Ainda somos os melhores?

Por Alexandre Matos | 14/08/2010 16:30

Temos um prazer enorme de dizer que o Brasil é o precursor do vale tudo, a primeira superpotência do MMA. Enchemos a boca para enumerar nossos campeões e desbravadores ao longo da curta história do esporte que mais cresce no mundo atualmente. Destacamos diversos heróis que levaram a bandeira verde e amarela ao topo do mundo do MMA. Mas será que este panorama ainda está valendo?

A pré-história do MMA (nem tanto quanto o pancration grego e romano) vem do começo do século passado, pelas mãos da família Gracie. O esporte explodiu com a criação do UFC por Rorion Gracie no começo dos anos 90. Royce Gracie dominou as primeiras edições, enquanto seu irmão Rickson Gracie paralelamente passava o rodo no Japão. Só dava Brasil.

Mas o tempo passou e o esporte evoluiu. Novas técnicas foram introduzidas, assim como métodos de treinamento. E o crescimento americano no esporte veio a reboque. Como sempre acontece quando eles entram de cabeça em algo, os resultados passaram a surgir aos montes. Vejamos rapidamente a lista dos detentores dos cinturões dos cinco principais eventos de MMA no mundo. Entre parênteses estão os desafiantes que já estão definidos para cada um.

  • UFC: Frank Edgar (BJ Penn), Georges St-Pierre (Josh Kosheck), Anderson Silva, Maurício Shogun (Rashad Evans), Brock Lesnar (Cain Velasquez)
  • WEC: Dominick Cruz (Joseph Benavidez), José Aldo (Manny Gamburyan), Ben Henderson
  • Strikeforce: Gilbert Melendez, Nick Diaz, Ronaldo Jacaré ou Tim Kennedy, Muhammed Lawal (Rafael Feijão), Alistair Overeem
  • Bellator: Joe Soto (Joe Warren), Eddie Alvarez (Pat Curran), Lyman Good (Ben Askren), Hector Lombard (Alexander Shlemenko)
  • DREAM: Bibiano Fernandes, Shinya Aoki, Marius Žaromskis

Contabilizando todos estes títulos, temos dez campeões americanos (Edgar, Lesnar, Cruz, Henderson, Melendez, Diaz, Lawal, Soto, Alvarez e Good), quatro brasileiros (Anderson, Shogun, Aldo e Bibiano), um canadense (GSP), um holandês (Overeem), um cubano (Lombard), um japonês (Aoki) e um lituano (Žaromskis). Dentre os desafiantes já definidos, oito deles são americanos (Penn, Koscheck, Evans, Velasquez, Benavidez, Warren, Curran e Askren), um é armênio (Gamburyan), um é brasileiro (Feijão), além de um russo (Shlemenko). Desses oito desafiantes dos EUA, dois podem desbancar campeões não-americanos, aumentando para doze o total de americanos donos de cinturão e nos reduzindo a cinco, enquanto apenas um brasileiro pode tomar o título de um filho de Tio Sam. E o único cinturão da lista que hoje está vago será disputado por um americano e um brasileiro (lembrando que o antigo dono era estadunidense).

A primeira interpretação desta lista é bem óbvia: Brasil e EUA são as maiores potências do MMA atual e formam a maior rivalidade no esporte. Mas, infelizmente, os números também mostram uma realidade mais dura: os caras nos deixaram para trás. Metade dos campeões reinantes nasceram naquele país que ainda é uma das maiores potências econômicas do mundo. E o enumerado acima foi reforçado no último sábado, quando o UFC armou um card principal com o mote Brasil x EUA em todas as lutas. Quando a maioria de nós acreditava que nossos atletas aplicariam um sacode de 4 x 1 ou 5 x 0 nos caras, eis que fomos dormir derrotados, com um amargo 3 x 2 no lombo, que só não se tornou uma goleada por obra do quase milagre capitalizado por Anderson Silva nos instantes finais da luta principal. Um verdadeiro golpe no orgulho tupiniquim.

Somos naturalmente uma nação produtora de talentos (não só no MMA, diga-se de passagem). Mas fazemos parte de um país que dá pouquíssima atenção à prática esportiva, que é uma das mais fortes e baratas ferramentas de inclusão social que há. Além disso – ou também em decorrência disso -, os principais eventos acontecem principalmente nos EUA, facilitando muito a tarefa dos atletas norte-americanos, que precisam se deslocar pouco, gastando menos.

Nem sempre foi assim. Nos anos 90, eventos fortes no Brasil eram comuns. Dan Henderson, por exemplo, estreou profissionalmente no Brazil Open, antes de começar sua saga internacional no UFC 17. Mark Kerr, ídolo dos primórdios do esporte, fez suas primeiras lutas no World Vale Tudo Championship, mesmo evento que outra estrela das antigas, o ucraniano Igor Vovchanchyn, expandiu sua carreira para fora das fronteiras do bloco de países que formavam a antiga União Soviética. Como o Brasil era a nação soberana do esporte, os americanos (e não só eles) vinham para cá aprender, se aprimorar. Com a capacidade de organização daquele povo, rapidamente o esporte cresceu e tomou as dimensões que vemos hoje.

Se somarmos a dificuldade de patrocínio com custos de viagens, seja para variações de treinos ou para competições, rapidamente entendemos que é bem mais difícil para um brasileiro brilhar no mundo do MMA atual. Enquanto um americano luta wrestling desde o ensino fundamental, em muitos casos com bolsas de estudos decorrentes do esporte, para um brasileiro se dedicar à luta é preciso muita coragem para encarar um futuro nebuloso – e em alguns casos, abandonando os estudos. Esta barreira cria uma “seleção darwiniana”, onde só os “fortes” (os que conseguem patrocínios fortes e/ou bons empresários) sobrevivem. Deste modo, muitos talentos acabam ficando pelo caminho.

Com o crescimento do MMA também em nosso país, a esperança é que possamos dar chances reais ao sem-número de talentos produzidos por estas terras. Para isso, temos muito o que aprender com o modelo americano. Eles tiveram humildade de vir aqui aprender e tomar a hegemonia do esporte. Hoje podemos olhar para os métodos de organização, apoio e incentivo ao esporte e políticas de investimento feitos pelos americanos. Acho que nem meu neto vai ver isso acontecer, já que estamos atrasados nesta área que dá suporte ao crescimento esportivo e social. Como consequência, a tendência é que o domínio americano siga estabelecido. Mas a esperança é a última que morre.

O tema deste artigo foi sugerido pelo leitor Rodrigo Mendes. Quer você também colaborar com o MMA Brasil dando sugestões de temas? Participe dos comentários, do nosso Fórum ou entre em contato pelo Fale Conosco. Sempre será um prazer saber o que vocês tem a dizer.