A Lenda se despede

Por Alexandre Matos | 29/06/2010 20:53

A edição de sábado do Strikeforce já teria motivo suficiente para entrar para a história com a maiúscula vitória conquistada por Fabricio Werdum sobre a lenda russa Fedor Emelianenko. Mas um fato ocorrido logo antes da luta principal do evento ajudou a tornar a noite ainda mais especial. Frank Shamrock, ou “The Legend”, provavelmente a maior estrela da organização, anunciou sua aposentadoria oficial do MMA no mesmo local em que fora diversas vezes aplaudido: a cidade de San Jose. Foi lá onde também ajudou a estabelecer a American Kickboxing Academy, considerada uma das melhores equipes do mundo, envolvendo nomes como Cain Velasquez, Jon Fitch, Josh Koscheck, Mike Swick e Cung Le.

Batizado como Frank Alisio Juarez III, nascido no dia 8 de dezembro de 1972, irmão adotivo de Ken – com quem inclusive nutre um péssimo relacionamento desde sempre -, Frank foi um dos maiores campeões que o MMA já viu. Ele foi o primeiro detentor do cinturão dos médios do UFC. Além deste, a Lenda conquistou outros títulos, como o King Of Pancrase, o cinturão meio-pesado do WEC e o dos médios no Strikeforce. Foi nomeado o Lutador da Década de 90 pela Wrestling Observer. Frank foi um dos primeiros lutadores que realmente mesclou estilos distintos, criando um plano de jogo que fluia harmonicamente entre a luta olímpica, o kickboxing e o grappling de chão. Numa época em que praticamente ninguém conhecia nada sobre cross-training, o que Frank fez foi realmente notável.

Aos 12 anos, depois de passar por centros de reabilitação para menores infratores e até prisão, o menino Frank Juarez foi morar em Susanville (Califórnia) com Bob Shamrock, conhecido por auxiliar menores com problemas sociais. Aos 21, Frank foi oficialmente adotado por Bob, passando a usar o sobrenome que o tornou famoso, assim como já fizera antes seu irmão Ken, também adotado por Bob. Apesar dos problemas de relacionamento – quando o caçula inclusive acusou o outro de fazer uso de esteroides -, foi Ken quem introduziu o irmão no mundo das lutas, quando passou a treiná-lo em submission wrestling.

Depois de ter passado alguns anos lutando no Japão pelo Pancrase, primeiro evento que popularizou o esporte na Terra do Sol Nascente, Frank foi contratado pelo UFC em 1997, onde conquistou o status definitivo de lenda. Sua primeira luta valeu o cinturão dos médios, criado para aquela ocasião. O adversário, Kevin Jackson, era amplamente favorito. Campeão do torneio dos médios do UFC 14, Jackson fora campeão olímpico de luta estilo livre em Barcelona-92 e estava invicto no MMA. Apesar das poderosas credenciais do oponente, Frank precisou de parcos 14 segundos para encaixar um arm-lock e conquistar o cinturão. Depois ele enfrentou o russo Igor Zinoviev, especialista em sambô e kickboxing, também invicto. Depois de sofrer um violentíssimo bate-estaca, Zinoviev acabou nocauteado, inconsciente, com a clavícula e a quinta vértebra fraturadas. A derrota para Frank provocou a aposentadoria de Zinoviev das artes marciais.

Shamrock defendeu seu cinturão mais duas vezes, contra Jeremy Horn e John Lober, sempre vencendo de modo inconteste. Seu ponto alto na organização veio na quinta luta, quando enfrentou a estrela em ascenção Tito Ortiz, no UFC 22. Frank se salvou de três rounds sofrendo com o ground and pound do oponente, maior e mais forte. Virou a luta, massacrou o Bad Boy de Huntington Beach e finalizou o combate com socos e cotoveladas no final do quarto round. A vitória maiúscula levou Frank a se retirar do UFC (e do esporte), mas não sem antes provocar os patrões:

“Estou me aposentando. Quando vocês tiverem competidores de verdade, desafios reais para mim, podem me chamar novamente.”

Quase quatro anos depois, Frank largou a vida de comentarista e voltou à ação. O WEC criou a divisão dos meio-pesados e convocou o atleta para disputar o primeiro cinturão, no evento batizado com o sugestivo nome de WEC 6: Return of a Legend. O americano Bryan Pardoe não foi páreo para a Lenda, tendo sido submetido por uma chave de braço em menos de dois minutos. Mais três anos sem lutar e veio a estreia no Strikeforce, quando nocauteou Cesar Gracie (treinador dos atuais campeões do Strikeforce Jake Shields, Nick Diaz e Gilbert Melendez) em apenas 21 segundos. Venceu Phil Baroni em 2007 e conquistou o cinturão dos médios. Pela nova casa, Frank conseguiu os maiores públicos da história do Strikeforce, em suas lutas contra Cesar Gracie, Cung Le e Nick Diaz, sempre na sua San Jose, que o acolheu como o filho pródigo.

Mas o tempo passa e a idade começa a pesar para qualquer atleta. Junte isso aos grandes hiatos sem lutas e Frank passou a ser derrotado com frequência maior que o habitual. Na primeira defesa do cinturão do Strikeforce, Shamrock foi tratorizado pelos chutes de Cung Le. Por tentar defender os poderosos golpes do vietnamita, Frank acabou nocauteado com os dois braços quebrados. Um ano depois, foi novamente atropelado, desta vez por Nick Diaz. Era sinal claro que a hora de parar havia chegado.

“Quando eu tinha 22 anos, meu irmão me deu duas coisas importantes. Ele me deu muito castigo e me deu o amor pelo MMA. Desde então tenho viajado pelo mundo ensinando MMA, pregando MMA, e arrastando minha pobre família comigo de um país a outro, de cidade a outra. Estou velho e batido, prefiro gastar meu tempo com minha filha, meu filho e minha família do que me aleijar numa academia. Tenho 37 anos agora, minha hora chegou. O esporte tem crescido muito além de mim. Sempre apareci para lutar, não importava o quanto estava doente ou machucado. Nesta noite anuncio minha aposentadoria e digo que esta é a última vez que entro num cage como um lutador. Foi uma honra sangrar por vocês, quebrar meus ossos por vocês, e diverti-los.”

Infelizmente para ele, seu reinado no UFC se deu na época das trevas da organização. Em estado pré-falimentar, o evento americano tinha sua credibilidade afetada pelas perseguições sofridas na época do MMA versão beta. Talvez isso tenha ajudado a fazer com que Frank Shamrock não tivesse o reconhecimento que merece. Ele se aposentou com histórico de 23-10-2, com um dos retrospectos mais incríveis da história do UFC e status de Lenda. Por uma birra idiota de Dana White, o Shamrock verdadeiramente relevante para o esporte não está no Hall da Fama da organização (o irmão Ken, muito menos capacitado tecnicamente, está). Mas não há de ser nada. Certamente Frank será para sempre incluido no Hall da Fama de qualquer fã do esporte.