Por Alexandre Matos | 01/09/2013 02:24

Um ótimo evento só poderia acabar de modo sensacional. O UFC 164 viu o segundo campeão passar a coroa em menos de dois meses. Com uma chave de braço no primeiro round, Anthony Pettis virou a luta contra Ben Henderson, tomou o cinturão do oponente e, de quebra, o transformou em freguês. Para completar, a vitória rendeu US$50 mil adicionais pelo bônus de submissão da noite.

Na luta coprincipal, Josh Barnett reestreou no UFC como uma locomotiva desgovernada. Com muita pressão e um dirty boxing na grade brutal, o “Mestre da Guerra” implodiu o também ex-campeão Frank Mir ainda no round inicial.

Imediatamente antes, Chad Mendes anotou mais um nome em seu caderninho de concorrência atropelada. Depois de dominar dois rounds, o ex-desafiante dos penas voltou com o instinto matador aguçado no terceiro e aniquilou Clay Guida, anotando sua quarta vitória por nocaute desde que foi derrotado por José Aldo. A primeira vez que Guida acabou nocauteado na carreira valeu o bônus de nocaute da noite para Mendes.

O card principal abriu com duas lutas antagônicas em vários sentidos. Quem primeiro entrou no octógono foram os penas Dustin Poirier e Erik Koch, que fizeram um combate muito movimentado, vencido pelo primeiro na decisão. Em seguida, os pesados Ben Rothwell e Brandon Vera disputaram uma luta sem emoção até Big Ben conectar violentas pedradas e dar cabo do oponente no terceiro round.

O UFC 164 atraiu 9.178 torcedores ao BMO Harris Bradley Center, gerando renda de US$907 mil. Dana White ainda bonificou o duelo das preliminares entre Hyun Gyu Lim e Pascal Krauss, vencido pelo primeiro por nocaute técnico no primeiro round.

Anthony Pettis (EUA) venceu Benson Henderson (EUA) por submissão com chave de braço (4:31, R1)

Depois de levar pressão na grade, Anthony Pettis reage e leva o braço e o cinturão de Ben Henderson (Foto: Ed Mulholland/Zuffa LLC)

Depois de levar pressão na grade, Anthony Pettis reage e leva o braço e o cinturão de Ben Henderson (Foto: Ed Mulholland/Zuffa LLC)

Não era segredo para ninguém que Pettis é um lutador de elite e tinha total capacidade de tomar (de novo) o cinturão de Henderson. O que poucos imaginavam é que o trabalho feito por Diego Moraes com o novo campeão traria um resultado deste tamanho tão rapidamente.

Pela primeira vez no UFC com a vasta cabeleira presa em tranças, Henderson entrou com a tática correta de não deixar Pettis confortável na distância. Com um jogo de clinch forte, o campeão parecia que minava não só o físico como a confiança de Pettis. Mas pelo visto foi só impressão.

Quando o desafiante conseguiu se desvencilhar da grade, foi a hora de trabalhar suas mais poderosas armas. Pettis aplicou alguns violentos chutes e um soco na linha de cintura do campeão, que visivelmente sentiu, mas saiu de lado. O desafiante inventou um chute alto mirabolante, mas errou e acabou caindo. Mas a falha lhe rendeu a vitória quando Benson caiu em sua guarda e rapidamente ficou preso numa chave de braço. O campeão girou para o lado errado e acabou ainda mais travado. Sem ter como bater, Henderson se rendeu verbalmente.

“Eu senti o braço dele estalar e o ouvi falar: ‘Desisto’. Foram os chutes no corpo que resolveram a parada. Eu o acertei com quatro ou cinco chutes no corpo e vi seu rosto mudar. Chutes no corpo são pouco valorizados no MMA. As pessoas não sabem como usá-los. Eu sou um artista marcial tradicional, tenho usado chutes baixos desde que tinha 5 anos de idade, então esses golpes são bons movimentos para mim.”

Esta foi a primeira luta de MMA de Henderson desde que conquistou a faixa preta de jiu-jítsu, após ganhar a medalha de bronze no Mundial na faixa marrom. Pettis, sem os mesmos resultados na arte suave, mostrou que o trabalho feito no Brasil com os irmãos Moraes estão mais em dia do que nunca. Mas o agora ex-campeão não deu desculpas.

