Anderson Silva, 40 anos: há motivos para comemorar?

Anderson Silva, 40 anos: há motivos para comemorar?
MMA

Depois de construir a mais brilhante reputação do UFC, Anderson caiu no antidoping e tenta desviar o foco antes do julgamento. Ele deveria voltar para encerrar a laureada carreira sem asterisco.

14 de abril de 1975.

Há exatos quarenta anos nasceu aquele que se tornou uma das maiores lendas do mundo das artes marciais mistas em todos os tempos. Mas será que há motivos para Anderson Silva comemorar? E será que ele vai voltar?

Não é segredo para ninguém – muito menos para os bem informados leitores do MMA Brasil, já que a notícia surgiu no meio da gravação de um episódio do nosso podcast – que Anderson foi pego no exame antidoping feito antes da sua luta de retorno contra Nick Diaz, no UFC 183, em janeiro passado. Discussões jurídicas e suspensões à parte, uma questão ficou na mente de todos os fãs: seria este o fim da carreira de Anderson Silva?

Para responder tal questão, vamos começar falando um pouco da carreira desse superastro brasileiro.

Anderson nasceu em São Paulo e, aos 4 anos, mudou-se para Curitiba. E engana-se quem pensa que sua pretensão inicial era ser lutador. Anderson queria mesmo era ser jogador de futebol. Passava férias em São Paulo para visitar o pai e, em uma dessas ocasiões, tentou disputar uma peneira no Corinthians. Ele chegou atrasado e acabou não conseguindo fazer o teste.

Como o destino prega peças, a equipe de boxe estava chegando e Anderson foi observar o treino. Ao ser convidado para treinar com eles, mostrou jeito no esporte e tomou gosto. Aos 18 anos, já era faixa preta de taekwondo. Posteriormente, viria a se tornar também kruang preto de muay thai pelo mestre Fábio Noguchi, e em jiu-jítsu, pelos irmãos Nogueira.

Sua carreira no MMA começou em 1997 (vídeo abaixo, da estreia), com duas vitórias na primeira edição do Brazilian Freestyle Circuit. Poucos sabem, mas, após esses dois combates, Anderson fez uma luta de boxe até hoje envolta em muita polêmica. Ele perdeu para Osmar Luiz Teixeira, o Osmar Animal, por nocaute técnico no segundo round, em 1998. Porém, falta o registro desse combate (está no BoxRec, o maior site de registros de lutas de boxe do mundo, mas não está na Federação Paranaense de Boxe). A equipe de Anderson alega que foi só uma breve exibição e, por isso, a luta não consta nos registros. Ela existiu, mas foi omitida até mesmo da biografia do lutador.

Silva perdeu sua primeira luta no Mecca, evento famoso na época, e fez sua estreia internacional no Shotoo, duas vitórias depois, onde conquistou seu primeiro cinturão mundial, em 2001, vencendo Hayato Sakurai, pela categoria até 77 quilos.

No ano seguinte, “Spider” estreou no PRIDE FC com uma interrupção médica contra Alex Stiebling. Foi no evento japonês também que ele conheceu suas duas derrotas seguintes antes de migrar para o MMA norte-americano, quando Daiju Takase e Ryo Chonan o finalizaram nos ringues japoneses. Já nos Estados Unidos, no hoje famoso torneio do Rumble on the Rock, Anderson voltou a ser derrotado, desta vez para Yushin Okami, que “ganhou” por conta de uma pedalada que Anderson aplicou da guarda no oponente em três apoios. Okami disse que não conseguiria continuar lutando e o brasileiro foi desclassificado.

Nesse meio tempo, Silva fez sua estreia profissional no muay thai, em 2003, e sua segunda luta profissional de boxe, em 2005, vencendo ambas.

Então, o MMA começou a se popularizar e Anderson viu sua carreira dar uma guinada quando passou ao UFC. Apoiado por Rodrigo Minotauro e Rogério Minotouro, ele estreou no octógono contra Chris Leben, em 2006, e abateu o americano em apenas 49 segundos, com joelhadas.

Anderson passou a vencer, vencer e vencer. Mais tarde, já estabelecido como um campeão dominante dos médios, conheceu o primeiro divisor de águas na sua carreira: Chael Sonnen. O “Gângster de West Linn” teve um papel tão importante na carreira do “Spider” que o próprio reconheceu isso agradecendo ao americano por tudo que eles passaram (e pela grana alta que faturaram).

