ABC Boxing aprova maior pacote de mudança de regras desde a implementação das Regras Unificadas

Mudanças nos critérios de julgamento, adoção de faltas e liberação de alguns golpes devem alterar a dinâmica das lutas de MMA. Apenas uma comissão atlética não aprovou o documento integral.

Pelo menos em questão de regulamentação, o MMA vai dar o maior passo de sua história desde que foram implementadas as Regras Unificadas de Conduta do MMA, no começo da década passada. Nesta terça-feira, no congresso anual promovido pela ABC Boxing (Associação de Comissões de Boxe) e suas afiliadas (as comissões atléticas norte-americanas), foram aprovadas algumas mudanças em relação a julgamento de lutas e golpes ilegais, ou faltas.

A mudança mais impactante afeta o modo como os juízes laterais passarão a julgar rounds. A nova orientação, segundo a ABC, “visa simplificar o critério de julgamento”. O striking e/ou o grappling efetivo agora passam a praticamente ser o meio de julgamento. Apenas em caso de igualdade absoluta nesses critérios que os juízes pesarão agressividade (primeiro) e controle da área de luta (depois). A ABC considera que isso “vai valorizar o resultado da ação”.

Do documento oficial do congresso:

Striking/Grappling efetivo vai traduzir a grande maioria das avaliações feitas. Agressividade efetiva é um ‘Plano B’ e não deve ser considerado a menos que o juiz não veja NENHUMA vantagem no campo do striking/grappling efetivo. Controle da área de luta (‘Plano C’) só deve ser necessário quanto TODOS os outros critérios forem 100% iguais para ambos os competidores. Isso vai ser de ocorrência extremamente rara. Agressividade efetiva e controle da área de luta são planos de contingência.”

Em relação à parte de striking/grappling efetivo, as novas recomendações reforçam que as ações, e não as posições dos lutadores, que terão peso na avaliação. Isso significa que estar por baixo não necessariamente será uma desvantagem, desde que o lutador nesta posição consiga executar striking/grappling efetivo:

“Lutadores por cima e por baixo serão avaliados mais pelo resultado de impacto/danos de suas ações do que pelas suas posições.”

Sobre agressividade efetiva, a ABC reforça a palavra “efetiva”, dizendo que um lutador caçar um oponente sem haver resultado não deve ser avaliado pelos juízes. Sobre controle de área de luta, a avaliação é em determinar quem dita o ritmo e a posição da luta.

Isso tudo reflete na mudança que realmente vai impactar o MMA: a pontuação dos rounds. De acordo com as recomendações da ABC, eis os modos de pontuar um round:

10-10: quando não há diferença ou vantagem para um dos lutadores – depois de 5 minutos, o dano, a efetividade, o volume e a competitividade em geral são absolutamente iguais. Se houver alguma diferença possível de se discernir, não se deve usar o 10-10.

10-9: quando um lutador vence um round por margem curta, é o placar mais comum a ser aplicado. Se, durante um round, o juiz vê um lutador acertar os melhores golpes ou utilizar grappling efetivo, mesm que seja apenas em uma técnica, deve ser dado 10-9. O juiz deve observar se o lutador que perdeu o round competiu com atitude ou se somente sobreviveu às ações ofensivas do oponente. Um 10-9 pode refletir num round extremamente parelho ou com uma certa margem de domínio.

10-8: deve ser dado quando um lutador vence o round por larga margem. A ABC diz que não é uma pontuação muito comum, mas é fundamental para a evolução do esporte e para ser justo com os lutadores que os juízes usem mais o 10-8. Este placar não obriga que um lutador domine todos os 5 minutos do round. Se um lutador tiver pouca ou nenhuma ação ofensiva, deve receber 8 pontos. Para pontuar com um 10-8, o juiz deve observar os componentes dano, domínio e duração. Se dois dos três forem observados, o round pode ser 10-8. Se os três forem observados, o round deve ser 10-8.

Dano: o juiz deve avaliar se um lutador causou dano significativo no oponente no round, mesmo quando ele não tiver dominado a ação. Dano inclui evidências visíveis tipo inchaços e lacerações. Dano também é computado quando as ações de um lutador usando striking e/ou grappling efetivo causa diminuição da energia, confiança, habilidade e espírito. Quando um lutador sofre danos com strikes, isso pode criar momentos decisivos num round e deve receber grande valor na pontuação.

