Anderson Silva, 40 anos: há motivos para comemorar?

Por Anderson Cachapuz | 15/04/2015 18:38

14 de abril de 1975.

Há exatos quarenta anos nasceu aquele que se tornou uma das maiores lendas do mundo das artes marciais mistas em todos os tempos. Mas será que há motivos para Anderson Silva comemorar? E será que ele vai voltar?

Não é segredo para ninguém – muito menos para os bem informados leitores do MMA Brasil, já que a notícia surgiu no meio da gravação de um episódio do nosso podcast – que Anderson foi pego no exame antidoping feito antes da sua luta de retorno contra Nick Diaz, no UFC 183, em janeiro passado. Discussões jurídicas e suspensões à parte, uma questão ficou na mente de todos os fãs: seria este o fim da carreira de Anderson Silva?

Para responder tal questão, vamos começar falando um pouco da carreira desse superastro brasileiro.

Anderson nasceu em São Paulo e, aos 4 anos, mudou-se para Curitiba. E engana-se quem pensa que sua pretensão inicial era ser lutador. Anderson queria mesmo era ser jogador de futebol. Passava férias em São Paulo para visitar o pai e, em uma dessas ocasiões, tentou disputar uma peneira no Corinthians. Ele chegou atrasado e acabou não conseguindo fazer o teste.

Como o destino prega peças, a equipe de boxe estava chegando e Anderson foi observar o treino. Ao ser convidado para treinar com eles, mostrou jeito no esporte e tomou gosto. Aos 18 anos, já era faixa preta de taekwondo. Posteriormente, viria a se tornar também kruang preto de muay thai pelo mestre Fábio Noguchi, e em jiu-jítsu, pelos irmãos Nogueira.

Sua carreira no MMA começou em 1997 (vídeo abaixo, da estreia), com duas vitórias na primeira edição do Brazilian Freestyle Circuit. Poucos sabem, mas, após esses dois combates, Anderson fez uma luta de boxe até hoje envolta em muita polêmica. Ele perdeu para Osmar Luiz Teixeira, o Osmar Animal, por nocaute técnico no segundo round, em 1998. Porém, falta o registro desse combate (está no BoxRec, o maior site de registros de lutas de boxe do mundo, mas não está na Federação Paranaense de Boxe). A equipe de Anderson alega que foi só uma breve exibição e, por isso, a luta não consta nos registros. Ela existiu, mas foi omitida até mesmo da biografia do lutador.

Silva perdeu sua primeira luta no Mecca, evento famoso na época, e fez sua estreia internacional no Shotoo, duas vitórias depois, onde conquistou seu primeiro cinturão mundial, em 2001, vencendo Hayato Sakurai, pela categoria até 77 quilos.

No ano seguinte, “Spider” estreou no PRIDE FC com uma interrupção médica contra Alex Stiebling. Foi no evento japonês também que ele conheceu suas duas derrotas seguintes antes de migrar para o MMA norte-americano, quando Daiju Takase e Ryo Chonan o finalizaram nos ringues japoneses. Já nos Estados Unidos, no hoje famoso torneio do Rumble on the Rock, Anderson voltou a ser derrotado, desta vez para Yushin Okami, que “ganhou” por conta de uma pedalada que Anderson aplicou da guarda no oponente em três apoios. Okami disse que não conseguiria continuar lutando e o brasileiro foi desclassificado.

Nesse meio tempo, Silva fez sua estreia profissional no muay thai, em 2003, e sua segunda luta profissional de boxe, em 2005, vencendo ambas.

Então, o MMA começou a se popularizar e Anderson viu sua carreira dar uma guinada quando passou ao UFC. Apoiado por Rodrigo Minotauro e Rogério Minotouro, ele estreou no octógono contra Chris Leben, em 2006, e abateu o americano em apenas 49 segundos, com joelhadas.

Anderson passou a vencer, vencer e vencer. Mais tarde, já estabelecido como um campeão dominante dos médios, conheceu o primeiro divisor de águas na sua carreira: Chael Sonnen. O “Gângster de West Linn” teve um papel tão importante na carreira do “Spider” que o próprio reconheceu isso agradecendo ao americano por tudo que eles passaram (e pela grana alta que faturaram).

O campeão peso médio do UFC, dono da maior série invicta e em defesas de cinturão, transformou-se numa estrela de porte mundial. Anderson Silva nunca mais seria o mesmo após a luta contra Chael Sonnen. Muitas polêmicas e provocações se sucederam. Anderson o enfrentou com uma costela trincada e foi dominado por quatro rounds e meio até conseguir uma finalização genial, com um triângulo da guarda, a pouco menos de dois minutos de perder o título.

Ele virou definitivamente uma estrela de primeira grandeza no Brasil depois de nocautear Vitor Belfort com um chute frontal, no UFC 126, em fevereiro de 2011, quando Sonnen já requisitava uma revanche por “quase” ter vencido o “invencível” Anderson. Mais uma defesa, na revanche contra Okami, no sucesso que foi o primeiro UFC Rio, e lá estava uma das maiores promoções de luta que MMA já viu.

O momento em que Anderson Silva aplica o nocaute em Vitor Belfort foi parar no fundo de tela do videogame do UFC

O momento em que Anderson Silva aplica o nocaute em Vitor Belfort foi parar no fundo de tela do videogame do UFC

Conhecido no mundo todo, tido como mito, invencível, Anderson Silva tinha se tornado um dos maiores vendedores de pay-per-view da organização e figura constante nas grandes emissoras de TV. Lançou em 2011 um documentário chamado “Como Água”, que mostrou sua preparação para a primeira luta contra Sonnen. Anderson venceu a revanche contra Sonnen com um nocaute no segundo assalto, em evento que superou a barreira de um milhão de pacotes vendidos, e encerrou a rivalidade com o americano.

