A superestimação da invencibilidade no MMA

Em quase 24 anos de eventos, o UFC teve poucos casos de lutadores que se tornaram campeões com nenhuma derrota no cartel. São alguns casos isolados como Lyoto Machida, Rashad Evans, Ronda Rousey, Cain Velasquez, Tim Sylvia. Mais recentemente tivemos Cody GarbrandtJoanna Jedrzejczyk, ambos derrotados na mesma noite, no épico UFC 217.

Os papos das “derrotas ensinam mais que as vitórias” e do “você nunca perde se você aprende” são bem manjados, mas acabam se tornando grandes verdades quando tratamos de dois talentos natos como são os casos de Joanna e de Cody. A polonesa venceu suas 14 lutas no MMA e estava perto de igualar o recorde de defesas de título de Rousey, mas o que aconteceu na sua primeira derrota, para uma oponente inferior a outros nomes que Jedrzejczyk já tinha batido?

A explicação mais próxima que consegui criar é o fato de Rose Namajunas não ter respeitado o gabarito e as habilidades de Joanna em pé, respondendo qualquer iniciativa da campeã. Entenda que é diferente dos casos de Claudia Gadelha, por exemplo, que começou a luta imprimindo um ritmo forte, mesclando os golpes com as quedas. Para cada jab lançado pela então campeã, Namajunas fintava, entrava no raio de ação e devolvia. Assim ela fez Joanna errar mais golpes do que estava acostumada e a criar mais brechas. Em dois desses erros da polonesa, um vindo de um chute baixo (que já estava sendo aproveitado por Rose) e outro de uma angulação errada, provavelmente mostrando o desespero de Joanna na situação, Namajunas conseguiu capitalizar. Por mais que Jedrzejczyk já estivesse em perigo em outras vezes, como na segunda luta contra Gadelha e contra Karolina Kowalkiewicz, ela nunca viu alguém capitalizar tão bem os seus erros. Tomar sufoco da forma que ela tomou naquele início foi assustador para quem é uma das melhores strikers do MMA mundial.

E sobre Garbrandt? Sim, eu sei que ele já foi nocauteado no MMA amador, mas ainda carregava uma áurea de invencibilidade no MMA, ainda mais com o desempenho sensacional contra Dominick Cruz, no ano passado. TJ Dillashaw é um atleta melhor que Cody, mas o agora ex-campeão conseguiu ótima vantagem no primeiro round, acertando bons socos na cabeça do desafeto, chegando ao knockdown no final do assalto. Garbrandt ganhou confiança e seguiu bem no início do segundo, até tomar uma bica na cabeça que o levou ao chão pela primeira vez na carreira profissional. Para um campeão, faltou experiência em saber lidar com situações de risco. A luta tinha cinco rounds e Cody ainda estava bem. No entanto, o desespero bateu, ele decidiu partir para a troca franca de socos com Dillashaw. Acabou nocauteado e sem o cinturão.

Como dois atletas talentosos, Jedrzejczyk e Garbrandt provavelmente crescerão bastante depois de suas derrotas – aposto que poderão retornar ao posto máximo do MMA em breve. As derrotas sempre moldam lutadores melhores quando eles conseguem aprender com os erros. O que seria de Conor McGregor caso não tivesse perdido para Nate Diaz, ou, lá atrás, para Joseph Duffy? O que seria de Anderson Silva caso não tivesse caído na tesoura voadora de Ryo Chonan? Será que Colby Covington teria vencido Demian Maia caso não tivesse sido finalizado por Warlley Alves?

É certo que não existe lutador perfeito, mas o cartel perfeito nunca foi e nunca será uma necessidade no MMA, tampouco uma derrota descredencia o futuro de alguém.