Domínio: como o MMA é um esporte de base ofensiva, o domínio de um round pode ser visto no striking quando o lutador que está perdendo é forçado continuamente a se defender, sem contragolpear ou reagir a aberturas que se apresentem. Domínio no grappling pode ser visto quando um lutador tem posições dominantes e utiliza essas posições para tentar finalizar uma luta ou atacar. Apenas manter posição não deve ser um fator primário para julgar domínio; o que um lutador faz nessa posição é que deve ser avaliado.

Duração: é o tempo gasto por um lutador efetivamente atacando e controlando seu oponente, enquando o adversário oferece pouca ou nenhuma ação ofensiva. O juiz deve avaliar duração reconhecendo o tempo relativo num round quando um lutador mantém controle total da ofensiva. Isso pode ser avaliado tanto em pé quanto no chão.

10-7: este placar acontece quando um lutador domina por completo seu oponente com striking/grappling efetivo e a interrupção é justificada. Porém, a ABC diz que um 10-7 é raramente dado. Deve haver não apenas domínio completo do round, mas também danos significativos, a ponto de um juiz achar que a luta poderia ser interrompida. Os juízes devem observar por vários golpes que diminuam as manobras ofensivas de quem está perdendo, diminuindo sua habilidade em continuar competindo.

De acordo com o documento oficial do congresso, a ABC considera que “seus critérios funcionarão extremamente bem dentro do atual sistema de pontuação de 10 pontos e vai funcionar bem se algum tipo de pontuação fracionada for implementada no futuro”. Bem, fiquemos de olho.

O congresso também mexeu no entendimento de lutador caído. Para se considerar um lutador caído, as duas mãos e pés, e/ou outra parte do corpo, devem estar tocando o chão. Neste momento não serão permitidos chutes ou joelhadas na cabeça. Isso significa que não será permitido que um lutador encoste um dedo ou uma mão no chão com o intuito de evitar ser golpeado na cabeça.

A partir de agora, um lutador que estica a mão espalmada contra o adversário, com os dedos apontados para o rosto/olhos do oponente, receberá falta. Os árbitros devem prevenir este comportamento perigoso se comunicando claramente com os lutadores. Os lutadores devem fechar seus punhos ou apontar os dedos para outra direção.

Sobre golpes nos rins, uma polêmica. A ABC passa a permitir que tais golpes sejam aplicados inclusive com os calcanhares, como Royce Gracie fazia nos tempos de vale tudo.

As novas regras valem como recomendação da ABC, que usou um comitê de regulamentação e um médico para a decisão. Porém, como a ABC não tem poder sobre as comissões estaduais, nenhuma das regras aprovadas pode ser forçada. Por exemplo, a NJSAC (Comissão Atlética do Estado de New Jersey) se posicionou contrária à mudança relativa aos golpes no rim e à nova definição de lutador no chão. Provavelmente a NJSAC não irá implementar essas mudanças nos eventos realizados sob sua jurisdição. O congresso aprovou as novas regras por 42 votos a 1 e duas abstenções. O voto contra foi de New Jersey e Tennessee e Mississippi se abstiveram. As comissões já podem implementar as mudanças de imediato, caso não seja preciso mudar legislação estadual.

  • Fernando Reporta

    Apesar de eu não ter nenhum conhecimento médico-científico sobre a efetividade danosa de pancadas nos rins em um lutador de MMA ao longo do tempo, vejo como potencialmente nocivo à saúde dos atletas, a longo prazo, a liberação de golpes na região renal.
    Além disso, o golpe se caracteriza mais como uma impolidez técnica do que uma habilidade marcial – vide Royce Gracie no vale-tudo. Coloco pancadas nos rins, ‘tiros de meta’, cotoveladas de cima para baixo da posição de domínio no chão e etc como grosserias técnicas.
    Quando a possibilidade de joelhadas na cabeça nos lutadores em posição de três apoios, vejo como outra selvageria. Tira a possibilidade de um bom artifício técnico-defensivo de atletas em posição de desvantagem na luta agarrada quando estas se dessenrolam na grade e em pé.

    • Um amigo meu que é médico disse que a região renal é muito perigosa em questão de receber pancada, por isso que nenhum esporte de combate permite. O MMA deu um passo para trás com isso. Só pra você ter uma ideia (tirado das regras do Conselho Mundial de Boxe):

      A list of common fouls that may be committed by boxers (or seconds,
      where the context is appropriate) that may be cause for penalty or
      disqualification is as follows:

      5. Striking the kidneys or back.

      Além do perigo, concordo integralmente que é uma grosseria técnica.

