Por Alexandre Matos | 31/12/2016 04:39

O UFC 207 demorou a engrenar, mas acabou de modo antológico. Na luta principal, Ronda Rousey entrou com a fisionomia de alguém que estava possuída. Porém, quando o combate começou, a campeã Amanda Nunes pisou no acelerador e não olhou para trás.

Em toda a sua carreira, Ronda se notabilizou pela agressividade inicial e a facilidade de encurtar a distância para chegar no clinch e dali para a queda e a finalização. Nesta sexta, a agressividade inicial apareceu, mas ela parou no ponto que os tenistas chamam de mata-burro, quando o jogador para no meio do caminho e não fecha a rede e ainda deixa o fundo de quadra desguarnecido. E parar no mata-burro contra uma matadora como Amanda não termina bem.

Logo a primeira direita desferida pela campeã jogou a cabeça de Ronda para trás. Imediatamente a fisionomia da americana mudou. Nunes sentiu a oportunidade e lançou todos os golpes com potência para terminar a luta. Desesperado, o criticado técnico Edmond Tarverdyan gritava “Head moviment! Hands up! Clinch!” (movimento de cabeça, levante as mãos, entre no clinch), mas sua pupila não obedeceu e engoliu todas as pancadas lançadas pela brasileira. O árbitro Herb Dean nem precisou esperar Ronda cair para decretar o fim do espancamento aos 48 segundos de luta.

A vitória garantiu não só a primeira defesa de Amanda Nunes, mas também provavelmente a catapultará para o estrelato no MMA feminino. De quebra, ela se posiciona fortemente na briga pelo prêmio de melhor lutador(a) do mundo em 2016. Ela subiu no octógono três vezes e venceu a campeã Miesha Tate, a maior estrela da história do MMA feminino, Ronda Rousey, e uma das concorrentes ao próximo posto de desafiante, Valentina Shevchenko, que fará a luta principal do UFC On FOX 23, em janeiro. Das três vitórias, as duas pelo título foram verdadeiros espancamentos unilaterais e Shevchenko levou 10 minutos de vareio antes de tentar alguma coisa no terceiro round.

Por outro lado, provavelmente vimos a última aparição de Rousey num cage de MMA. A superestrela não entrou na luta e voltou a mostrar os mesmos problemas defensivos que a arruinaram contra Holly Holm. Caso ela resolva lutar novamente, que mude de equipe urgentemente.

Cody Garbrandt toma o cinturão de Dominick Cruz com atuação gigantesca

Se alguém ainda tinha dúvida que Cody Garbrandt era de verdade, o UFC 207 tratou de responder. Brilhante, ele quebrou nove anos de invencibilidade de Dominick Cruz e devolveu o cinturão do peso galo para o Team Alpha Male.

Um grande campeão, em qualquer esporte, precisa de algumas características: confiança, talento e um sólido sistema defensivo. Garbrandt esbanjou os três aspectos, especialmente o terceiro. A movimentação tinha menos intensidade que a de Cruz, mas era por demais efetiva. O jogo de pernas e o movimento de cabeça tiraram muitos dos golpes de Dominick e os rápidos giros no pivô do boxe permitiam que ele acertasse socos fortes antes de Cruz evadir.

A defesa de quedas também funcionou muito bem, a ponto de quase anular a mais forte característica do então campeão, as transições. Numa dessas tentativas de Cruz, Garbrandt conseguiu contra-atacar e ele próprio derrubar o adversário, algo raro de se ver.

Dominick teve seus momentos. Ele demorou a achar a distância no primeiro assalto, mas conseguiu na reta final da parcial. Com o espaço mapeado, Cruz empatou a luta no segundo round e deu a impressão que poderia tocar os 15 minutos finais a seu estilo. Que nada. Garbrandt voltou ao controle da situação e iniciou um verdadeiro show nos minutos seguintes. Ele aplicou um knockdown no terceiro e mais dois no quarto, fazendo com que Cruz, com um enorme corte no supercílio, saísse de seu plano tradicional.

Em vez de fazer os adversários perderem a cabeça de tanto desperdiçar golpes, foi Cruz que se viu na posição de tentar arrancar a cabeça de Garbrandt. O jovem Alpha Male manteve a compostura e fez Cruz passar batido nos ataques como o próprio Dominick sempre fez com seus oponentes. O quarto round foi caso de 10-8 para o desafiante.

Com a confiança lá no alto, Garbrandt caiu de rendimento no quinto assalto, preocupado mais em humilhar Cruz – até deitar para pagar flexão ele fez, no melhor pior estilo Nick Diaz. Foi uma atitude perigosa, pois Dominick acabou vencendo a parcial e, como os dois primeiros rounds foram parelhos, corria o risco de os juízes não darem 10-8 no quarto e Garbrandt ver escoar pelo ralo uma atuação genial.