“Anthony é um cara duro. Ele provou ser o desafiante número um e agora o campeão. Ele pegou meu braço, fez um bom trabalho em rotacioná-lo para a direção correta. Aquilo foi uma chave de braço de alto nível. Muitos caras teriam errado a técnica, mas foi um ótimo armlock. Meu braço está me matando.

“Eu queria simplesmente colocar pressão nele. Ele não é tão bom andando para trás. Ele é muito melhor se você der espaço para ele avançar, então a ideia era mantê-lo recuando o tempo inteiro. Os chutes que ele me acertou aconteceram quando ele estava avançando.”

Joshua Barnett (EUA) venceu Francisco Miranda (EUA) por nocaute técnico (1:56, R1)

Josh Barnett e sua tradicional comemoração estão de volta para onde nunca deveriam ter saído (Foto: Esther Lin/MMAFighting.com)

Josh Barnett e sua tradicional comemoração estão de volta para onde nunca deveriam ter saído (Foto: Esther Lin/MMAFighting.com)

Antes do combate, Barnett disse que seria estupidez ir para o chão com Mir (mas disse que, durante suas bebedeiras, já fez coisas mais estúpidas). Na hora da luta, o Mestre da Guerra seguiu seu plano. E que belo plano.

Foi o árbitro Rob Hinds autorizar o início do combate para os gigantes se atracarem como cães famintos no centro do octógono, muito por causa da pressão de Barnett. O ex-Strikeforce disparava joelhadas no thai clinch enquanto Mir tentava socar alucinadamente. Duas senhoras cotoveladas de Josh começaram a cortar o ímpeto e o rosto do rival. Dois uppercuts no queixo, duas joelhadas no corpo e Mir dava sinais que se aproximava da vala.

Barnett continuou implacável, trabalhando golpes curtos e duros, variando bem entre a cabeça e o corpo de Frank. Uma sequência violenta acabou com um joelhaço em cheio no queixo. Mir desabou visivelmente sem saber aonde estava e Hinds voou para interromper o combate. Frank reclamou da interrupção, alguns fãs e Dana White também. A eles, aquela música: “Pode chorar!”

Chad Mendes (EUA) venceu Clayton Guida (EUA) por nocaute técnico (0:30, R3)

A direita violenta de Chad Mendes que abriu caminho para o primeiro nocaute sofrido por Clay Guida (Foto: Esther Lin/MMAFightin.com)

A direita violenta de Chad Mendes que abriu caminho para o primeiro nocaute sofrido por Clay Guida (Foto: Esther Lin/MMAFightin.com)

Conforme esperado, Mendes precisou de um tempo para se ajustar à movimentação irregular de Guida. Quando pegou o ritmo, mostrou que a diferença técnica é enorme.

O tempo durou até Guida achar que seria uma boa tentar derrubar um cara que jamais foi derrubado em toda a carreira no WEC e UFC. Na primeira tentativa, no primeiro round, quase ficou numa guilhotina. Na segunda, no round seguinte, permitiu que Mendes acabasse nas costas (mas não sem antes defender a queda “caminhando” na grade). A terceira rendeu um uppercut aplicado por Mendes no clinch emendado em um single-leg que quase saiu numa americana nas costas. E a quarta acabou num rápido ground and pound de Chad quando Guida “passou batido” e quase deu de cara na grade.

“Achar o tempo”, para Mendes, representou também ele próprio conectar suas quedas. No minuto final do primeiro round, uma delas entrou. O Alpha Male caiu por cima e não deu espaço para Guida trabalhar na guarda. Mendes ainda aplicou o single descrito no parágrafo acima.

Com a movimentação do oponente “decifrada”, era hora de Mendes terminar o assunto. E ele fez logo no começo do terceiro round. Guida saiu para o abafa e levou um cruzado de esquerda, tombando em knockdown. Ele tentou agarrar as pernas de Mendes, levou algumas pancadas, mas conseguiu se levantar. De pé, levou uma direita poderosa no queixo e deitou na cova. Mais dois golpes no ground and pound fizeram o árbitro Yves Lavigne se meter e decretar a primeira derrota por nocaute de Clayton em 44 lutas profissionais.

