Por Alexandre Matos | 16/09/2017 00:26

Demorou dois anos, mas finalmente a luta mais aguardada no atual cenário do boxe mundial vai se materializar neste sábado. A T-Mobile Arena, em Las Vegas, será palco do encontro entre dois dos mais empolgantes boxeadores da atualidade. O cazaque Gennady Golovkin colocará seus cinturões do peso médio versões WBA, WBC e IBF em jogo contra a coroa da The Ring do mexicano Canelo Álvarez.

Este confronto deveria ter acontecido há pelo menos um ano. Porém, Canelo pediu um tempo para se acostumar ao peso médio depois de fazer carreira no médio-ligeiro. Nestes dois anos, o mexicano fez duas lutas como médio contra meios-médios naturais (Miguel Cotto e Amir Khan), uma como médio-ligeiro (Liam Smith) e uma entre o peso médio e o supermédio, contra Julio César Chávez Jr. Álvarez demorou tanto para aceitar enfrentar GGG que recebeu o merecido castigo de ter a luta sob a sombra de MayMac.

O que torna este combate tão especial são as várias semelhanças e as singelas diferenças entre os lutadores. Na era pós-Floyd Mayweather, Canelo desponta como a maior estrela da nobre arte, capaz de vender um milhão de pacotes de pay-per-view sozinho. O mexicano tem todos os ingredientes para liderar o esporte entre as massas: carisma gigantesco, fome por nocautes e a agressividade típica do boxe mexicano. Já Golovkin merecia mais popularidade, mas lhe falta o magnetismo que o jovem desafiante transborda. O trovão cazaque também é uma máquina de nocautear, mas seu estilo é menos faminto nos olhos do público médio. Como resultado, GGG foi mal nas duas tentativas no mercado das transmissões pagas.

Embora invicto e dono do mais longo reinado da atualidade (18 defesas, a duas de igualar o recorde da categoria), Golovkin (37-0, 33 KO), 35 anos, viu seu “drama show” tomar ares de realidade no último combate. Depois de parecer se colocar propositalmente em mais dificuldades em seus compromissos mais recentes, GGG tomou um calor saariano contra Daniel Jacobs, em maio, quando muita gente boa achou que o “Miracle Man” venceu (confira a íntegra no vídeo abaixo e tire suas próprias conclusões). Aliás, o nível dos oponentes de Golovkin subiu sensivelmente nos dois últimos duelos. Antes de Jacobs, Triplo G enfrentou o ex-campeão do peso meio-médio Kell Brook, que chegou a atingir Gennady com golpes duros antes de sucumbir à diferença de tamanho e de potência.

A última vez que Canelo (49-1-1, 34 KO), 27 anos, subiu ao ringue não deixou saudade em ninguém – e isso é raro. O mexicano, que só foi derrotado por Mayweather, passou como quis pelo compatriota Julio César Chávez Jr. numa luta de pouca emoção, muito pela apatia extrema de Chávez Jr. No duelo anterior, Álvarez anotou um nocaute aterrorizante sobre Amir Khan. Porém, antes de receber uma passagem de ida para as profundezas da vala, o britânico incomodou Canelo com movimentação intensa e velocidade nos golpes. Veja abaixo:

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Este combate é maravilhoso em diversos prismas. Em maneiras distintas, Golovkin e Canelo são matadores natos com QIs de luta acima da média e capacidade tanto para controlar as ações na longa distância quanto para pressionar os oponentes num doído infighting. Canelo jamais enfrentou alguém com a capacidade de empacotar potência como Golovkin. Por outro lado, GGG nunca se viu diante de alguém rápido e ainda capaz de nocautear como Álvarez.

O cazaque não tem a maior fortaleza defensiva do mundo. Ele terá que lidar com um aspecto diferente neste combate: os furiosos ataques de Canelo contra a linha de cintura. Aliás, este é o principal caminho para o mexicano deter os avanços do campeão e torná-lo lento e ainda mais acertável em busca de um nocaute no quarto final do combate. Álvarez tem a potência que faltou a Brook para capitalizar sobre as falhas defensivas do cazaque.

Isto tudo posto, é necessário lembrar que o poder que Golovkin carrega nos punhos é capaz de mudar os rumos de uma peleja imediatamente. E como Canelo é outro animal, talvez o respeito mútuo transforme o duelo numa nervosa disputa estratégica e menos a pancadaria alucinada que muitos esperam. Ainda assim eu não duvido que ambos beijem a lona em determinado momento da noite – Canelo nos quatro rounds iniciais e Golovkin do décimo para o 12º, quando, aí sim, a chinela deve cantar alto.

GGG precisa de uma vitória sobre uma estrela do porte de Álvarez. Já Canelo necessita de um triunfo sobre um pegador violento como Golovkin. Eu já mudei de opinião algumas vezes tentando prever o transcorrer desta luta. Talvez as duas últimas atuações sejam sinal da idade chegando para GGG. Ainda assim, vou nele por decisão muito apertada (antes que eu mude de ideia de novo).

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.