O campeão peso médio do UFC, dono da maior série invicta e em defesas de cinturão, transformou-se numa estrela de porte mundial. Anderson Silva nunca mais seria o mesmo após a luta contra Chael Sonnen. Muitas polêmicas e provocações se sucederam. Anderson o enfrentou com uma costela trincada e foi dominado por quatro rounds e meio até conseguir uma finalização genial, com um triângulo da guarda, a pouco menos de dois minutos de perder o título.

Ele virou definitivamente uma estrela de primeira grandeza no Brasil depois de nocautear Vitor Belfort com um chute frontal, no UFC 126, em fevereiro de 2011, quando Sonnen já requisitava uma revanche por “quase” ter vencido o “invencível” Anderson. Mais uma defesa, na revanche contra Okami, no sucesso que foi o primeiro UFC Rio, e lá estava uma das maiores promoções de luta que MMA já viu.

O momento em que Anderson Silva aplica o nocaute em Vitor Belfort foi parar no fundo de tela do videogame do UFC

O momento em que Anderson Silva aplica o nocaute em Vitor Belfort foi parar no fundo de tela do videogame do UFC

Conhecido no mundo todo, tido como mito, invencível, Anderson Silva tinha se tornado um dos maiores vendedores de pay-per-view da organização e figura constante nas grandes emissoras de TV. Lançou em 2011 um documentário chamado “Como Água”, que mostrou sua preparação para a primeira luta contra Sonnen. Anderson venceu a revanche contra Sonnen com um nocaute no segundo assalto, em evento que superou a barreira de um milhão de pacotes vendidos, e encerrou a rivalidade com o americano.

Sua história criada com muito suor estava no auge do sucesso quando ele se deparou com Chris Weidman. Em 2013, “Spider” enfrentou o garoto-prodígio dos Estados Unidos e perdeu o cinturão do UFC depois de 10 defesas consecutivas e 17 vitórias no total de sua trajetória no octógono. Ele foi completamente dominado e acabou nocauteado no segundo round, depois de excessivas brincadeiras.

A honra do “Spider” ficou abalada. Sua reputação foi posta em cheque. Gritos de “vendido” eram lançados por leigos – e até por não tão leigos assim. Anderson chegou a anunciar sua aposentadoria, mas voltou atrás com um novo contrato de 10 lutas com o UFC. Duas semanas depois, firmou o compromisso para aquela que tinha a intenção de ser a maior luta da história do UFC até então: a revanche contra Weidman.

O ex e o novo campeão se enfrentaram em dezembro de 2013. O fim foi o mesmo da primeira vez: Anderson foi dominado em todo o primeiro round e, quando o mesmo cenário se encaminhava para acontecer no segundo, o brasileiro tentou um chute baixo e quebrou a canela. Nocaute técnico e fim de linha para o “Spider”.

Quem, em sã consciência, apostaria que um sujeito, por mais durão que fosse, retornaria aos combates perto de completar 40 anos, depois de uma fratura como aquela? Anderson Silva não precisava mais provar nada para ninguém, nem para ele mesmo. Sua carreira até ali fora brilhante e não havia motivo para voltar.

Anderson Silva deixa o octógono de maca após fraturar a perna na segunda derrota para Chris Weidman, no UFC 168

Anderson Silva deixa o octógono de maca após fraturar a perna na segunda derrota para Chris Weidman, no UFC 168

No entanto, ele voltou. Para provar a si mesmo que não estava acabado, para provar ao público que ainda poderia lutar e até voltar a ser campeão. E também para consolidar uma nova reviravolta em sua brilhante carreira. Por que não?

O mundo do MMA voltou os olhos para o retorno do “Spider”. E novamente estava ele lá, em janeiro de 2015, para enfrentar Nick Diaz.

Palmas para Anderson. Exemplo de superação. Sua carreira, já tão brilhante, reluzia ainda mais agora. O campeão que se prova campeão em todas as adversidades.

Ele lutou. E venceu, como já estava acostumado. Porém, logo depois, teve que lidar novamente com essa gangorra chamada vida, que cismou em levá-lo ao fundo do poço mais uma vez: Anderson foi flagrado no exame antidoping, testando positivo para drostanolona e androsterona.

Muito embora ele ainda nem tenha sido julgado – e até por falta de um pronunciamento mais claro do ex-campeão –, a reputação tão brilhantemente construída e a comemorada “volta por cima” estavam em cheque.

