Arbitrar MMA é muito sério, assim como escolher os árbitros

Por Alexandre Matos | 16/08/2017 21:40

Frequentemente os fãs de MMA estão envolvidos em discussões sobre julgamento de lutas, apoiados em intermináveis casos de juízes que erram evento sim, outro também ao redor do mundo. Com menos frequência se vê discussões sobre erros de arbitragem, cometidos pelos homens e mulheres de preto dentro dos cages e ringues. Porém, estes casos podem ser muito mais graves por envolver a integridade física dos atletas.

No último sábado, o Ginásio Chico Neto, na cidade paranaense de Maringá, foi palco do Aspera FC 55. Com uma política agressiva de expansão baseada em parcerias com outros promotores, o Aspera FC é a organização que mais cresceu no Brasil em tempos de crise econômica refletindo diretamente no cenário nacional do MMA. O Aspera FC 55 escalou um card repleto de nomes conhecidos como os ex-UFC Glaico Nego, Marcio Lyoto, Maiquel Falcão, Iliarde Santos, Alberto Uda e Ivan Batman. Porém, o cuidado com a formação do card não se refletiu na seleção dos profissionais que trabalharam no evento. O árbitro Gastão Oliveira Junior cometeu erros crassos no combate de Lyoto contra Fabio Aguiar.

Repare os lances no vídeo abaixo. No primeiro chute de Lyoto, Fabio tem apenas os dois pés em contato com o chão, o que caracteriza o golpe como legal. Porém, o impacto faz com que o pernambucano caia sentado. Com um pé, uma perna inteira e uma mão apoiados no solo, Aguiar recebe outro chute de Lyoto. Ainda que, no momento do impacto, a mão que estava no chão tenha subido para proteger o rosto, as nádegas do nordestino só não estavam no chão por causa da posição do lutador, que sentou na própria perna (esta, sim, em contato com o solo). Não considerar que Fabio estava em mais de três apoios é ridículo. Ele protestou com o árbitro, que, muito bem posicionado, mandou o combate prosseguir. Marcio executa outro chute com o rival sentado e parte para o ground and pound.

Achou esse erro grosseiro? Pois continue assistindo ao vídeo para ver que Gastão foi além. No segundo assalto, um mata-cobra de Aguiar atingiu em cheio o rosto de Lyoto, que sentiu o golpe. Fabio percebeu a oportunidade e seguiu no ataque. Mais um mata-cobra e diversos uppercuts e ganchos deixaram Marcio em situação crítica contra a grade, com os braços largados, sem condição alguma de se defender, apenas absorvendo o castigo. Qualquer árbitro com um pingo de responsabilidade e conhecimento das regras teria parado a luta ali. Não foi o que Gastão fez. Faltando 15 segundos, Lyoto caiu entregue. Como o mediador não interrompeu, Aguiar seguiu para o ground and pound até a buzina salvar o catarinense de mais castigo.

O circo dos horrores seguiu no intervalo, quando uma emergencista tratou Lyoto, sentado no banquinho sem a menor condição de luta, com balão de oxigênio. Não apareceu uma alma para impedir que a barbaridade seguisse adiante. Apesar da ilegalidade do tratamento, Marcio foi autorizado a voltar para o terceiro round. Como obviamente mal conseguia se manter de pé, foi atingido inúmeras vezes até ficar contra a grade mal se defendendo depois de sofrer mais um knockdown. Gastão parou a luta, mas para chamar a médica no cage. Lyoto recebeu a tradicional lanterninha nos olhos e a médica sugeriu ao árbitro acabar o combate. A decisão foi tomada na marca de 3:03 do último assalto.

Esta não foi a primeira vez que Gastão cometeu um absurdo dentro de um cage de MMA. Um ano atrás, no Aspera FC 43, ele não percebeu que Henrique Santos estava apagado dentro de uma guilhotina aplicada por Saimon Oliveira. Gastão levou mais de dez segundos para decretar a vitória de Saimon por finalização, expondo Henrique a uma situação que poderia ter tido contornos dramáticos.

A intenção aqui não é promover uma execração pública de Gastão Oliveira ou do Aspera FC. Erros graves de arbitragem acontecem em todo canto, inclusive no UFC. Quem esqueceu o massacre que o árbitro John Sharp permitiu que Mark Hunt sofresse pelas mãos de Stipe Miocic? Acontece até com os melhores do mundo. Só em 2017, “Big” John McCarthy errou ao demorar a interromper as vitórias de Jon Jones sobre Daniel Cormier e, muito mais grave, de Yair Rodríguez sobre BJ Penn.

Eu poderia ficar até amanhã relembrando momentos em que um árbitro deixou de cumprir sua principal responsabilidade numa luta: a de preservar a integridade física dos atletas. Não adianta sermos defensores do MMA a ponto de ignorarmos que se trata de um esporte que traz riscos aos praticantes. Porém, é possível que, tomando todos os cuidados necessários, o MMA possa continuar gerando oportunidades e entretendo os fãs sem que uma fatalidade aconteça. Para tanto, é de fundamental importância que os árbitros e médicos tenham responsabilidade e conhecimento, tanto da prática de suas profissões quanto das regras do MMA. Tão importante quanto montar um card sensacional é ter o cuidado de escalar profissionais que protejam o lutador de sua própria coragem. É ter a responsabilidade de manter os profissionais em constante processo de reciclagem. E, quando for o caso, até de banir um profissional que tenha demonstrado incapacidade de executar o básico de suas tarefas, quando essas tarefas envolvem a saúde e a integridade de uma pessoa.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.