Por Idonaldo Filho | 20/01/2020 23:45

A “ESPN” anunciou na última quinta-feira (16) que o campeão dos médios, Israel Adesanya, colocará seu cinturão em disputa contra o cubano Yoel Romero no UFC 248, programado para o dia 7 de março, em Las Vegas. Será a primeira defesa do nigeriano, que conquistou o ouro após nocautear Robert Whittaker.

É inegável que se trata de uma excelente peleja, sendo muito provavelmente a última chance de Romero conquistar o título do UFC devido à idade avançada para o esporte, já que o atleta completa 43 anos pouco mais de um mês após o card. Porém, este casamento soa muito desrespeitoso aos demais atletas da categoria – que não está em seus melhores dias, mas ainda tem contenders mais merecedores.

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Vindo de duas derrotas seguidas, Romero recebe o title shot das mãos de Dana White. Apesar dos duelos contra Whittaker (o segundo) e Paulo Borrachinha terem sido memoráveis e equilibrados, é inexplicável a razão do veterano ganhar essa chance, visto que perdeu em ambas as oportunidades.

Outra situação inusitada envolvendo desafiantes ocorreu na última sexta-feira (17). O “Combate” noticiou que o UFC planeja fazer com que Henry Cejudo defenda o título dos galos contra o brasileiro José Aldo no UFC 250, ainda sem local e data definidos, mas com negociações para ser em São Paulo, no dia 9 de maio.

Aldo também vem de dois reveses, assim como Romero, sendo que o último deles foi por decisão dividida quando enfrentou o compatriota Marlon Moraes, no UFC 245, em sua estreia na divisão. O próprio Dana afirmou ter marcado o resultado favorável para o ex-campeão dos penas, mas há de se convir que o que vale são as papeletas dos juízes e existem outras variáveis que só acentuam o erro que é colocar o manauara nesta posição.

Ambas as situações não se justificam esportivamente. Na categoria dos médios, o principal postulante ao título é Paulo Borrachinha, que está machucado. Na urgência de encontrar um desafiante para Adesanya, já que a organização demonstra não confiar apenas em Weili Zhang e Joanna Jedrzejczyk para liderarem o evento, a segunda opção mais adequada seria o americano Jared Cannonnier.

O “Killa Gorilla” vem de três vitórias maiúsculas na categoria, contra David Branch, Anderson Silva e, principalmente, Jack Hermansson – que estava praticamente a uma luta de chegar ao posto de desafiante após vencer Ronaldo Jacaré, em abril de 2019. Outra opção interessante poderia ser Darren Till, que fez uma ótima estreia no peso médio e bateu Kelvin Gastelum no UFC 244. Seriam duas opções mais respeitáveis em termos esportivos do que o cubano.

Yoel Romero teve duas chances de ser campeão do UFC. (Foto: Christian Petersen / Getty Images)

Romero também nunca se mostrou bom vendedor, ainda que estivesse como coadjuvante nos cards em que fez parte do main event. O atleta olímpico liderou três eventos numerados com números baixíssimos de pay-per-view, sendo 250.000 pacotes vendidos no UFC 225 e 130.000 pacotes vendidos nos UFC 213UFC 221. Certamente, a escolha também não foi por motivo comercial se olharmos as estatísticas. Neste sentido, Darren Till seria um nome mais adequado, por ser um atleta jovem, carismático e com o grande mercado britânico por trás.

A escolha de Aldo ainda é muito pior. O peso galo é uma das divisões mais interessantes do momento, recheada de novidades e contenders com atuações magníficas. Até entendo o porquê da empresa deixar de lado Marlon Moraes, uma vez que o lutador foi derrotado pelo atual campeão na disputa pelo título vago há pouco tempo, mas se formos olhar os demais atletas, a lambança feita pelo UFC fica ainda mais gritante.

Cory Sandhagen e Petr Yan vêm em sequências invictas de cinco e seis vitórias na organização, sendo que  primeiro superou Raphael Assunção e o segundo Jimmie Rivera. Aljamain Sterling vem de quatro triunfos, dois deles com impressionantes desempenhos contra o mesmo Jimmie Rivera e Pedro Munhoz – em uma clara eliminatória. São três atletas em uma situação muito melhor do que a do brasileiro, e que não devem estar nada felizes com a notícia.

A ideia de Aldo estar disputando o título sem nunca ter vencido nos galos é obviamente ligada ao evento possivelmente ser realizado no Brasil. O ex-campeão jamais foi um grande vendedor de pay-per-view, mas o fã médio brasileiro conhece o manauara e é uma luta que facilmente lotaria a arena. Cejudo é fluente em português e isso pode auxiliar bastante na divulgação do evento. É de se imaginar também que o UFC vai “maquiar” as derrotas seguidas de Aldo, assim como é possível que a mesma atitude aconteça por parte da imprensa. Colocar debaixo do tapete essa informação negativa, tentar dar a impressão de que o resultado do último combate foi errado, ou até mesmo nem mencionar isso. É mais provável que as ações sejam focadas em glórias do passado – que foram realizadas em outra categoria.

Ex-campeão dos penas, Aldo disputará título dos galos sem nunca ter vencido na categoria. (Foto: Jeff Bottari / Zuffa LLC)

Não adianta. O que o UFC fez é indefensável. Eu, assim como todos vocês, vou assistir e não dá para negar que são casamentos espetaculares se resumirmos tudo apenas dentro do octógono. Quem falar que não vai assistir tem chances de estar mentindo, e é certo que estaremos empolgados quando os eventos acontecerem. Porém, a atitude da organização é simplesmente vergonhosa e cruel. A última vez que alguém esteve em uma luta por título vindo de duas derrotas foi em 2017, após Holly Holm subir para o peso pena e enfrentar Germaine de Randamie. Nem mesmo Conor McGregor, que faz o que quer na empresa, está disputando título depois de derrota.

A impressão é que Dana White está fazendo esses casamentos por vontade própria e pronto, sem consultar ninguém. Não dá para por a culpa total nos campeões, pois são funcionários que apenas aceitam os duelos sob risco de serem depostos, mas é nítido que uma parcela recai sobre eles, principalmente no caso de Cejudo – pelo fato do campeão pedir esses adversários. Mesmo com méritos, vários lutadores sofrem com essas furadas de fila e o clima deve ser de decepção.  Lembremos que alguns nomes consolidados preferiram não renovar contrato com o UFC nos últimos anos por estarem insatisfeitos com a gestão. O mercado atual dá ainda mais opções, pois a PFL e o ONE Championship constantemente vêm assinando com bons atletas para aumentar a qualidade do plantel.

Infelizmente, parece que estamos nos acostumando com a injustiça. Não é só questão de meritocracia, é bom senso. O ano de 2020 mal começou e temos várias controvérsias no UFC. Que os rankings não valem nada todo mundo já sabe, mas agora parece vencer lutas também não é uma garantia para disputar títulos. Aos que desejam serem desafiantes, uma dica: comecem a perder de propósito! Está cada vez mais nítido que, atualmente, é essa a receita do bolo.

Vocês concordam com os title shots de Romero e Aldo? Vamos debater nos comentários!