Agora é oficial: Georges St. Pierre vai desafiar o cinturão de Michael Bisping

Por Alexandre Matos | 02/03/2017 02:52

Uma novela que se arrastou por meses até ser desvendada teve seu capítulo seguinte revelado até rapidamente. Nesta quarta-feira, o presidente do UFC, Dana White, foi ao SportsCenter da ESPN americana anunciar a luta de retorno de Georges St. Pierre, fora de ação no MMA desde novembro de 2013.

O ex-campeão do peso meio-médio do UFC subirá de categoria pela primeira vez para desafiar o cinturão de Michael Bisping. O duelo, que reunirá os dois lutadores que mais venceram na história do UFC, ainda não tem data nem local definidos (o mais provável é que ocorra em Las Vegas), mas já deixou os fãs ouriçados, uns empolgados com a chance de o canadense fazer história, outros revoltados com o balão aplicado em Yoel Romero e ainda alguns cheios de dúvidas sobre os motivos e desdobramentos desse confronto anunciado.

Ainda nesta semana, Demian Maia foi confirmado contra Jorge Masvidal no UFC 211. Este anúncio pareceu apontar para GSP ser o próximo desafiante da categoria que ele dominou entre 2007 e 2013. Seria triste para o paulista, mas perfeitamente compreensível, já que St. Pierre saiu de cena sem perder o cinturão oficialmente, além de ter deixado para trás feitos importantes que teriam peso para reconduzi-lo diretamente para uma chance de título. O timing era perfeito, já que o atual campeão, Tyron Woodley, e o desafiante número um, Stephen Thompson, farão a revanche pela coroa dos meios-médios neste sábado, no UFC 209.

Demian seria o próximo candidato lógico e GSP, o próximo aceitável. No cenário que se desenhou na virada de fevereiro para março, nenhum dos dois está mais nas conversas de título, pelo menos no curto prazo. Isso significa que o vencedor de Woodley-Thompson não vai enfrentar um dos dois que mais merecem a chance e que o próximo desafiante talvez seja mais uma invenção do novo modus operandi do UFC pós-Fertittas e pós-Joe Silva. Será que inventam Nate Diaz? E por que Demian aceitou uma luta que não a do título sem que GSP tomasse sua frente? Podem elucubrar à vontade na caixinha de comentários porque eu mesmo não faço a menor ideia.

A decisão do UFC afetou também, e obviamente, o peso médio, que não tem apenas um desafiante claro, mas dois. Yoel Romero era a primeira opção, com vitórias sobre Ronaldo Jacaré e Chris Weidman em seus dois últimos compromissos. Jacaré seria a segunda, com um par de trunfos: tentar convencer os patrões que a derrota para Romero foi controversa e usar o caso de doping-que-não-foi-doping-mas-teve-suspensão do cubano. Fosse quem fosse, Romero ou Jacaré, a maioria dos fãs aceitaria o desafiante. Mas não.

Bisping foi bastante sincero em relação à situação. Ele comentou no programa UFC Tonight, no FOX Sports americano, que já tinha recebido a proposta para enfrentar GSP no ano passado, mas as negociações não evoluíram. E que qualquer outro teria tomado a mesma decisão que ele.

Michael Bisping:

Eu sei que tem gente por aí que vai criticar dizendo que eu deveria lutar contra o desafiante número um, caras como Yoel Romero. E eles estão absolutamente certos. Agora, se você fosse Yoel Romero, ou Luke Rockhold, ou Jacaré, ou um desses caras, e te oferecessem uma luta com GSP, eu tenho certeza que você aceitaria a luta. Então por que eu não deveria fazer o mesmo?

Eu mereço esse pagamento. Eu mereço essa luta. Não apenas pelo pagamento, eu quero essa luta pelo meu legado. Eu venci Dan Henderson. Eu venci Anderson Silva. Georges St. Pierre é outra lenda que eu quero adicionar ao meu currículo.

E como fica a situação do próprio GSP? Há muita névoa em torno dessa volta. O superastro canadense é tecnicamente mais lutador não só que Bisping, mas provavelmente do que todo o atual estágio do plantel do peso médio. Ele talvez seja o atleta mais inteligente que já passou pelo UFC e tem na retaguarda um técnico conhecido pela maestria no campo estratégico. Porém, três anos e meio parado é muito tempo para alguém que tem um jogo altamente dependente de timing, precisão e condicionamento físico. Enquanto esta última característica dificilmente será um problema para um sujeito como St. Pierre, as duas primeiras podem lhe causar problemas consideráveis na luta de retorno. Ainda que Bisping não tenha mais a velocidade e o volume de outrora, ele é fisicamente maior e mais forte do que o desafiante. Ainda que Georges, perfeccionista e obstinado, pareça ser o representante da “turma dos dominicks”, será o segundo longo período de inatividade que ele terá que lidar na carreira.

Vamos supor que St. Pierre vença Bisping, resultado absolutamente normal até 2013 – e que as casas de apostas ainda consideram normal ao abrirem as linhas em média com 1.71 (-140) para o canadense e 2.34 (+134) para o cipriota naturalizado inglês. E depois? Estaria GSP disposto a enfrentar os tubarões da divisão, enfileirando Romero, Jacaré, Rockhold, o vencedor de Weidman-Gegard Mousasi, Robert Whittaker? Sinceramente, eu duvido. Ainda que, falando puramente de técnica e capacidade estratégica, GSP seja melhor que todos eles, a diferença é menor do que para Bisping e o fator peso/força aumenta consideravelmente.

Para mim, ganhando ou perdendo, o futuro do “Rush” não é no peso médio. Se perder, terá a desculpa do tamanho, da inatividade, e continuará com a moral intacta para furar fila no peso leve ou no meio-médio. Se vencer, entra no seletíssimo grupo de campeões de duas divisões, mira se tornar o único tricampeão, fica maior ainda, com mais valor comercial ainda – posso ver os olhos dos donos da WME-IMG virando cifrões em tempos sem Ronda Rousey e Conor McGregor. O UFC da WME-IMG não parece ligar para o que vem a seguir, visto que chegaram até a criar uma categoria sem nexo, sem lutadoras, fazendo uma disputa de cinturão inaugural sem a melhor delas, sem a menor perspectiva de continuidade. O UFC da Zuffa não deixaria talentos irem embora como o UFC da WME-IMG está deixando. O UFC da Zuffa queria ver dinheiro entrando – quem não quer? – mas parecia misturar com mérito esportivo.

O UFC da WME-IMG ainda é difícil de entender, por mais que algumas coisas estejam ficando cada vez mais claras.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.