Alistair Overeem é uma estrela decadente ou um embuste?

Por Alexandre Matos | 09/09/2014 21:06

A categoria dos pesados é, de modo geral, a menos provida de talentos no MMA. Ainda assim, ostenta popularidade enorme, parte herdada do histórico do boxe, parte pelo fascínio que os fãs nutrem por ver gigantes de mais de 1,90m e 100 quilos trocando pancadas até eventualmente um cair em colapso.

Pela introdução acima, alguém com nível pelo menos decente nos princípios básicos da técnica do MMA (troca de golpes, quedas e finalizações) facilmente se destaca entre os demais. Este é o caso do holandês Alistair Overeem, que começou no judô, passou mais tempo no muay thai e conquistou mais vitórias por finalização do que por nocaute na carreira.

Alistair Overeem se tornou um dos principais nomes da categoria mais nobre do MMA mundial

Alistair Overeem se tornou um dos principais nomes da categoria mais nobre do MMA mundial

Overeem é, sim, um bom lutador. Pode não ter coração de lutador, ter queixo de vidro, mas o sujeito domina decentemente os princípios básicos da técnica do MMA. No cenário infértil dos pesos pesados, é o suficiente para garantir uma vaga no UFC, onde menos votados como Sherman Pendergarst e Chris Tuchscherer andaram atuando. Mas a fama e a bolsa de Overeem não são de alguém apenas para garantir vaga no UFC. O gigante holandês tem um dos maiores salários do MMA mundial e um considerável número de cabeças em seu fã clube. Aí a pergunta muda: o que ele fez para merecer?

O Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa de Caldas Aulete explica o que é embuste:

embuste (em.bus.te):

sm.
1. Mentira astuciosa us. para enganar ou enredar alguém; ENGODO
2. Armadilha (Fig.), esparrela, situação armada intencionalmente para lograr alguém

Aos fãs de Overeem, sinto lhes informar: seu ídolo é um embuste. E não foi por falta de alerta aqui no MMA Brasil. Não foram poucas as vezes que tentei avisar que o holandês não era tudo aquilo que pensavam aqueles que chegaram a colocá-lo como o melhor peso pesado do planeta em certo momento. A área de comentários do site viveu momentos de tensão sempre que este debate vinha à tona.

Profissional desde os 19 anos, em 1999, The Reem foi um meio-pesado mediano por metade da carreira. Esteve no RINGS, no PRIDE, lutou com a elite, perdeu da grande maioria. Finalizou o já veterano Igor Vovchanchyn, bateu duas vezes um Vitor Belfort abalado pela tragédia que aconteceu com sua irmã e nocauteou Sergei Kharitonov em sua primeira tentativa como peso pesado, antes de ser nocauteado pelo russo na revanche. Porém, foi nocauteado por Chuck Liddell, Rogério Minotouro, levou duas surras de Maurício Shogun e outra de Ricardo Arona. Já naquela época, mostrava que o coração e o queixo não eram confiáveis e que o futuro não seria nada diferente do que fora a carreira até então.

Foi quando o embuste foi criado. Uma mentira astuciosa para enganar alguém. Um engodo. Com a extinção do PRIDE, Overeem conquistou seu primeiro título de expressão, o cinturão dos pesados do Strikeforce (que ainda nem era tanto assim de expressão). Isto aconteceu em novembro de 2007, quando ele finalizou Paul Buentello, lutador limitado, mas ex-desafiante do UFC. Overeem pesou 101 quilos e era muito mais magro e leve do que a elite da categoria (confira no link anterior).

Com o cinturão em mãos, Overeem sumiu do MMA norte-americano, passando quase três anos trafegando entre o Japão e a Europa, lutando em eventos não sancionados por comissões atléticas e sem testes antidoping. O resultado todos conhecem: o holandês virou um gigante.

