A tragédia de Billy Collins Jr: 35 anos do dia mais sinistro da história do boxe

Por Alexandre Matos | 18/06/2018 00:49

A Capital do Mundo estava em festa. O ídolo popular Roberto Durán buscava redenção após o vexatório “No Más” desafiando o cinturão de Davey Moore. No card preliminar, prospectos escalados contra veteranos sem maiores ambições, como é de costume nos grandes eventos. Há 35 anos, no dia 16 de junho de 1983, o boxe viveu sua noite mais macabra.

Billy Collins Jr., americano descendente de irlandeses, nascido em Nashville, Tennessee, em 21 de setembro de 1961, considerado um dos principais prospectos do peso meio-médio ligeiro aos 21 anos, invicto em 14 lutas, com 11 nocautes, treinado pelo pai, Billy Sr., ex-meio-médio que não obteve sucesso como lutador.

Luis Resto, nascido em Juncos, Porto Rico, mas radicado no Bronx, em Nova York, desde os nove anos. Aos 28, tinha retrospecto de 20-8-3 (foi apresentado na transmissão como 19-7-3) e era um veterano que tentava enfim dar um rumo na carreira que escolheu para sair da pobreza.

Panama Lewis, considerado um dos melhores técnicos do mundo na década de 1980, então ex-córner dos campeões mundiais Durán e Aaron Pryor, pupilo do lendário Chickie Ferrara.

Estes são os personagens centrais de um crime que jamais será esquecido.

A “escada” para Collins rumo a Durán

Resto foi escalado pela Top Rank Boxing para dar alguma credibilidade à ascensão de Collins. Na ocasião, o portorriquenho vinha de cinco vitórias nas últimas seis lutas, num esforço para deixar de ser usado como “escada” para os novatos – exatamente o que a Top Rank queria.

Até o dia 16 de junho de 1983, a história de Resto era parecida com a de um sem-número de pessoas que tentam a sorte no boxe. Na oitava série, ele enfiou uma cotovelada na cara da professora de matemática e foi internado numa clínica para perturbados mentais. Seis meses depois, um tio o tirou da internação e o matriculou numa academia de boxe no bairro barra-pesada do Bronx. Resto conquistou o bicampeonato estadual do Golden Gloves, mas não teve sucesso no profissionalismo. E nunca mais frequentou uma escola.

Collins era o oposto. Talentoso, carismático, branco – o boxe parecia estar sempre à procura da “Grande Esperança Branca”, casou com a namorada do colégio. Das 14 lutas que disputara, 12 foram exibidas na ESPN. O sucesso que o pai não conseguiu seria alcançado pelo filho, que esperava enfrentar o vencedor de Durán-Moore na sequência.

Considerado um “mão de almofada”, com apenas oito vitórias por nocaute, Resto era azarão nas casas de apostas diante do talentoso pegador Collins Jr., que havia nocauteado quatro dos últimos cinco oponentes nos nove meses anteriores ao combate. A expectativa era que “Irish” Billy aplicasse um passeio em Resto, mas não foi exatamente isso o que aconteceu no MSG.

No primeiro assalto, já ficara clara a diferença técnica a favor de Collins. Porém, dois fatores causavam estranheza: um ritmo mais intenso que o normal de Luis e o olho direito de Billy já começando a inchar ainda no round inicial. Resto não era um pressionador, muito menos um pegador. Como era possível?

Round após round, Resto seguiu imprimindo um ritmo forte, com praticamente todos os golpes direcionados à cabeça de Collins, o que também não era comum no jogo do latino, que costumava atacar a linha de cintura dos adversários. Ainda que conseguisse alguns bons momentos, Collins foi paulatinamente sendo obliterado até chegar ao ponto de apenas resistir ao final do tempo regulamentar. O tempo passava e Resto lutava com cada vez mais intensidade, batendo cada vez mais forte, causando cada vez mais danos.

Dez assaltos depois, Collins tem os olhos inchados, fechados, o rosto deformado após levar uma impensável surra, deixando os especialistas incrédulos. No intervalo de um dos rounds, o jovem falou para seu pai e treinador: “Ele é muito mais forte do que eu pensei. Muito mais. Não sabia que Resto batia tão forte. Parece que tem pedra nas luvas dele”. Mais tarde, chorando, o boxeador disse: “Estou cego, não consigo ver nada”.

Billy mostrou coração imenso e suportou o castigo imposto pelo veterano borícua sem sofrer um knockdown. Mas nada na sua vida foi como antes a partir dali.

Billy Collins Jr. recebe atendimento do cutman num intervalo entre rounds

Billy Collins Jr. recebe atendimento do cutman num intervalo entre rounds

Um crime estarrecedor que tinha até antecedentes

Depois que o último gongo soou, Lewis subiu ao ringue e ergueu seu pupilo, já comemorando a vitória que seria anunciada por Michael Buffer em alguns minutos. De volta ao tablado, Resto caminhou ao córner oposto para, num ato nobre, cumprimentar o time do oponente: deu um abraço e um beijo no rosto de Collins Jr. e apertou a mão do pai de Billy ainda sem tirar as luvas. Foi quando a farsa começou a ruir.