O nome de Anderson Silva estava na lama. De novo. E nada comparado aos amenos gritos de “vendido” ouvidos outrora. Anderson agora era um lutador sujo. Dopado. Sim, o público não espera o julgamento para a condenação moral.

Ainda não se sabe de fato o que aconteceu. Saberemos em breve, talvez. Mas o fato é que Anderson já está condenado pelo público, por parte da mídia e por muita gente mundo afora. Ele agora PRECISA voltar.

Ele precisa voltar não para provar que é ou foi o melhor. Não para provar nada a si. Não para provar mais nada a ninguém. Ele precisa voltar porque deve isso aos seus fãs, ao público em geral e a ele mesmo, à sua história. Anderson Silva tem que voltar porque uma carreira brilhante não pode terminar dessa forma.

Ultimamente, Anderson tem se envolvido em “polêmicas” para desviar o foco do que fez (ou pode ter feito). Ele enviou uma carta para a Confederação Brasileira de Taekwondo pedindo para disputar as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, o que causou desconforto entre os pesos pesados da seleção. Em seu Instagram, publicou uma foto pedindo diretamente a Dana White uma revanche de sua última luta, contra Diaz, dessa vez no Brasil.

Antes, porém, Anderson precisa sentar e pensar. Reorganizar suas idéias, sua vida. Se ele realmente usou tais substâncias, precisa admitir seu erro, consertá-los e só então retornar ao octógono que fez seu nome virar uma das maiores lendas da história e consolidar mais uma volta por cima, encerrando sua carreira brilhante sem asteriscos ao lado de seu nome. “Anderson Silva aposentou-se em 2015 após ser flagrado em exame antidoping”. Feio demais, não?

Anderson não precisa disso. E sabe que não precisa terminar assim.

Não sou o Silva, mas, mesmo sendo só mais um Anderson por aí, é por isso que vos falo, com (quase) toda certeza do mundo, que ele volta. Veremos novamente o “Spider” em ação, ao menos mais uma vez.

E você, o que acha disso tudo? A caixinha de comentários é logo ali abaixo.

  • Foda é que, se pegar um ano e meio, vai voltar com quase 42 anos.

    • Anderson Cachapuz

      Romário se aposentou com 42… o Couture não me lembro exatamente, mas acho que foi com 42 também… enfim, nem q seja pra fazer só mais uma luta ele volta…

      E acho que vão considerar isso quando aplicarem a suspensão dele.. e aposto que pega o tempo mínimo: 9 meses.

      E aí volta no fim do ano, ainda com 40… (chute meu)

      • Eu acho que você esqueceu que o Anderson caiu em dois testes com duas substâncias no primeiro e três no segundo. Não tem nenhuma chance de tomar suspensão mínima. Aliás, ninguém mais vai tomar 9 meses em Nevada porque eles estão começando a apertar as penas. Eu diria que o Anderson vai levar 18 meses (ou mais).

        • Anderson Cachapuz

          Seria o normal, mas será que não vão considerar a idade na hora da aplicação da pena?

          Pode ser que não, mas acho que existe essa possibilidade….

          E essa reincidencia conta como reincidencia mesmo? Dois testes diferentes, mas pra mesma luta… será que oneraria a pena?

          • Claro que não vão considerar idade na hora da pena, isso não faz nenhum sentido, a lei não pode privilegiar alguém por causa da idade. Seria como se a comissão atlética falasse: “Senhores com 40 anos ou mais, podem encher o rabo de anabolizante que nós seremos complacentes”.

      • E cara, a comparação com o Romário foi triste. Ele não ganhava a vida tomando porrada na cara.

        Couture parou aos 47, mas ele é exceção.

        • Paulo Josué Lemos Alves

          Couture lutou até os 47.. sem veneno nenhum?.. crê nisso?

  • Junior

    Revanche com Nick Diaz…que horror Anderson…toma vergonha na cara e faz um Anderson x Belfort no Brasil pra fechar a carreira.

    • Com os dois (ex-clientes do médico da comissão atlética brasileira) limpos, de preferência.

      • Thiago Kuhl

        Aí você já tá querendo demais né ?

