pesados. Na época, Vitor vivia o drama do sequestro e sumiço de sua irmã Priscila Belfort, quando entrou em parafuso e viu a carreira degringolar. Couture ganhara, perdera e recuperara o cinturão dos pesados mais de uma vez, baixou de categoria após ser derrotado por Ricco Rodriguez e Josh Barnett, conquistando a coroa dos meios-pesados contra Liddell. Defendeu atropelando Ortiz e voltou a encontrar Belfort. Porém, o combate durou menos de um minuto. Quando Randy tentou encurtar a distância, encontrou um gancho de esquerda de Vitor. O golpe passou de raspão, mas uma ponta da luva do brasileiro acertou dentro do olho do campeão. O médico foi chamado, avaliou o corte e decidiu que Couture não tinha condição de seguir na luta. Como o soco não foi ilegal, Belfort foi considerado vencedor por nocaute técnico, conquistando um cinturão do UFC pela primeira (e até agora única) vez.

Com o anticlímax do final do confronto, o UFC escalou o terceiro capítulo para agosto do mesmo ano, no UFC 49. E aí não teve jeito. Couture pegou um Belfort que parecia um zumbi no octógono e aplicou-lhe uma surra inesquecível, esmagando-o contra a grade num ground and pound feroz. No intervalo de um dos rounds, foi angustiante a cena do brasileiro sentado no chão do octógono com o rosto completamente ensanguentado. Era óbvio que Belfort não tinha nenhuma condição de seguir recebendo aquele castigo. O árbitro então não o deixou voltar para o quarto round, declarando a vitória por nocaute técnico de Couture, que reconquistava assim o cinturão dos meios-pesados.

Placar final: Randy Couture 2 x 1 Vitor Belfort

Georges St. Pierre vs Matt Hughes

Rei morto, rei posto: um jovem canadense toma o lugar do campeão mais dominante da primeira metade da década passada.

Georges-St-Pierre-Matt-Hughes

Georges St-Pierre desembarcou no UFC com a expectativa de se tornar um dia uma grande estrela. Com 5-0 (três nocautes e duas submissões), ele estreou em janeiro de 2004, aos 22 anos. Na primeira luta, no UFC 46, o perigoso Karo Parysian foi dominado. Na segunda, no UFC 48, menos de dois minutos para nocautear Jay Hieron. A terceira? Disputar o cinturão vago com Matt Hughes, então com cartel de 36-4 e dono do recorde de defesas da história do UFC, nove meses depois de pisar pela primeira vez no octógono, no UFC 50. Era óbvio que se tratava de um passo maior do que a perna do canadense. O confronto foi até bem disputado e equilibrado, mas o experiente Hughes venceu com uma chave de braço no último segundo do primeiro round.

A partir dali, Hughes parecia novamente ser invencível. Ele manteve o cinturão com grandes vitórias, passando inclusive pelo espancamento sobre Royce Gracie. Correndo por fora, St. Pierre refez seu caminho e se tornou desafiante número um novamente, chegando a entrar no octógono após uma defesa de Hughes para dizer que “não estava impressionado com a atuação do campeão”. A revanche então aconteceu no UFC 65, quando a história foi bem diferente do primeiro duelo. GSP surrou o americano, mandou-o a knockdown no primeiro round e fechou o caixão com um chutaço no pé do ouvido de Hughes, que desabou ouvindo sinal de ocupado e acabou soterrado por um ground and pound violento. O cinturão finalmente estava com o Rush.

Logo na primeira defesa, o mundo de St. Pierre ruiu. Achando-se acima do bem e do mal, o canadense foi nocauteado por Matt Serra, na luta considerada a maior zebra da história do UFC. GSP teve que se refazer contra Josh Koscheck, superando no wrestling o rival altamente gabaritado. Ele então enfrentaria o vencedor de Serra-Hughes, mas o campeão se machucou e o UFC escalou um título interino entre St. Pierre e Hughes. A trilogia foi decidida no UFC 79, quando novamente o americano não foi páreo para o canadense. Desta vez, a vitória teve um sabor ainda mais doce, pois GSP vingou inclusive a chave de braço de três anos antes. Na luta seguinte, Georges St. Pierre espancou Matt Serra, vingou a derrota e unificou o cinturão que repousa em sua casa até hoje, marcando o maior reinado no UFC na atualidade.

Placar final: Georges St. Pierre 2 x 1 Matt Hughes

Frankie Edgar vs Gray Maynard

Lutadores que pareciam ser apenas mais dois talentos no UFC travaram batalhas que estão listadas como algumas das melhores da história do MMA.

UFC 136 Frankie Edgar nocauteou Gray Maynard

Quando Gray Maynard e Frank Edgar se enfrentaram pela primeira vez, em abril de 2008, o pequenino Frankie foi mais uma das vítimas do repetitivo jogo de quedas e ground and pound do adversário. A luta, que terminou com vitória por decisão unânime de Maynard, parecia mostrar que nenhum dos dois um dia seria capaz de destronar BJ Penn, em caminho para se tornar o melhor peso leve da história.

Dois anos depois, uma trinca de vitórias com dois bônus de luta da noite transformaram Edgar em desafiante. Ele surpreendeu o mundo ao bater Penn em abril de 2010 e repetir a dose na revanche imediata, em agosto, limpando quaisquer dúvidas sobre seu merecimento. Em paralelo, Maynard seguiu no seu estilo, superou cinco oponentes, incluindo Kenny Florian, Nate Diaz e Jim Miller, transformando-se no primeiro desafiante de Edgar pós-BJ. E quando ninguém dava nada pelo confronto, os lutadores disputaram uma peleja épica. Para completar, repetiram a dose meses depois.

Em janeiro de 2011, Maynard jogou no lixo seu estilo cansativo e se transformou numa máquina assassina. Ele aplicou uma das maiores surras num round já vista num combate – não foram poucos os que ficaram tentados a apontar 10-7 para o desafiante. Eis que a surpresa aumentou ainda mais no assalto seguinte, quando Frank mostrou o tamanho de seu coração ao voltar como se nada tivesse acontecido, passando a dominar o combate. E quando a luta parecia ir para as mãos do campeão, Gray volta a se recuperar e deixa um pepino gigante nas mãos dos juízes. No placar oficial, um apontou 48–46 Maynard, outro ficou com 48–46 Edgar e o terceiro decretou a igualdade em 47–47. Edgar se manteve campeão, mas com a pecha de jamais ter derrotado Maynard.

A terceira luta foi marcada para outubro de 2011. Edgar passou a ser considerado um campeão amado (o pequenino que suporta castigos tremendos de oponentes maiores), enquanto Maynard tinha que mostrar que a fúria demonstrada na luta anterior passara a ser sua característica. E assim foi feito. Novamente, Gray passou o carro em Frankie na primeira parcial. E, incrível, novamente Edgar voltou para o round posterior como se estivesse voltando de um passeio no parque. O campeão passou a controlar a luta e, diferentemente do segundo encontro, não deixou o desafiante voltar ao jogo. No quarto round, Edgar apertou o ritmo, tirou a invencibilidade do rival com um nocaute e, de quebra, acabou de conquistar os corações restantes dos fãs.

Placar final: Frankie Edgar 1 x 1 Gray Maynard (1 empate)