Após apertar a mão de Luis, Collins Sr. notou algo estranho e começou a apalpar a luva do portorriquenho. “Todo o enchimento das luvas foi retirado!”, bradou o treinador. Resto tentou puxar a mão, Collins Sr. tentou segurá-lo. “Comissário… comissário! Não há enchimento! Não tem a porra do enchimento nas malditas luvas!”

A Comissão Atlética do Estado de Nova York iniciou uma investigação. O resultado chocou o mundo do boxe. Cerca de um quarto do enchimento foi retirado de cada luva através de um buraco na palma delas. Descobriu-se também que a bandagem de Resto foi misturada com – acredite! – argamassa, que endureceu durante o combate, o que explica a condição do rosto de Collins após a luta. Foi como se o garoto tivesse passado dez rounds sendo atingido no rosto por placas de concreto.

Já era suficiente para colocar Lewis na cadeia, mas o documentário ganhador do Emmy “Assault in the Ring”, produzido pela HBO, confirmou também que Panama misturou remédio para asma na água dada a Resto, aumentando a capacidade pulmonar, o que explica o condicionamento cardiorrespiratório do lutador naquela noite. Quem deu a informação para o documentário foi o próprio Resto, depois de anos dizendo que não sabia de nada. O boxeador falou ainda que eles trapacearam em duas lutas anteriores. Para completar o quadro da desgraça, o portorriquenho assumiu que mudou seu jogo e priorizou o ataque ao rosto de Collins deliberadamente.

Meses antes de Collins-Resto, Lewis havia se metido em outra controvérsia. Aaron Pryor colocou o cinturão dos superleves em jogo contra Alexis Argüello no Orange Bowl, em Miami, em novembro de 1982. Pryor havia sido atingido duramente no 13º assalto e parecia que Argüello conseguiria se tornar o primeiro campeão em quatro categorias. No intervalo para o penúltimo round, o cutman de Pryor pegou uma garrafa de água. A transmissão da HBO captou Lewis gritando: “Não essa! Me dê a outra garrafa, a que eu misturei!” Pryor voltou revitalizado e conseguiu o nocaute com uma saraivada de golpes que largou Alexis em colapso no tablado.

A garrafa nunca foi examinada pela Comissão Estadual de Boxe da Flórida. Após o duelo, Argüello disse que achara estranha a dureza das luvas de Pryor. Na época, disseram que era choro de perdedor do nicaraguense.

Alexis Argüello recebe atendimento médico após ser nocauteado por Aaron Pryor, em 1982

Alexis Argüello recebe atendimento médico após ser nocauteado por Aaron Pryor, em 1982

Futuros diferentes para os condenados

No dia 1º de julho de 1983, a NYSAC mudou o resultado de Collins-Resto para no contest e cassou a licença de Panama Lewis, que ficou impedido de exercer a profissão em todo o solo norte-americano. Três anos depois, Resto e Lewis foram considerados culpados em processo criminal por agressão, posse criminosa de arma (os punhos de Resto) e conspiração. Panama também foi incriminado por adulterar uma competição esportiva. O treinador pegou seis anos de cadeia, enquanto Resto foi sentenciado à metade. Ambos cumpriram dois anos e meio.

Além de mostrar nenhum remorso, Panama sustenta até hoje que é inocente, praticamente colocando a culpa no cutman Artie Curley, já falecido – as investigações inocentaram Curley. Apesar de ter sido banido do boxe, ele continua exercendo a profissão de treinador por baixo dos panos; apenas não vai ao ringue, mas aparece até mesmo em coletivas de imprensa de seus pupilos, além de trabalhar nos camps de campeões mundiais como Mike Tyson, Zab Judah, Sultan Ibragimov e François Botha.

Também oficialmente banido, Resto sofreu muito mais que o técnico. Sem ter o dinheiro e a moral de Panama, o portorriquenho foi abandonado pela família e teve que morar por anos no porão da academia onde treinava, enquanto Lewis tem um apartamento na Flórida e uma casa em Las Vegas. Resto passou a dar aulas para crianças na academia e a trabalhar como faxineiro. Ele teve negados inúmeros pedidos de licença para trabalhar como córner.

Anos depois, Resto procurou a viúva de Collins para pedir perdão. “Sinto muito pelo que fiz a você. Rezo por ele todos os dias”. Andrea Collins ficou viúva aos 18 anos, grávida.

Os olhos de Billy Collins Jr. após a luta contra Luis Resto

Os olhos de Billy Collins Jr. após a luta contra Luis Resto

As lesões decorrentes do combate encerraram a carreira de Collins Jr. Descolamento de retina, sua visão se tornou permanentemente embaçada. Ele perdeu dois empregos. Nove meses depois, bêbado, em depressão profunda, Collins Jr. bateu com o carro e morreu na hora. Muitos dizem que ele cometeu suicídio por não suportar ter sido impedido de seguir a carreira no boxe.

Billy Sr. e a mãe do jovem lutador, Bettye Collins, moram no subúrbio de Nashville, numa casa modesta. Ele recebe aposentadoria como motorista de caminhão e ela recebe pensão por invalidez por conta de uma artrite reumática degenerativa. O filho, que estava perto de disputar o título mundial e ganhar dinheiro, hoje vive apenas nos sonhos dos pais.

Billy Collins Sr.:

“Ele seria campeão. Surraria (Sugar Ray) Leonard e Thomas Hearns. Tenho certeza. Eu penso no meu filho todos os dias da minha vida.”

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.