Evolução física de Alistair Overeem (clique para expandir)

Evolução física de Alistair Overeem (clique para expandir)

Depois de sofrer um nocaute ridículo contra Kharitonov em sua segunda luta após a mudança definitiva de categoria, Overeem venceu sete seguidas antes de defender seu título no Strikeforce pela primeira vez depois de quase três anos da conquista. Porém, o único oponente qualificado da série foi Mirko Cro Cop, em luta que acabou sem decisão após Alistair aplicar duas joelhadas ilegais. Fora o croata, um Mark Hunt que era vencido por todo mundo, um Gary Goodridge provavelmente já com traços da dementia pugilistica que o acomete hoje em dia, um Kazuyuki Fujita, que tinha como credencial um knockdown em Fedor Emelianenko seis anos antes.

O ano de 2010 foi fundamental na virada da carreira de Overeem. Depois da primeira defesa do cinturão do Strikeforce, ele conquistou o K-1 World GP e o título do DREAM, que tentava ocupar o lugar do PRIDE no Japão. Porém, as duas conquistas aconteceram em situações especiais. No evento da final do K-1, Overeem venceu um contundido Gökhan Saki e recebeu na final o quarentão Peter Aerts exausto depois da batalha com o arquirrival Semmy Schilt. De quebra, a maior estrela da época, o marroquino Badr Hari, estava afastado das competições.

Foi assim que a figura intimidadora de Overeem entrou no torneio dos pesados do Strikeforce dividindo o favoritismo com Fedor. Metade dos 63 eventos promovidos pelo Strikeforce aconteceram na Califórnia, sob o controle da mais rigorosa comissão atlética americana. Overeem nunca lutou lá. Outros cinco eventos foram realizados em Nevada, onde outra rigorosa comissão atua. Overeem também não deu as caras. O holandês bateu Brett Rogers no Missouri e Fabricio Werdum, já pelo torneio, no Texas – a comissão local nunca divulgou os resultados do antidoping realizado.

Cena recorrente na luta: Werdum praticamente implorando para Overeem mergulhar em sua guarda

Cena recorrente na luta: Werdum praticamente implorando para Overeem mergulhar em sua guarda

O combate contra o gaúcho já mostrara que o monstro não era tão feio. Se tivesse a confiança dos dias de hoje em seu muay thai, Werdum provavelmente teria vencido ao invés de se jogar no chão pedindo para Overeem mergulhar em sua guarda. Em seguida, o holandês desistiu do GP e assinou com o UFC. Parecendo um fisiculturista, ele nocauteou Brock Lesnar, minado pela diverticulite, na estreia. Ao final do evento, escapou do antidoping da Comissão Atlética de Nevada (NAC) sob a alegação que precisava voltar à Holanda para cuidar de dona Clair Overeem, sua mãe, que estaria doente.

A NAC não engoliu a saída à francesa e finalmente pegou Overeem meses depois num antidoping surpresa, quando o lutador se preparava para desafiar o cinturão de Junior Cigano. Percebendo que o cerco havia fechado e que o UFC não o escalaria em locais com pouco rigor, The Reem mudou seus procedimentos de preparação física. Ele perdeu qualidade muscular e, junto, potência, velocidade e explosão. Com o aumento do nível técnico dos oponentes, o resultado foi trágico: lento, foi violentado por Antonio Pezão no terceiro round. Em seguida, cansou após uma blitz de dois minutos em Travis Browne e voltou a ser brutalmente nocauteado. Na última sexta-feira, cerca de 20 quilos mais leve em relação à estreia contra Lesnar, Overeem balançou no primeiro soco de Ben Rothwell e caiu no segundo.

A conclusão de toda esta saga não deveria ter chocado tanto. Overeem nunca teve resultados satisfatórios constantes contra a elite do MMA. Não seria agora, sem ajuda nefasta dos esteroides anabolizantes, que ele teria. Um retorno aos meios-pesados é improvável, pois 20 quilos ainda o separam do limite da categoria e, aos 35 anos, fica cada vez mais complicado cortar tanto peso. Para sua sorte, ele (ainda) conta com uma boa base de fãs (será?), então o UFC não deverá deixá-lo reforçar o elenco do Bellator, que é presidido pelo mesmo Scott Coker que lhe deu guarida no Strikeforce. Dana White e Joe Silva devem propor uma redução salarial e usá-lo para desbravar novos mercados na Europa e consolidar os asiáticos – provavelmente, claro, contra oposição menos qualificada.

E você, o que pensa do futuro de Alistair Overeem? Taca-le pau na caixinha de comentários!