Por João Gabriel Gelli | 03/07/2019 14:25

Apesar de todos os esforços aqui no MMA Brasil, sobretudo na coluna MMA Além do UFC, sabemos que o UFC atrai as atenções exclusivas de praticamente todos os fãs de luta. O Bellator também tem conquistado sua parcela no mercado. Porém, quando se afasta destas duas organizações, a audiência cai vertiginosamente. É uma pena, uma vez que basicamente todos os lutadores começaram nos cenários regionais e puderam travar grandes batalhas enquanto aperfeiçoavam suas habilidades.

Um exemplo dessas grandes batalhas aconteceu no M-1 Challenge 102, realizado no Cazaquistão, no dia 28 de junho, e que foi listado pelo MMA Além do UFC como um dos cards para se ficar de olho na semana. O evento contou com três disputas de cinturão, com o prospecto Shavkat Rakhmonov defendendo o cinturão dos meios-médios pela primeira vez com um nocaute sobre o brasileiro Tiago Varejão na luta principal. No entanto, queremos chamar a atenção de outro combate. Duas posições antes na escala, o campeão dos penas, Nate Landwehr, defenderia o título numa revanche contra Viktor Kolesnik – os dois travaram uma guerra que dá título a este texto.

Se você não conhece nenhum deles, provavelmente não está sozinho no mundo, então façamos com que este seja o momento de mudança. Contudo, antes de irmos para a luta em si, vamos passar pelo histórico dos dois para ajudar a entender o combate e tentar tornar ambos um pouco mais conhecidos.

Quem são Nate Landwehr e Viktor Kolesnik?

O começo da carreira de Landwehr foi feito nos cenários regionais do Tennessee, Carolina do Norte e Pensilvânia. Nesse processo, ele acumulou cartel de 8-2 em pouco menos de cinco anos, com uma das derrotas vindo para um adversário razoável, Mark Cherico. Com este retrospecto, Nate recebeu o chamado do M-1 após ter um duelo contra Julio Cesar Morceguinho cancelado no Brave CF. Em sua estreia na organização russa, superou Mikhail Korobkov com um nocaute no segundo round. Então, chegou ao primeiro duelo com Kolesnik.

Landwehr já foi mencionado no MMA Brasil algumas vezes, a principal delas na matéria sobre os campeões do M-1 após o anúncio da parceria com o UFC. Nós o descrevemos como um lutador razoavelmente completo, mas que opta por transformar seus combates em pancadarias de ritmo intenso. Tem uma defesa esburacada, mas ótima capacidade de absorção de golpes e boa habilidade para encerrar combates.

Do outro lado, Kolesnik começou no MMA com apenas 17 anos e fez toda a sua carreira na Rússia, com passagens pelo ProFC e Tech-Krep, dois dos principais celeiros de talentos da região, antes de chegar ao M-1. Ele estava com cartel de 12-2 em cerca de 4,5 anos como profissional quando assinou com a organização na qual está até hoje. Viktor conseguiu duas vitórias e um empate até o momento do primeiro confronto com Landwehr.

Kolesnik ainda é muito jovem e tem pontos para lapidar, mas mostra bom condicionamento físico para disputar três rounds com ritmo adequado. Isto é importante, já que é um kickboxer de pouca potência, com a maior parte de suas lutas decididas pelos juízes laterais. Viktor pode tentar mudar os rumos do combate com quedas pontuais, mas não é particularmente eficiente neste quesito. Ele prefere operar na longa distância, sobretudo com os chutes.

A primeira luta entre Landwehr e Kolesnik

No primeiro duelo entre os dois, já pode ser verificada boa parte da tônica que a revanche teria. Kolesnik se mostrou bem preparado para lidar com a movimentação agressiva do adversário, executou contragolpes precisos e até anotou um knockdown com um belo chute. Entretanto, acabou arrefecendo diante da pressão de Landwehr, que impôs sua capacidade física e potência para sair vitorioso em uma decisão dividida de margem mínima e com brecha para ser marcada para os dois lados.