      A questão dos três apoios é complexa. Eu acho que precisavam urgentemente impedir a regra de nego meter um dedo no chão. Talvez essa mudança seja revisada em algum tempo. Vamos torcer pra não precisar dar merda.

  • André Guilherme Oliveira

    Texto muito bom Ale, tudo muito bem explicado.
    Sobre o novo método de pontuação, achei que o 10-8 não ficou tão claro. Ali diz que se o árbitro julga que a luta esteve próxima de ser interrompida, o placar deve ser 10-7. Então no caso do round 1 de Jacaré x Romero e Aldo x Mendes, como seriam as marcações?
    A nova regra pra luta no chão vai transformar o trabalho de se levantar uma tarefa hercúlea
    Quanto aos golpes nos rins eu não tenho nem ideia de se isso é bom ou ruim.

    • Fernando Reporta

      Creio que o 10-8 se aplicaria ao primeiro round de Jacaré x Romero. A luta não esteve definida ao ponto de se cogitar a interrupção. Jacaré estava reagindo antes do soar do gongo. Os três critérios (Dano, duração e domínio) estavam evidentemente presentes do meio para o final daquele round. 10-7 talvez se aplicaria a algum round da luta Cigano x Velasquez 2.
      Se essas mudanças realmente forem implantadas, veremos uma maior quantidade de empates nos duelos. A única coisa que me preocupa é o critério dano na pontuação 10-8; alguns atletas tem mais facilidade de sobrer escoriações que outros, vide Cigano e Anderson Silva, respectivamente. E fatores com “energia, confiança, habilidade e espírito” podem se mostrar demasiadamente subjetivos.
      Agora no que tange à permissividade de golpes, as pancadas nos rins e as joelhadas na cabeça em lutadores com /a partir de três apoios me preocupam. O dano causado pode ser excessivamente grande para pouco retorno técnico. Vide o golpe ‘tiro de meta’.

      • Sim, o 10-7 teria rolado em algum dos rounds de Velasquez-Cigano. E, sim, o R1 de Romero-Jacaré talvez virasse 10-8, o que teria acabado com a polêmica da luta, pra mim teria sido empate e para outros, vitória do Romero, ninguém teria dado vitória pro Jacaré.

        Essa parada de escoriações vai ser foda, só falta nego inventar o winner by cutman.

        Quanto a esses fatores subjetivos, eu reli o documento da ABC umas três vezes pensando: “cacete, nego não escreveu isso. Que porra é essa? Deve ter uma tradução diferente, né possível” hahaha

    • Bora lá:

      O 10-7 é aplicado não só quando a luta esteve próxima de ser interrompida, mas isso tem que acontecer dentro de um cenário de domínio completo no round. Isso não rolou em Romero-Jacaré nem em Aldo-Mendes.

      Talvez o R1 de Romero-Jacaré virasse 10-8. Vejamos: teve dano (claro), teve domínio (claro), mas a duração talvez tenha sido pouca na visão de um ou outro. Então cairia na questão de dois de três quesitos, o que PODE render um 10-8. Ficaria a critério dos juízes. Pra ser um 10-8 certo, os três quesitos teriam que ser atendidos.

      A nova regra pra luta no chão vai valorizar quem tem guarda ofensiva e vai foder os caras que adotam o lay-and-pray, os que deitam em cima e não fazem nada. Jacaré vai ter que ficar ligado porque ele adota a prática de vez em quando com o intuito de cansar o adversário pesando em cima dele.

      Quanto aos golpes nos rins, dá uma lida no que eu comentei aqui embaixo pro Fernando.

  • Nilo Júnior

    Belo texto.

    Gosto muito desse critério do 10-8, ainda mais em se tratando de lutas de 3 rounds.

    • Cara, sabe que depois que eu li o documento, percebi que já faço meio assim hoje em dia. Pra mim vai mudar bem pouco.

  • Bruno Moraes da Costa

    O 10-8 muito mais fácil de identificar pra cobrar dos juízes laterais agora.

    Finalmente nao verei mais a cachorrice do sujeito meter um dedo no chão quando tiver chegando uma joelhada pra explodir na cabeça, achava muito bizarro.

    A dos dedos nos olhos então, demorou! Achei bem positivo o saldo nas novas regras, deve melhorar o esporte.

    • A dos dedos nos olhos foi exatamente o que eu sempre pedia no podcast.