Sua história criada com muito suor estava no auge do sucesso quando ele se deparou com Chris Weidman. Em 2013, “Spider” enfrentou o garoto-prodígio dos Estados Unidos e perdeu o cinturão do UFC depois de 10 defesas consecutivas e 17 vitórias no total de sua trajetória no octógono. Ele foi completamente dominado e acabou nocauteado no segundo round, depois de excessivas brincadeiras.

A honra do “Spider” ficou abalada. Sua reputação foi posta em cheque. Gritos de “vendido” eram lançados por leigos – e até por não tão leigos assim. Anderson chegou a anunciar sua aposentadoria, mas voltou atrás com um novo contrato de 10 lutas com o UFC. Duas semanas depois, firmou o compromisso para aquela que tinha a intenção de ser a maior luta da história do UFC até então: a revanche contra Weidman.

O ex e o novo campeão se enfrentaram em dezembro de 2013. O fim foi o mesmo da primeira vez: Anderson foi dominado em todo o primeiro round e, quando o mesmo cenário se encaminhava para acontecer no segundo, o brasileiro tentou um chute baixo e quebrou a canela. Nocaute técnico e fim de linha para o “Spider”.

Quem, em sã consciência, apostaria que um sujeito, por mais durão que fosse, retornaria aos combates perto de completar 40 anos, depois de uma fratura como aquela? Anderson Silva não precisava mais provar nada para ninguém, nem para ele mesmo. Sua carreira até ali fora brilhante e não havia motivo para voltar.

Anderson Silva deixa o octógono de maca após fraturar a perna na segunda derrota para Chris Weidman, no UFC 168

Anderson Silva deixa o octógono de maca após fraturar a perna na segunda derrota para Chris Weidman, no UFC 168

No entanto, ele voltou. Para provar a si mesmo que não estava acabado, para provar ao público que ainda poderia lutar e até voltar a ser campeão. E também para consolidar uma nova reviravolta em sua brilhante carreira. Por que não?

O mundo do MMA voltou os olhos para o retorno do “Spider”. E novamente estava ele lá, em janeiro de 2015, para enfrentar Nick Diaz.

Palmas para Anderson. Exemplo de superação. Sua carreira, já tão brilhante, reluzia ainda mais agora. O campeão que se prova campeão em todas as adversidades.

Ele lutou. E venceu, como já estava acostumado. Porém, logo depois, teve que lidar novamente com essa gangorra chamada vida, que cismou em levá-lo ao fundo do poço mais uma vez: Anderson foi flagrado no exame antidoping, testando positivo para drostanolona e androsterona.

Muito embora ele ainda nem tenha sido julgado – e até por falta de um pronunciamento mais claro do ex-campeão –, a reputação tão brilhantemente construída e a comemorada “volta por cima” estavam em cheque.

O nome de Anderson Silva estava na lama. De novo. E nada comparado aos amenos gritos de “vendido” ouvidos outrora. Anderson agora era um lutador sujo. Dopado. Sim, o público não espera o julgamento para a condenação moral.

Ainda não se sabe de fato o que aconteceu. Saberemos em breve, talvez. Mas o fato é que Anderson já está condenado pelo público, por parte da mídia e por muita gente mundo afora. Ele agora PRECISA voltar.

Ele precisa voltar não para provar que é ou foi o melhor. Não para provar nada a si. Não para provar mais nada a ninguém. Ele precisa voltar porque deve isso aos seus fãs, ao público em geral e a ele mesmo, à sua história. Anderson Silva tem que voltar porque uma carreira brilhante não pode terminar dessa forma.

Ultimamente, Anderson tem se envolvido em “polêmicas” para desviar o foco do que fez (ou pode ter feito). Ele enviou uma carta para a Confederação Brasileira de Taekwondo pedindo para disputar as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, o que causou desconforto entre os pesos pesados da seleção. Em seu Instagram, publicou uma foto pedindo diretamente a Dana White uma revanche de sua última luta, contra Diaz, dessa vez no Brasil.

I believe that there is some things that are unfinished between me & Nick Diaz, I now hope that you, Dana White can accept my request & make a rematch possible in my country, Brazil

Uma foto publicada por Anderson Silva (@spiderandersonsilva) em

Antes, porém, Anderson precisa sentar e pensar. Reorganizar suas idéias, sua vida. Se ele realmente usou tais substâncias, precisa admitir seu erro, consertá-los e só então retornar ao octógono que fez seu nome virar uma das maiores lendas da história e consolidar mais uma volta por cima, encerrando sua carreira brilhante sem asteriscos ao lado de seu nome. “Anderson Silva aposentou-se em 2015 após ser flagrado em exame antidoping”. Feio demais, não?

Anderson não precisa disso. E sabe que não precisa terminar assim.

Não sou o Silva, mas, mesmo sendo só mais um Anderson por aí, é por isso que vos falo, com (quase) toda certeza do mundo, que ele volta. Veremos novamente o “Spider” em ação, ao menos mais uma vez.

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Gerente de projetos e bacharel em direito e atualmente empresário, ex-praticante de muay thai e fã de MMA. Flamenguista e natural do RJ. Pai do Nicolas, vulgo "Cachapinha", futuro campeão do UFC.