Ben Rothwell (EUA) venceu Brandon Vera (EUA) por nocaute técnico (1:54, R3)

Brandon Vera se prepara para a posição fetal. De olho, Herb Dean logo decreta o nocaute técnico a favor de Ben Rothwell (Foto: Esther Lin/MMAFighting.com)

Brandon Vera se prepara para a posição fetal. De olho, Herb Dean logo decreta o nocaute técnico a favor de Ben Rothwell (Foto: Esther Lin/MMAFighting.com)

“Uma hora o Vera faz uma ‘verice'” (AYMORÉ, Renata). Nossa musa sempre tem razão.

No confronto entre a técnica e a velocidade com a força bruta e a pressão, Vera resistiu o quanto pode. Ele venceu o primeiro round de pouca emoção circulando bastante, confiando na precisão dos contragolpes, principalmente os chutes nas pernas e no corpo, atuando na longa distância, sem deixar o brutal oponente se aproximar.

No segundo, Big Ben conseguiu chegar ao clinch na grade em algumas oportunidades, deixando de cortesia algumas pedradas no oponente conhecido por não lidar bem sob bateria. Socos, cotoveladas e joelhadas fizeram parte do arsenal de Rothwell no combate corpo a corpo. Vera respondeu ao fogo, mas sem causar o mesmo impacto. O fim do segundo round apontava uma luta ruim e um empate em 19-19.

No terceiro round, hora de Vera fazer “verice”. Rothwell resolveu tomar a iniciativa e chegou logo ao clinch. O árbitro Herb Dean separou por falta de ação e o combate voltou para o centro. Foi a vez de Big Ben tentar confundir o rival com uma movimentação esquisita que parecia passos de funk. E deu certo: vários socos violentos passaram a conectar o rosto de Vera, que se encolheu na grade. Uma batelada de socos e joelhadas o levaram ao chão. Brandon ameaçou uma chave de braço, mas o ground and pound de Rothwell estava presente. Vera então abriu o “manual do cagalhão” (proj. Patricio Pitbull) na página dois e leu lá: “Encolha-se em posição fetal que o árbitro para a luta”. Dito e feito.

Dustin Poirier (EUA) venceu Erik Koch (EUA) por decisão unânime (29-28, 29-27, 29-27)

Dustin Poirier manda Erik Koch a knockdown pela segunda vez no UFC 164 (Foto> Esther Lin/MMAFighting.com)

Dustin Poirier manda Erik Koch a knockdown pela segunda vez no UFC 164 (Foto> Esther Lin/MMAFighting.com)

O combate entre Lim e Krauss, disputado no card preliminar, foi bonificado como o melhor do UFC 164. Mas se Dana White tivesse dado o prêmio a Poirier e Koch, ninguém reclamaria. Principalmente pelo primeiro round.

Em uma das melhores parciais dos últimos tempos, aconteceu quase tudo neste primeiro round. E o melhor, com cada lutador conseguindo seu melhor na área de especialidade do adversário. Poirier começou pressionando na troca de golpes e mandou Koch a knockdown com uma direita fulminante. O Diamante tentou trabalhar no solo e a luta virou. Koch o prendeu num triângulo. Mas não um triângulo qualquer. O estrangulamento foi tão profundo que parecia questão de segundos até Dustin bater. Mostrando coração enorme, Poirier foi ganhando terreno até finalmente se safar.

A situação deu moral a Koch, que passou a controlar a luta. E quando parecia que ele venceria o round, Poirier novamente anotou um violento knockdown e avançou em um triângulo de mão invertido, também bem encaixado, deixando o oponente em situação precária para o resto do combate.

O minuto de intervalo não recuperou Koch. Ele levou um tremendo atraso no segundo round, passando inclusive um tempo com Poirier montado. Sem conseguir produzir nada ofensivamente, Koch viu o prejuízo aumentar para 20-17 com o 10-8 do segundo round.

Koch voltou a ter um bom momento no fim da luta, novamente no ponto forte do oponente. Ele levou Poirier ao chão e conseguiu pegar as costas do rival. Erik tentou um mata-leão, mas não finalizou a luta. Ele venceu o round, mas acabou derrotado por 29-27 na contagem do MMA Brasil, mesmo placar anotado por dois juízes na contagem oficial.