Como chegamos na segunda luta

Depois que venceu, Landwehr recebeu a oportunidade de disputar o cinturão contra o então campeão Khamzat Dalgiev, a quem superou com um nocaute no segundo round. Posteriormente, realizou sua primeira defesa ao bater Andrey Lezhnev por nocaute técnico, numa grande virada após ter sofrido um violento knockdown no primeiro assalto e também ter perdido o segundo. Neste período, Kolesnik se recuperou do revés ao finalizar o brasileiro Davi Boxer com uma guilhotina e superar Daniel Swain. Este par de triunfos, e o fato da primeira luta entre Viktor e Nate ter sido empolgante e parelha, motivou o M-1 Challenge a escalar a revanche para uma disputa de cinturão.

A melhor luta do ano que ninguém viu

Agora, explicado todo o contexto que nos trouxe até esta revanche, é hora de tratar o motivo deste artigo. A luta pode ser conferida na íntegra no vídeo abaixo. Infelizmente só encontrei no site do próprio M-1, cujo player não é dos melhores, mas aguentem firme, porque vale a pena.

O primeiro round teve Nate pressionando de maneira constante, com golpes pesados e fazendo o máximo para manter Kolesnik próximo, sem a possibilidade de trabalhar chutes. O russo se defendeu bem no geral e não deixou que o campeão dominasse completamente as ações, mas acabou superado no volume e potência.

Viktor voltou mais consciente da movimentação que precisava fazer para manter o americano afastado na segunda parcial e começou a acertar mais golpes. No entanto, quando estava em seu melhor momento, viu Landwehr reverter a maré e passar a conectar com potência e voltar a tomar o controle. No final do round, Kolesnik conseguiu uma queda, chegou a montar e ameaçar com uma guilhotina, mas não teve sucesso. Quando os dois ficaram de pé novamente, o russo disparou uma canelada que fez Nate cair de joelhos e voltar. Infelizmente para o desafiante, não houve tempo de concluir a peleja, mas foi o suficiente para levar o 10-9.

No terceiro assalto, Kolesnik subiu ainda mais o volume e puniu Landwehr com mais frequência. Isso veio justamente em um round no qual o campeão caiu um pouco de produção, apesar de continuar avançando para a trocação franca sem o menor pudor. Neste momento, a luta parece estar mais para o lado do desafiante, que tem vantagem de 29-28. Os dois já estavam dando sinais de cansaço devido ao ritmo intenso do combate.

Os rounds de campeonato começaram com Landwehr disposto a manter o cinturão. Mesmo cansado, ele seguiu com a sua estratégia e teve muito sucesso no clinch, ao disparar uma série de uppercuts e joelhadas que machucaram Kolesnik e minaram o gás do russo. A cerca de um minuto para o fim da quarta etapa, Viktor acertou um chute rodado na linha de cintura que fez o campeão se curvar e, finalmente, recuar. Contudo, Nate conseguiu travar a luta e ainda conectou uma pesada sequência nos segundos finais para encerrar uma parcial bem favorável.

Com a luta empatada indo para os cinco minutos definitivos, a plateia estava aos gritos. Bela luta, de muita entrega, atrito, dano e movimentos plásticos. Os dois já estavam visivelmente exauridos, o que provavelmente foi o motivo de Landwehr tentar uma queda para mudar de estratégia. Com a luta no chão, ele deu alguns socos no ground and pound, mas viu o adversário logo levantar. Kolesnik acertou mais um chute alto, que fez Nate balançar, mas não deu sequência. A luta seguia muito parelha até o campeão chamar o desafiante para a porradaria franca nos últimos segundos. Com a vantagem do volume e da potência, o americano fez o suficiente para ganhar a opinião dos juízes e sair vitorioso por decisão unânime.

Agora, já com duas defesas de título, Landwehr está elegível para ser chamado pelo UFC. Seu estilo inconsequente e empolgante encaixa como uma luva com tudo o que a maior organização do MMA mundial deseja de seus atletas, o que leva a crer que o contato do matchmaker Mick Maynard não deve demorar. Já Kolesnik dá alguns passos para trás e tem lições para aprender, mas já mostrou ter talento. Como ainda é muito jovem, Viktor é um nome para se observar para o futuro.