      A dos três apoios talvez possa criar uma situação de risco. Isso que você falou tinha que ser evitado a todo custo, mas não criando outro problema. Vamos ver no que vai dar.

  • Felipe Oliveira²

    A principio vejo com bons olhos, mas o q mais gostei realmente foi a iniciativa de melhorar. Isso é muito importante. Pra mim não ficou bem claro sobre a questão do “lutador caido”. Agora devem ter 4 apoios? Não peguei direito (sou devagar heheh).
    Agora alexandre, seria legal um texto falando sua opinião sobre essas mudanças, e os impactos. Eu, pelo menos, iria curti. Abraços!

    • Sobre o lutador caído, parece que acabou o três-apoios, agora só é proibido com quatro ou mais. Isso significa que um cara com os dois pés e a bunda no chão (ou seja, sentado), pode levar uma mamonada. Eu teria que voltar aos livros de física pra entender se vai dar mais merda pelo fato de ter menos área pra dissipar a pancada até chegar no chão do que o corpo inteiro em pé. Confesso que não me lembro disso, eu devia estar dormindo, jogando bola ou zoando o baralho dos outros no curso de engenharia.

      Sobre a minha opinião, vou esperar uma semana sem evento (e sem Olimpíada) pra fazer um podcast sobre esse assunto, trazendo algum juiz. Serve?

      • Bruno Moraes da Costa

        Eu respondo: SERVE!

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Que bom a mudança nas avaliações, nos últimos eventos os juízes já entraram na vibe e estão aplicando um pouco mais essas pontuações, talvez a luta do Kamaru Usman é a que mais explica isso.Não entendi esse negócio do rim, antes não era permitido e agora é? Que tenso e.e.

    • Isso. Golpe nos rins estava proibido desde que criaram as Regras Unificadas. Nenhum esporte de combate permite. Acho que o MMA regrediu aqui.

  • Weslei Alvarenga

    Pelo menos o intuito de melhorar estão tendo.
    A partir de q dia elas serão postas em pratica ? E em quanto tempo vc acha q todos do meio ( arbitros, abortos laterais, atletas, academias… ) irão se adaptar a essa atualização ?

    • Já pode ser posto em prática a partir de hoje para as comissões que não precisarem mexer em legislação.

      Eu acho que alguns abortos laterais (gostei dessa hahaha) não vão se adaptar nunca. Já não se adaptaram até hoje…

  • Paulo Josué Lemos Alves

    A princípio gostei das mudanças, embora um esporte com avaliação subjetiva de arbitragem sempre terá suas controvérsias. Em relação as “mudanças” propriamente ditas, também não ficou muito claro para mim, se a partir de agora só será considerado caído, o lutador que estiver com os quatro apoios no chão? E os golpes no rim, tem tanto potencial ofensivo assim? Um golpe do tipo aplicado em pé (que sempre foi permitido) ou da guarda, não teriam mais ou menos o mesmo impacto?

    • Sim, parece que agora precisa de pelo menos quatro apoios no chão.

      Golpe no rim é proibido em todos os esportes de combate. Responde sua dúvida?

      • Paulo Josué Lemos Alves

        Mesmo em pé? É isso que me refiro.

  • IMPERADOR

    Baseado nessas mudanças, como seria pontuado e, consequentemente, como seria o resultado da luta Jones x Gustafsson?
    Em minha opinião, no mínimo empate.
    Daria vitoria ao Gustafson, levando em consideração aquela dedada proposital e criminosa no olho que resultaria em perda de ponto ja nas regras atuais.

    • Eu não lembro da dedada, mas ele teria perdido ponto mesmo, então teria virado empate. A pontuação em si que eu marquei não teria mudado.

  • Lero

    Com essas regras, Hendricks não tivesse perdido do GSP nem fodendo.
    Aquele negocio das “evidencias visíveis” do dano é complicado… Se fosse por esse fator, os Diaz e Frankie Edgar tivessem perdido muita mais luta.

    • Pois é, isso é preocupante. Espero que não arruinem com o MMA criando o winner by cutman.

  • Gabriel Fareli

    Sinceramente, não sei o que achar dessas novas regras, prefiro esperar pra vê-las em pratica. Mas pelo menos em relacao a regra do 10-8, eu mesmo costumo pontuar assim com bastante frequencia, mas ate do que os amigos arbitros laterais, mas só de saber que vão usar com mais costume, sinto que as coisas vão melhorar.

    • Eu também achei que o 10-8 agora ficou meio que como eu já fazia.