Derek Cleary e Jeff Mullen marcaram 10-8 e pontuaram a luta em 48-46 a favor de Garbrandt, mesmo placar visto pelo MMA Brasil. Tony Weeks ficou no convencional 48-47 e, como de costume, pontuou igual a cara dele, dando os dois primeiros assaltos para Cruz e o quinto para Garbrandt. No fim do combate, mostrando a serenidade de quem sabia que poderia vencer, Garbrandt desafiou o antigo parceiro de equipe TJ Dillashaw, numa história que pode tomar contornos de drama nos próximos meses. De quebra, o novo campeão deu o cinturão para o menino Maddox Maple, que ficou famoso por se recuperar de leucemia e entrar em todas as lutas com Garbrandt.

TJ Dillashaw dá aula de MMA a John Lineker e volta a mirar o cinturão

Chega num certo nível de elite que “acertar uma mão” se torna exceção, já dizia o filósofo Matos. Garbrandt levou seu jogo a um patamar de campeão para vencer Cruz sem precisar desse artifício. John Lineker não conseguiu e acabou virando presa fácil para TJ Dillashaw.

A estratégia de Dillashaw foi não só muito bem pensada como também executada. No começo do combate, ele manteve Lineker bem distante, usando chutes baixos e socos em entradas rápidas. Em seguida, TJ permitiu que o paranaense se aproximasse com perigo e punhos voaram perto da grade. Neste momento, o americano entendeu o tempo de avanço de Lineker e computou o que era necessário para mudar de nível.

A mudança veio no segundo assalto. Dillashaw foi genial nas fintas para entrar em quedas. Toda a evolução de Lineker no wrestling não foi suficiente para deter o ex-campeão, que derrubou, passou guarda, montou e baixou um coquetel de socos e cotoveladas. O baixinho defendeu os golpes com o rosto, o que nunca é recomendável. Mostrou o velho queixo de pedra, mas perdeu o assalto por 10-8.

No último período, Dillashaw voltou a derrubar com muita qualidade e atacou o adversário com uma chave de panturrilha. Lineker se defendeu, até conseguiu ficar de pé novamente, mas não achou TJ no octógono para acertar suas pedradas. Mais um round na conta do americano, que levou por 30-26 na contagem do MMA Brasil e dos três juízes laterais.

Dong Hyun Kim vence Tarec Saffiedine na última controvérsia do ano

Num duelo travado, Dong Hyun Kim venceu Tarec Saffiedine com ajuda dos juízes e de uma atuação abaixo do padrão do belga.

Nem sempre cabe reclamar da arbitragem quando não se faz seu papel corretamente. Kim cansou de dar chances para Saffiedine, mas o europeu teve dificuldade de aproveitar. O sul-coreano adotou uma postura agressiva, visando pressionar o oponente, fazendo com que Saffiedine tivesse que atacar recuando. Por causa disso, ao invés de se movimentar lateralmente e contragolpear, o belga optou pelo clinch em várias oportunidades.

Kim conseguiu um bonito harai goshi e esfregou as costas de Saffiedine contra a grade por boa parte do segundo assalto. Quando teve brechas, Tarec até acertou alguns socos, mas chutou pouco (provavelmente temendo ser derrubado) e combinou raras vezes com os punhos, facilitando o trabalho de pressão do coreano. No clinch, Saffiedine se defendeu bem, mas produziu pouco ofensivamente e deu brecha para os juízes se impressionarem com a pressão de pouca eficiência de Kim.

Um dos juízes marcou 30-27 para Saffiedine, um placar um tanto exagerado. Os outros dois deram 29-28 para Kim, igualmente forçado. O MMA Brasil ficou com 29-28 Saffiedine, mas a falta de produção ofensiva do belga acabou lhe custando a luta.

Ray Borg mostra grappling de elite para bater Louis Smolka

Por poucos momentos, a luta entre Ray Borg e Louis Smolka foi equilibrada. Na maioria, foi um passeio.

O equilíbrio se deu quando o duelo ficou na área do striking, entre o kickboxing de Smolka e o boxe de Borg. Porém, isso aconteceu por pouco tempo. Quando o wrestling do último entrou em ação, o combate se tornou unilateral. Borg aplicou queda de grande amplitude, montou, passou guarda, tentou finalizar, bateu no ground and pound. Fez de tudo no grappling. Preocupado, Smolka tentou girar bastante para manter a distância no segundo round, mas como não lançou combinações longas, permitiu que o rival grudasse, derrubasse e montasse.

Conforme o tempo passou, a defesa de Smolka piorou e ele passou a oferecer cada vez menos resistência. No terceiro round, Borg só não decidiu a luta num katagatame porque estava muito perto da grade e não conseguiu abrir espaço com o quadril para apertar o estrangulamento. Nem fez diferença, porque o passeio estava configurado.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.