        • Eu prezo pela competição justa. Se bem que os dois sujos não teria vantagem pra um lado hahaha

  • Nuna Guerreiro

    O Anderson ainda tem gás, não sei se para ser campeão novamente, talvez a hora dele tenha passado. Mas continuaria a ser um atleta de ponta no UFC. Agora poucos sabem a hora de se aposentar para “sair por cima”. O Randy Couture se aposentou aos 47 anos, mas aquele ali começou no MMA com 34 e foi campeão aos 41/42, então sua carreira foi tardia mesmo. Mesmo assim, se aposentou daquela forma, sem dente rs.
    Concordo com o que vc disse, agora o Anderson não deve se aposentar mesmo, não pode, não ficaria bem e nem vai. Só acho escrotice demais o cara ser pego nessas substâncias e dar esse auê todo, ser retirado do TUF, etc, enquanto Jon Jones foi pego com cocaína e não deu em nada, nem se fala mais no assunto. E a punição? É muita hipocrisia.

    • Não é escrotice. Eu expliquei aqui na época, mas vale explicar de novo. Cocaína não é doping fora de competição. O doping com “bomba”, que o Anderson caiu, é bem pior. A própria comissão atlética disse que o Jones sequer poderia ter sido testado com drogas sociais fora de competição. Nem o Jones, nem ninguém. Se não é considerado doping, não tem porque gastar dinheiro testando isso.

      O caso do Anderson é muito mais grave, até porque envolveu reincidência.

      • Nuna Guerreiro

        Não concordo. Cocaína dá mais resistência a dor e gás. Absurdo não ser considerado doping, pois se um lutador cheirar antes da luta, certamente afetará seu desempenho.

        • Nuna Guerreiro

          Agora vc vê, o Nick Diaz foi pego com maconha no dia da luta… isso não afeta o desempenho?

          • Afeta, por isso é doping no dia da luta, não antes. É perigoso porque, por exemplo, afeta o sentido de detectar dor da pessoa. Pra um lutador, isso é um perigo num esporte como MMA.

        • Aí você quer discutir com médicos. Existem centenas de estudos que dizem exatamente o contrário, que cocaína é muito mais maléfica do que benéfica. Se um lutador cheirar antes da luta, ele vai ter poucos minutos de euforia e depois vai se ferrar.

          Dito isso, cocaína é doping no dia da luta exatamente porque faz mal.

  • Airton S

    Depois que o Belfort levar um pau do Weidman, ponham os dois bombados (ele e o Anderson) em revanche num estádio no Brasil, com mídia efusiva, vendas estratosféricas, discursos em exaltação de ambos os legados e fica tudo certo, independente de quem vença. O Anderson se aposenta aí, o Belfort segue apanhando do resto do ranking, é defenestrado pelo UFC e se aposenta depois de vencer a revanche dada ao Wanderlei em luta no Brasil. O MMA se livra desses vários garotos-problema, todos faturam algum $ e a vida segue. Melhor cenário.

    • hahahahaha quanto desgosto no coração.

    • Malk Suruhito

      Eu acho que o Belfort tá dando o último tiro. Se o Weidman semi-assassinar ele, ele pendura as luvas.

    • Thiago Kuhl

      Não sei como expressar toda a minha concordância em palavras. Você mitou nesse comentário.

  • Paulo Zanchet

    Belo texto! É uma pena o cara terminar a carreira assim. Vamos ver se ele consegue dar a volta por cima, pois só tem feito m* ultimamente. Ficar quase dois anos parados talvez seja muito tempo pra ele.

    • Anderson Cachapuz

      Talvez faça até bem… vai gravar filme com o Steven Seagal, vai fazer propaganda da Gillete, participar do Altas Horas… depois que descansar um pouquinho, volta pra ganhar mais alguns milhões e pronto, para.

      • Ele não vai ser requisitado assim cumprindo suspensão por doping. O valor de mercado dele será seriamente afetado.

  • Junior

    Deve ser a primeira vez que um vencedor de um combate ( e sendo da categoria acima ) pede revanche contra um perdedor ( da categoria de baixo ), na boa, quem quer ver Anderson x Diaz 2???? acho que somente ele, nem o americano tá a fim mais…

    • É capaz mesmo de ser a primeira vez que um vencedor de categoria mais pesada pede revanche contra um perdedor de categoria mais leve. Não lembro de outro caso.

  • Paulo Josué Lemos Alves

    Lembro do Alexandre Matos comentando várias vezes que os pay-per-views dos eventos com o Anderson venderam mais por causa de seus adversários do que por ele, principalmente os com Chael Sonnen, e que as galinhas dos ovos de ouro do UFC sempre foram Lesnar e GSP.
    Afinal Anderson vendia bem ou não?

    • Como você mesmo já falou, eu já comentei sobre isso várias vezes. Sozinho, não.